Acordei assustada com o telefone de casa tocando. Olhei para o relógio em cima da cabeceira ao lado de minha cama e marcava 4h 45min. Levantei às pressas tentando calçar os chinelos, mas um dos pés não encontrei. Com o pé direito descalço corri até a sala. Nem as luzes acendi. Meu coração batia acelerado. Tudo bem que o horário era incomum, mas telefone fixo que toca de madrugada sempre me deu aflição, não sei porquê razão. Talvez pelos filmes de horror - dos quais até hoje não consigo assistir por ser medrosa demais.
Atendo ainda em pé desenrolando o fio embolado em volta dele.
"Sarah, desculpe a hora! Mas eu preciso falar com você! É urgen..."
Era a Melanie em soluços sem conseguir terminar de falar. Meu coração acelerou ainda mais seguido de calafrios por todo o corpo. Sabe aqueles segundos que são capazes de passar um filme na sua cabeça e a medida que cada cena acontece vem outra ainda pior? Era basicamente isso que estava acontecendo, até que eu consigo pedir para ela ficar calma, respirar fundo e tentar explicar-me o que estava acontecendo. Mas a tentativa foi um fracasso... Ela estava mesmo aos prantos! Eu só consegui dialogar naqueles poucos minutos, porém, tensos demais, de forma mecânica. Eu perguntava e ela respondia apenas 'sim' ou 'não'. Por fim, descartei as piores hipóteses: morte, acidente, doença, violência e espinha. Sim, espinha!
Melanie estava às vésperas de seu casamento e em sua lista das milhares de coisas que não poderiam acontecer , espinha aparecia em segundo lugar - apenas abaixo do item 'o noivo atrasar'.
Desligo o telefone. Volto para o quarto e rapidamente pego uma jaqueta e uma calça jeans para vestir. Procuro meias. Mas por quê raios eu nunca encontro meias? Ficam perdidas sempre sem par. Concluo que tenho problemas com pares, mas é um pouco tarde para elaborar uma tese sobre isso. Melanie precisa de mim desesperadamente. Penteio meu cabelo com os dedos e prendo-o para o alto com apenas um nó. No banheiro faço xixi, lavo as mãos e jogo uma água no rosto. Sinto gosto adormecido na boca, mas não há tempo para escovar os dentes nem beber água. Faço um tour pela casa até encontrar minha bolsa. Lá estava ela, sentadinha na cadeira da cozinha desde a hora do lanche assim que voltei do trabalho. Por cima dela continha farelos de pão que com certeza não eram meus. Alice, minha irmãzinha de 9 anos, havia feito sanduíche com presunto e provavelmente era a responsável pela quantidade de farelos espalhados pela cozinha. E também por ter deixado meu celular sem bateria sobre a mesa com a tela toda marcada de seus dedinhos lambuzados. Talvez, se ainda estivesse com carga Sarah teria ligado pro celular. Talvez não! Com certeza ela ligou! Meu Deus!!! Penso na aflição dela para conseguir falar comigo já que havia pouco tempo que eu estava morando em meu próprio apartamento e com telefone fixo havia menos de dois meses. Ela nem deveria ter decorado o número e muito menos teria salvo em sua agenda, já que caçoou de mim dizendo que se não sou pessoa jurídica, não tinha motivos para ter uma linha telefônica porque ninguém além de mamãe e telemarketing ligaria. Mas, essa foi uma das condições de mamãe quando saí de casa por livre e espontânea vontade. Era estranho para mim, prestes a completar trinta anos, com a minha carreira estabilizada ainda morar com meus pais. Foi uma forma que encontrei também para que mamãe deixasse um pouco de ser controladora. Sinto falta de Alice e espero que ela não passe pelo mesmo que eu, por isso, sempre que posso estou com ela. Pego no colégio, vamos ao cinema, fazemos compras juntas, mas o que ela mais gosta é de ficar no meu apartamento, fazendo comidinhas e jogando cand crush no meu celular. Adora passar das fases que fico empacada. Imagino que sinta-se livre, independente e ao mesmo tempo num território seguro. Na hora de ir embora é sempre aquele chororô. "Mas já?" , "Não quero ir agora!" , "Só mais um pouquinho.", "Pede a mamãe, Sá! Se você pedir ela deixa!". Acho que com ela, mamãe não será tão controladora. Está mais experiente e segura. Até porque engravidou de mim aos dezenove anos quando ainda estava noiva de papai. Cheia de receios, perdeu sua mãe aos treze e era a única menina, caçula, de outros quatro irmãos. Não teve muito a quem recorrer e teve de aprender a ser mulher, esposa e mãe, tudo sozinha. Para muitos foi um espanto a segunda gravidez dela, com quase cinquenta anos. Mas, para nós (papai e eu), foi uma grande alegria, e para ela, uma vitória. Depois de longos anos de tentativas, inúmeros tratamentos, depois de ter desistido, se conformado, aí então como uma grande supresa, Alice chegou com seus olhinhos cor de jabuticaba!
KAMU SEDANG MEMBACA
A sogra da minha melhor amiga!
Cerita PendekInicialmente este conto foi criado exclusivamente para o #desafio07 do perfil @RomancesBR, porém, seria muito bom para o meu aprendizado e exercício da escrita dar continuidade. Espero conseguir! Sarah é amiga de infância de Melanie, que está pres...
