Meia-noite, entre vírgulas e reticências, deixei-me envolver pela luminosidade hipnótica da tela. Frações de algo semiacabado, palavras soltas e sem sentido. Imaginei a me percorrerem os olhos de adolescentes, depressivos da madrugada, pseudônimos perdidos e críticos sedentos por preciosismos. Parecia que a todos se bastavam e ao vislumbrar a película brilhante enalteciam as palavras que fingiam para si. Pois não, a hipocrisia por baixo dos pieguismos, a animosidade por detrás dos contos de terror, ali também estava eu. Por fim, cansado da frequência das ondas de luz, decidi investir em mais um daqueles que vigiava.
"Embora, estiv Ei, ess Carlos" Interferi no texto alheio.
"Embor Ei, é com você!" Achou que era defeito. Fez uma pausa, antes de tentar novamente. Antes disso, insisti.
"Ei! Não está lendo?" Do outro lado, vi um rosto pálido de preocupação.
"Vai invadir outro. Vou desligar." Ele digitou.
"Não. Aqui é o Marcos, teu amigo." Escrevi o primeiro nome que me veio.
"Marcos? Como conseguiu acessar o meu texto? Não sabia que era usuário do wattpad." Pensou que era um conhecido.
"Cara, também não sei."
"E ai? Agora tá dando uma de hacker?"
"Que nada. Estou meio perdidaço."
"Deixa eu terminar meu texto que eu ligo para ti."
"Espera. Preciso dizer algo agora."
"Diga."
"Eu sei o que você é."
"Então, tá. Era isso?"
"Para, Carlos! Para!"
"O que?"
"Sim, foi o que a garota falou para você no seu quarto, antes de..."
Alguns segundos muito lentos interromperam nossa conversa. Mas, sabia que ele havia compreendido bem a mensagem. Deixei que a tensão ficasse insustentável até que ele voltou.
"Marcos. O que você disse mesmo?"
"É, Carlos. A sua prima que desapareceu. Não foram essas as palavras dela?"
"O que você quer?"
"Quero apenas sua dedicação."
"Como?"
"Toda meia-noite quero que venha aqui e leia meus textos, curta minhas histórias. Faça isso diariamente."
"Tá de sacanagem?"
"Carlos, apesar da sua vulgaridade ser interessante, não é isso o que busco. Como já falei, quero que você se dedique aos meus textos. Ah, esqueci de dizer. Eu não sou o Marcos."
Orientei o garoto sobre qual seria o primeiro texto a ser lido. Toda noite, o repassaria um endereço diferente e o lembraria que caso desobedecesse, todos os seus conhecidos seriam informados sobre o que ele fizera. Foi assim que consegui mais um assíduo leitor, para a minha turma de apreciadores. Tenho a noção que meus textos não são grandes obras, mas os meus leitores sentem algo no íntimo, principalmente quando compartilho seus conflitos uns com os outros, revigorando seus medos em cada história.
Certa noite, no entanto, percebi algo estranho. Carlos parecia mais decidido, deixava escapar até um certo tom desafiador em suas palavras. Leu todos os meus textos, mas não os aprovou. Depois de uma sequência de xingamentos, declarou que era o fim de nossa relação. Ele, sozinho, teria sumido definitivamente com o cadáver. "Carlos. Você tem certeza que quer continuar com isso?" Foram as minhas últimas palavras antes que ele desligasse o computador.
Passados alguns meses, o encontrei num bar, a festejar com amigos. Eu prefiro, muitas vezes, deixar que a alma se acostume com as esperanças de uma nova vida, que faça de conta que a culpa ficou embaixo do tapete, para que depois eu possa puxá-lo com força e me deleitar com o tombo. Queria estar com ele, para ver seu rosto ao receber a ligação telefônica sobre notícias da prima desaparecida. Com a ajuda de uma fiel seguidora, por acaso colega da prima, elaboramos um divertimento. Enquanto a família da moça recebia cartas, com a caligrafia muito próxima da vítima, fazíamos questão dela escrever sempre se mostrando preocupada com Carlos. Não demorou muito, os pais da prima começaram a desconfiar dele. Passaram a questioná-lo, incessantemente. Ele, então, cansado e temeroso por ser descoberto, voltou a me procurar.
"Tá bom, já chega. Eu volto a ler seus textos."
"Carlos, agora isso só não basta."
"O que mais, então?"
"Tenho uma seguidora que me ajudou. Ela é colega de sua falecida prima."
"E daí?"
"Preciso que desapareça com ela também."
Inicialmente, ele se esquivou. Porém, quando alguém se sente sujo, um pouco mais de lama não faz tanta diferença. E foi assim que Carlos seguiu até a casa da moça, que estaria sozinha, com os pais a viajar para fora do país. Era uma garota que conheci, quando ela estava num delírio alucinótico e enquanto despejava quilos de obscenidades em seus textos. Informei a Carlos sobre o perfil da moça, para o encorajar.
Ao chegar à residência, a encontrou no chão e um revólver sobre a mesa do computador. Na tela, avisei-o que a polícia logo chegaria e que a moça havia escrito vários textos a respeito dele, sobre a morte da amiga e o temor por ser a próxima. Falei que ele poderia fugir, mas certamente o encontrariam, ou então, poderia pegar a arma e dar um fim à própria vida. Cheguei a dar por concluído o meu plano. Infelizmente, a moça não seguiu as ordens, drogada, apagou antes de usar a arma contra si. Antes de eu o convencer, ela acordou e pediu socorro. Os dois fugiram juntos.
E aqui estou. Tenho todo o tempo que for necessário. Sei das sensações que os leva a olhar para o estranho com curiosidade, a busca frenética pelo medo, a compulsão por conhecer os crimes hediondos, tudo para preencher um vazio da mesmice em suas vidas ordinárias. O monstro que vive em cada um, a andar de um lado para o outro nessa jaula das convenções e dos bons costumes. Ele espera por uma brecha. E a cada história, em diferentes mídias, esperando pelo momento certo, lá estou a espreitar.
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O Monstro
Short StoryAlguém à espreita do outro lado do wattpad. Conto escrito para a Copa Dos Contos
