Talvez não me entendesse. Por isso esqueci o oceano de seu olhar, a luz de sua face, o conforto de seu sorriso. Apaguei os bons e os maus momentos, os sins e os nãos, o carinho e a amizade. Tentei viver normalmente e enganar-me que era feliz esquecendo.
Certa manhã, levantei-me e não encontrei o relógio. Revirei todo o apartamento e terminei por aceitar a idéia de um roubo misterioso. Liguei para a companhia telefônica e informei-me das horas. Preparei o café da manhã e só notei a falta da xícara quando esquentava o leite. Saí para o trabalho.
Passei o dia sentindo falta de objetos e pertences. Mas estava ocupado, esforçando-me para esquecer. Tomava atitude apenas quando necessitava do desaparecido. Em vão.
Fim de tarde: ao sair do trabalho não cumprimentei quem sempre cumprimentava. As pessoas não estavam nos lugares de costume. Quando cheguei em casa, não achei a chave. Procurei o síndico e não o encontrei. Liguei para conhecidos, mas o telefone estava sempre mudo. Talvez fosse o orelhão. Saí às ruas procurando um chaveiro, contudo não havia lojas abertas. Olhei o céu e não vi estrelas ou a lua. Nas calçadas não se via um único ser vivo; nas ruas, nenhum carro.
Voltei para casa. Como não encontrei ajuda, decidi arrombar a porta. Entretanto, o prédio não estava mais lá. Não estavam também os prédios vizinhos e a grande antena de tevê. Confuso, observei o lugar vazio. Foi quando eu vi o nada engolindo as calçadas, os postes, os bueiros, o asfalto, tudo. Não pude fugir, concentrava-me apenas em esquecer o olhar, a face, o sorriso... E o nada apagou a vida.
(Fim da crônica. Deixe seu voto - "like" - e me siga aqui no WattPad. Toda quarta-feira tem uma crônica nova em "Crônicas Doutro Mundo")
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Crônicas Doutro Mundo
Historia CortaCrônicas e pequenas histórias sobre amor, sobre paixões, sobre mistérios, sobre a vida. Uma nova crônica toda quarta-feira.
