1. frio

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O inverno havia chegado, trazendo a neve junto com ele. O típico céu cinzento de Bradford combinava com as  temperaturas negativas. Era domingo  no final da tarde , as ruas estavam vazias e a grande igreja da cidade lotada. Do lado de fora, Scarlett estava encostada em uma bomba de gasolina esperando clientes, mesmo sabendo que era uma grande perda de tempo. Ninguém saia de carro no tempo daquele, muito menos saia de casa, a não ser para ir a igreja.
Do lugar que estava a moça conseguia ouvir alguns trechos do sermão do pastor. A garota nunca fora religiosa, mesmo depois de ter frequentando a igreja por tanto tempo, talvez o fato de achar que Deus nunca a ajudou fosse um dos maiores fatores para isso.
A grande e pesada porta de madeira da Igreja se abriu, a Scarlett observou as pessoas se cumprimentando sorridentes, até ver um rosto conhecido vim em sua direção.
- Você deveria ter vindo comigo, hoje o sermão foi maravilhoso.
- Eu consegui ouvir daqui "o Senhor é o meu pastor, e nada me faltará" - a jovem ajustou seu uniforme de frentista - você sabe que não é assim.
- Um dia você irá entender os planos Dele pra ti - o homem se aproximou da sobrinha que deu dois passos para trás.
- Pode ser titio, um dia - sorriu amarelo.
- Você deveria ter uma conversa com Dave.
- Quem é Dave? - a moça arqueou uma das sobrancelhas.
- Aquele jovem rapaz - o mais velho apontou para um jovem alto, másculo e cabelos pretos perfeitamente penteados - ele está prestes de se tornar um padre, irá lhe ajudar nisso.
Ela deu uma boa olhada nele antes de dizer qualquer coisa. Ele aparentava um rapaz muito jovem pra quem queria se tornar padre. O jovem que certamente não passava dos 27 anos sorria para um casal que frequentava a igreja, numa fração de olhares, seu olhar castanho vibrante se cruzou com o azul esplendido de Scarlett, e assim, ela respondeu ao tio :
- Ninguém pode me ajudar tio. - ela ajeitou o coque que prendia seus cabelos castanhos, olhou distraidamente se voltando a Dave. - Sou um terrível desastre.

O tio não sabia o que exatamente dizer, então optou pelo silêncio. Sabia que a sobrinha era quase um caso perdido. Mas a amava e queria que ela se acertasse um dia.

- Acho que hoje não teremos movimento tio Ben. Está muito frio e os carros parecem que estão bem abastecidos.
- Tudo bem. Vamos entrar, vou fazer chocolate quente pra gente.

Scarlett sorriu, amava quando o tio fazia chocolate quente para ela. O posto em que trabalhava pertencia a Ben, e ficava de frente sua casa. Moravam apenas os dois lá. A mãe de Scarlett se separou de seu pai quando tinha 13 anos a deixando sozinha com o pai. Seu pai, depois de um tempo preferiu morar a sós com sua nova mulher, uma loira de farmácia que só procurava na verdade conforto e um lar.
Ben, a acolherá alegremente, não tivera nenhum filho, e era viúvo. Scarlett sempre foi como sua filha, e ela , sempre o via como um verdadeiro pai, ele era a única pessoa que ela amava.

Ela subiu para seu quarto que era o único cômodo do andar de cima. Trocou de roupa, colocando seu jeans detonado, sua flanela xadrez uma jaqueta de couro por cima. Soltou os cabelos ondulados e ajeitou eles no lugar. Olhou para o espelho grudado com parafusos na parede amarela de seu quarto, passou seu batom vermelho e gostou da imagem que virá refletida no espelho.
Desceu as escadas que estavam sendo devoradas pelos cupins e foi até a cozinha. Ben já colocará os chocolates nas canecas de porcelana e a servirá.
- Vai sair ?
- Vou dar uma volta - ela disse, depois de saborear um longo gole.
- sei que não adianta te dizer isso, mas, tenha cuidado ta bem ?
Ela riu, sarcástica. Já perderá as contas de quantas vezes o tio a pedirá isso.
- haha - foi o que disse, sabia que não poderia prometer que não se envolveria em confusão.

  Um barulho de buzina tocava do lado de fora.
- Será que é algum freguês?
- não. É minha carona.
Ela disse deixando o resto do chocolate no balcão da cozinha e batendo forte a porta ao sair. Do lado de fora,um carro preto e grande a esperava com um Rock bem alto tocando.
  - Minha doce e gostosa Scarlett ! - Cantarolou Sebastian, quem dirigia o carro. Dentro, estavam Brenda, Karl e Carly, apenas no banco de trás. Scarlett se sentou na frente. Além do som alto de Rock pode ouvir alguns gemidos vindos do banco de trás. Ao olhar, viu Carly em cima de Karl com as penas arreganhadas enquanto Brenda beijava ele.
- O que tem de errado com eles ?
Sebastian riu enquanto dirigia.
- eles tão chapados. - ele tirou um saquinho do bolso que continha o que parecia ser comprimidos - êxtases , ta afim?
- Não.
- só trouxe porque esses loucos insistiram. Também não to afim hoje. - ele disse com um sorriso quente.

Chegaram na balada, Karl , Brenda e Carly desceram primeiro.
- A gente espera vocês lá dentro - disse Karl a Sebastian que assentiu.
  - eu vou estacionar o carro ta bem ? - Sebastian falou encostando a mão na virilia da moça que lhe deu um tapa tão forte que o deixou pasmo.

Viraram a esquerda e ele foi estaciona o carro. Depois entraram na balada. A jovem perdeu as contas de quantos drinks tomou em tão pouco tempo. Só parou quando foi ao banheiro vomitar.
- que merda. -Ela disse ao se sentar no chão do banheiro.
- ta bem gata? - era Sebastian
- to com cara de quem ta bem ? - ela respondeu enquanto ele se sentava ao seu lado.
- sempre grossa , desde de pequena.- eles eram amigos no colégio.
- que seja !
Eles ficaram em silêncio, ate que notaram o banheiro vazio. Ela o olhou e lhe roubou um beijo. Sebastian estava obviamente esperando por isso. Ele entrelaçou as mãos sobre os cabelos dela e depois tirando sua camiseta. Ela arrancou o cinto de sua calça e os dois sussurravam quente.
Antes que ele tirasse a camisa dele , ela se deteve.
- não! Não... Acho que ainda to meia bêbada .
- você sempre bebe Scarlett. Essa não é a primeira vez ...
- Eu to cansada ... Me leva pra casa. Se não eu vou andando mesmo.
- vou te levar. - ele disse de mal humor .

Dentro do carro, o silêncio e irritação dominava o ambiente.

- Já chegamos. Quer que te segure até a porta ?
- Não. - respondeu friamente e saiu do carro.
Sebastian a deixou na esquina e foi embora com seu carro. Ela se sentou sem perceber na escadaria da igreja, ainda meia enjoada e tentou não chorar. Por mais que quisesse era inevitável não se lembrar do passado, não se lembrar do fato doloroso que sofrerá na infância. Um barulho discreto vem atrás dela, e em seguida, finos passos vindos em sua direção.
- Ta tudo bem moça ? - dirigia - se uma voz masculina meia rouca.
Ao virar pra trás ela vê que era o tal quase padre que seu tio falará.
- Você é o padre Dave ?
- quase... Ainda não sou padre, mas pretendo ser.
- Uhum. Boa sorte com isso.
- ta muito frio, o que faz por aqui ?
- eu moro ali em frente- ela apontou ao posto de gasolina.
- Na casa do sr.ben... Deve ser a sobrinha dele, ele comentou sobre você!
- ah, é claro que sim... - disse meio sem ânimo.
Ele se sentou perto dela na escadaria da igreja e olhou para o céu.
- É lindo não é ? - ele perguntou sorrindo .
Scarlett o olhou sem entender, mas dando a mínima para o que ele dizia. - esse céu estrelado ... Mesmo com esse frio, o céu ainda é perfeito, mais perfeito que qualquer coisa. Deus é bom, muito bom conosco.
- Olha, se vai começar a falar essas coisas caretas eu vou me mandar. - ela se levantava meio trêmula.
- Vai conseguir andar até sua casa ? - ele perguntou se levantando e dando ar a um sorriso sarcástico.
- Fica na sua ! - ela cambaleou se afastando da calçada da igreja. Aos poucos seguiu até sua casa com pequenos passos.
Abriu a porta de casa com a tentativa de não fazer barulho. Falhou, fez um barulho imenso. Apesar do barulho que fizera ao entrar, seu tio ainda permanecia dormindo no sofá, como um cochilo com tv ligada e uma manta fina sobre ele. Scarlett ainda meio tonta subiu as escadas até seu quarto e se jogou diretamente em sua cama.

O frio estava ficando mais forte enquanto a madrugada vinha , Dave estava sentado em uma das cadeiras da igreja com um terço nas mãos enquanto observava a estátua de um santo que ficava no altar da igreja. Alguns passos eram ouvidos sob o chão lustroso de madeira. Em pé ao seu lado , estava o padre Jorge que sorria sem tirar os olhos do santo que Dave também observava .
- Está se adaptando meu caro jovem ? - perguntou padre Jorge a Dave
Dave apenas sorriu observando o padre calvo que não desgrudava os olhos do santo.
- É um bom lugar padre, as pessoas daqui são bem sociáveis.
- É, algumas são. Sabe meu caro jovem, vejo em você uma fé impressionante. Tem uma bela história que te leva a decisão de se tornar um padre, mas ... Será que esta pronto ? É uma decisão boa, não posso negar, nem há como convencer do contrário, acho que nenhum outro padre teria a conversa que estou tendo com você, mas preciso perguntar... Será que é o que realmente quer ?
  Dave, por um longo momento se manteve pensante.
- Acho que seu coração ainda contém questões inacabadas, e tudo bem se sentir assim. Já tive sua idade, aliás, me converti mais novo ainda. Nada me faria voltar atrás, mas gostaria que o padre da minha época tivesse essa conversa que estamos tendo comigo antes de eu finalmente virar padre.
Dave permanecia calado, olhando com seus olhos tristes e cansados para o terço que tinha entrelaçado nas mãos.
Padre Jorge apertou seu ombro em referência, fez o pai nosso e foi se deitar. Dave ficou,rezou antes de ir se deitar.

Pecado EnvolventeWhere stories live. Discover now