A conversa a seguir acontecerá em um futuro não muito distante, e você não pode fazer nada para impedir que isso aconteça.
(...)
"Lembra quando a gente usava aquele aplicativo para conversar?"
"Nossa, é verdade mesmo, que coisa mais antiquada. Lembra daquelas carinhas que a gente mandava no lugar de palavras? Como era o nome daquilo mesmo? Emoti? Emoji?"
"Pois é, os tempos mudam. Hoje aqueles aparelhinhos são completamente inúteis."
"Prefiro o jeito que estamos hoje... O que será que virá no futuro?"
(...)
Nossos dois personagens estão localizados na mesma casa, no mesmo quarto sem janelas e posicionados confortavelmente em casulos fabricados com fibra de vidro hermeticamente fechados e conectados à internet. Eles não falam, apenas pensam e confirmam o envio das ondas "textopáticas" (palavra usada para descrever o texto enviado por telepatia através de uma conexão com a internet).
Nesse novo mundo a cultura predominante é o egoísmo pois não há como se preocupar com pessoas que você mal conhece, não há conversas olho-no-olho mas ninguém se importa, é algo antiquado: ninguém mais fala. Você não precisa sair para trabalhar, mesmo trabalhos considerados braçais são realizados por robôs controlados por homens e mulheres que são conhecidos como "operários" e fazem isso diretamente de suas casas. Comer? Ninguém precisa se preocupar com isso, toda a comida é mandada para dentro do casulo por sondas, para que haja mais rendimento no trabalho, visto que não é preciso parar para comer. Ao fim do dia as crianças saem dos casulos de ensino e os adultos saem de seus casulos de trabalho. Encontram-se na sala. Tudo o que precisava ser comunicado, conversado, explicado, pedido e respondido já foi pensado e enviado ao longo do dia. Não há necessidade de palavras. Assistem televisão. Vão para seus quartos. Dormem.
Existem tribos. Conhecidos como Rebeldes e estão em todos os lugares, espalhados pelo mundo, são pessoas que desistiram desse estilo de vida e encontraram refúgios esquecidos pela sociedade moderna: fazendas, casas na praia, sítios à beira do lago. Lugares inúteis: sem conexão, fora de área.
Esses agrupamentos se reúnem longe do resto do mundo para viver algo diferente. Plantam e colhem, ensinam e aprendem, falam e ouvem. Conectam-se uns com os outros. Eles não esqueceram as máquinas, mas elas trabalham para eles, e não atuam como parte integrante de seus corpos. Não é fácil deixar os costumes contemporâneos para trás, mas é algo que eles julgam necessário. Viver assim é escolher outro tipo de conexão e, infelizmente, essa conexão às vezes dói, as pessoas machucam umas às outras e não há como desliga-las de seus contatos: é preciso reestabelecer a conexão, consertar, perdoar, amar.
Nesse futuro você precisará escolher um lado. Conectar-se a uma máquina que te conecta às pessoas ou pegar um atalho: conectar-se diretamente com as pessoas. O atalho do olho-no-olho, do face-a-face. O atalho do sorriso, do choro, da dor, da vida. Lembre-se apenas que as escolhas que você faz hoje definirão em qual lado você estará.
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Conecte-se
Short StoryAs conexões são inevitáveis, mas você pode escolher como quer fazer isso. Cuidado, suas escolhas hoje definirão em qual lado da história você estará.
