O jogo errado

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Festa normal sem gente esquisita. A banda já parou de tocar há tempos e, pelos cantos, as pessoas começam a planejar o ataque aos seus alvos de fim de noite. Menos eu. Eu não, eu to só por terminar essa cerveja e ir para a conveniência do posto de gasolina, comer aquele pastel gorduroso de fim de noite e compensar a fome esmagadora de um sentimento qualquer por muitas calorias que vão direto pros botões do meu jeans lavado.

Ele há muito está parado na mesa ao lado. Mas só agora o notei. Festa normal com gente esquisita. Por alguns instantes observo o corpo esguio e reflito com inveja. Ele não está por traçar seu alvo ou por compensar um vazio qualquer com um pastel de frango gorduroso, ele está por ser sozinho. Escorado em uma mesa rústica, pernas cruzadas e copo na mão, olhos fechados e a cabeça embalando o blues que vem da música de fundo. Esboça um sorriso sutil e desconcertante.

Ele percebe meus instantes de olhar invejoso e olha de volta. Eu me reprimo. Ao ver ele naquele estado intocável de tranquilidade, me sinto patética por querer provar a mim mesma que está tudo bem, enquanto enlouqueço minha cintura num blues rasgado. Eu danço errado. Ele dança certo. Blues não é esse frenesi desesperado, blues é calmaria, olhos fechados e um copo na mão. Paro de dançar e sento, querendo entrar em mim mesma e evitar que qualquer um me veja assim, desmascarada. Mas agora ele me vê, e deve estar com pena. Um soco de plumas de aço bate certeiro no meu estômago.

Ele senta também, desta vez, de frente pra mim. No início, olha de canto. Depois de três ou quatro olhadelas tímidas, já dá pra contar nas mãos o tempo do olhar. Eu olho, ele desvia, ele olha, eu desvio. Não sei mais brincar disso, desaprendi as regras do jogo e já estou nervosa querendo uma cartilha de instruções. E agora, qual o próximo passo? Desisti do pastel. Não sossego enquanto não ganhar o jogo. Não sossego porque ele é tão bonito, mas tão bonito. Corpo sem nexo, rosto fino e o cabelo que me nego a me deixar roubar a atenção, porque a hora em que eu me permitir falar desse cabelo, vou ser tomada pelo maior encantamento que já se viu nessa vida desencantada que tenho levado. Pergunto pras amigas, elas não me ensinam quais as regras do jogo. Desisto, vou dar a cartada final. Em um olhar que tinha tudo pra ser só mais um olhar perdido, me esforço pra desenhar nos lábios: jar-dim.

A DANÇA CERTAWhere stories live. Discover now