{Amelia}
A casa estava cheia. O barulho de crianças correndo, o cheiro de comida saindo do forno, as risadas das pessoas que matavam a saudade. Tudo isso ainda estava incompleto, porque ele ainda não estava lá. Há três anos ele deixou de estar em qualquer lugar para mim e passou a ser apenas um garoto que eu conhecia, que trabalhava comigo, que me entendia, que me amava... E eu sempre soube que ele me amava. Eu sempre soube e deixei esse amor todo escapar sem que eu nem percebesse.
— Gêmeazinha! — levantei a cabeça ao ouvir Cassandra gritar e antes que eu percebesse, ela estava envolvendo seus braços em meu pescoço.
— Cassie, que saudade eu estava de... Meu Deus! — exclamei ao olhar para baixo — Sua barriga está enorme, minha sobrinha está crescendo!
— Claro, sua boba. Ai, essa vida de grávida é complicada. Eu não posso nem calçar um salto, acredita? Absurdo.
Absurdo é nós termos a mesma idade. Cassie tem dezenove anos, um marido, uma casa em tão tão distante, e uma filha que ainda está para chegar. E eu? Bem, eu moro com meus pais, entrego comida em abrigo de idosos e ainda estou no segundo ano da faculdade.
— Mamãe está lá em cima, o pai se encarregou de ajudá-la a desfazer as malas e depois eles irão descer para cumprimentar o pessoal.
— John trouxe Julian. — ela falou rapidamente e virou a cara antes que visse minha expressão de ódio mortal.
— Cassandra, eu...
— Tá, tá, eu sei. Não tive como impedir, é o irmão dele.
— Mas é sua família que está aqui.
— Qual é, Amelia. Vocês se conhecem há tanto tempo, por que essa briga idiota?
— Você não entende, você nunca perdeu ninguém que ama.
— Para de ser boba, vira a página. Se Julian não for o suficiente pra você, eu tenho certeza de que ainda vai encontrar alguém. Mas para de ficar relembrando, e relembrando, e relembrando...
— Talvez todos vocês devessem parar de dizer o que eu devo ou não fazer. — declarei e me abaixei, beijando sua barriga.
— Talvez você devesse pegar aquele maravilhoso bolo de chocolate e colocar aqui na minha frente.
— Folgada — resmunguei.
— Não sou eu que estou pedindo. É a sua sobrinha.
Rolei os olhos e me afastei enquanto ela abria um sorriso. Peguei um prato de vidro e tentei desviar de todas as pestinhas que corriam sem parar, rindo pra valer. Coloquei dois dois pedaços de bolo, mas depois ri. É a Cassie.
Quando me preparava para voltar e entregá-lá, algo pulou em minhas costas e abaixou quase toda a minha saia.
— SURPRESA! — só poderia ser uma pessoa com sérios problemas mentais. Mia.
— Quer me deixar nua? — empurrei-a enquanto ajeitava discretamente a blusa por dentro da saia e ela soltou a maior gargalhada.
— Eu já te vi nua, não é grande coisa — deu de ombros enquanto acendia um cigarro.
— Pensei que você iria me deixar aqui. — caminhei em direção à Cassie e ela me acompanhou.
— Você tem o Juuliaaan — Mia falou daquele jeito que eu odeio, prolongando cada letra do nome de Julian.
Rolei os olhos pela quinta vez naquele dia e coloquei o prato na frente da grávida esfomeada.
— A gêmeazinha me conhece — ela riu ao ver os três pedaços alinhados.
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Cartas aos Fantasmas
Roman d'amour"Eu não sei o motivo de estar fazendo isso, porque o amor que sinto por você vai além de qualquer palavra que eu possa escrever nessa porcaria de caderno inútil. As lágrimas molham as folhas, e vai ficando mais difícil de segurar uma caneta com tant...
