A Mulher do Sobretudo (parte 1/2)

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Saí do bar, levantando a aba do casaco para me proteger do vento gelado da madrugada. Dei a última tragada no meu cigarro e o apaguei com a sola do sapato, soltando a fumaça para o céu. Já me encontrava meio tonto do álcool, e já estava meio surdo da música lá de dentro, então não ouvi de imediato o som de saltos femininos ecoando na rua silenciosa.

A mulher vinha caminhando lascivamente na minha direção, o sobretudo, abotoado até os quadris, voava, revelando umas coxas grossas e longas vestidas de meias pretas semi-transparentes, as quais conseguia-se ver até onde a renda se encontrava com a barra da saia. A boca vermelha se curvava em um sorriso sedutor. Olhei para trás para ter certeza de que tal sorriso era pra mim. Era. Sorri de volta meio tímido. Nunca mulher nenhuma, ainda mais tão bonita, havia sorrido pra mim. Se tivesse, eu não estaria bêbado em um bar no dia dos namorados.

Toquei a ponta do chapéu quando ela passou. Senti seus olhos me queimando, acendendo coisas dentro de mim que nem sabia que existiam, além de outras que eu estava bem ciente da existência. Disfarcei.

Senti uma vontade tremenda de segui-la, ver para onde todos aqueles metros de pernas iriam levá-la. Enquanto debatia comigo mesmo se virava um perseguidor de mulheres à noite, ouvi o último "clack" dos seus saltos virando a esquina. Suspirei. Talvez fosse melhor assim. Não queria passar a impressão errada da minha pessoa para ela. Dei meia volta enfiando as mãos nos bolsos e tentando me encolher o máximo possível dentro do meu casaco. Estava um frio miserável!

Ao me virar, trombei com algo macio e cheiroso. Quando levantei o rosto para me desculpar, braços me agarraram, apertando os meus próprios contra as minhas costelas. Senti que meus pés deixavam o solo, enquanto a mulher do sobretudo me levava, voando, cada vez mais alto, por sobre os prédios cinzentos da cidade. Senti uma bolha de pânico crescer no peito, e já preparava um berro – um tanto afeminado lamento acrescentar – quando senti os seus lábios sobre os meus. O beijo era tão bom que consegui sentir nos dedos gelados do pé, e tinha gosto de framboesas maduras. Mas aos poucos, sentia que perdia a consciência. Era como se minha vida estivesse sendo sugada.

***

Encontrei-me tão confortavelmente aquecido embaixo dos cobertores, que não quis nem abrir os olhos. Apenas virei-me para o outro lado, sorrindo preguiçoso.

E então me dei conta de que não estava em minha cama, já que nunca teria condições de bancar lençóis tão macios, nem meu ninho de solteiro era tão espaçoso. E definitivamente eu não a dividia com ninguém, já que podia sentir o calor corporal de alguém deitado atrás de mim.

Arregalei os olhos e a primeira coisa a entrar em foco foram cortinas vermelhas, pesadas, dessas de veludo que só se vê em hotéis. Sentei-me na cama, ridiculamente enorme, e me deparei com a figura nua da mulher, que até então pensei tratar-se de um sonho. Sua boca continuava carnuda e vermelha, como no sonho, e suas pernas longas de coxas grossas eram melhores do que me lembrava. Mas se eu estou sonhando ainda, por que os alarmes de sobrevivência me estão soando nos ouvidos?

Comecei a me levantar da cama, mas percebi que também estava nu embaixo dos lençóis. Minha bolha de pânico começou a gorgolejar em algum ponto abaixo da minha garganta. Arrisquei uma olhada rápida pelo aposento atrás de algum vestígio da minha vestimenta, ou qualquer vestimenta a essa altura do campeonato, mas apenas duas coisas me chamaram a atenção: o quarto era absurdamente grande e evidentemente pertencia a um hotel, e era todo decorado em vermelho e dourado.

Porém não havia indícios de roupas, nem minhas nem de ninguém à vista. De tudo o que estava acontecendo comigo, essa era certamente a mais preocupante. Não ter o que vestir para que eu pudesse levantar-me com alguma dignidade. Típico de alguém esquisito como eu. Não surpreenderia nem a senhora minha mãe.

A mulher, enquanto isso, apenas me olhava e sorria, como se meu pânico crescente fosse algum tipo de preliminar para algo mais sinistro que ela evidentemente tinha em mente.

Há de se pensar que eu estaria feliz em acordar ao lado de uma linda mulher, inteiramente nua. Não me entenda mal. Há sim uma parte de mim que está tremendamente lisonjeado que esta deusa tenha me escolhido para seja lá o que for, mas em contraponto, uma gigantesca parte me diz, em neon e letras garrafais, para eu dar o fora dali o mais rápido possível.

Antes que eu conseguisse me decidir se corria para a saída mais próxima, nu, ou seja lá que outro plano teria se formado no meu cérebro entorpecido de sono e luxúria, a mulher se aconchegou mais perto de mim. Seus movimentos, lânguidos como de grandes felinos, não me ajudava em nada a relaxar e aproveitar a aparente sorte de poder ver aqueles belos seios, tão macios e redondos quanto eram volumosos, balançarem na minha direção. Não é todo dia que um cara acorda com esse tipo de visão privilegiada.

"Não me leve a mal, moça, mas preferiria que você continuasse onde está." – disse eu, reunindo forças sabe se lá de onde para falar sem gaguejar e nem tremer a voz. Senti-me particularmente orgulhoso dessa pequena bênção. Pena que essas palavras apenas serviram para ela sorrir mais ainda. Parecia o gato Cheshire com um rato particularmente gordo nas patas. Senti uma gota gelada de suor escorrer pela minha nuca.

"Sabe o que faz você ficar deliciosamente mais tentador?" – perguntou-me ela em uma voz macia e sensual. – "O cheiro do seu medo. Muitos de vocês não percebem até ser tarde demais, e isso meio que... perde a graça..." – continuou ela enquanto deslizava a ponta dos dedos no meu braço. Senti um arrepio, e dessa vez não foi necessariamente de medo. Tentei me afastar, porém algo me impedia. Meu corpo ansiava pelo seu toque, ao mesmo tempo em que meus poros berravam para eu dar o fora dali.

"Perceber... o quê?" – perguntei. E dessa vez, lamento informar, minha voz tremeu para todos os lados.

"Oh, nada importante." – ronronou ela. Seus dedos agora traçavam círculos no meu peito. Estava ficando difícil me concentrar no problema aqui. Seu toque sedoso fazia com que eu tivesse cada vez menos vontade de ir embora. Na verdade eu estava languidamente sonolento, ao mesmo tempo excitado.

"Eu não entendo." – disse enquanto passava a mão nos cabelos, frustrado.

"Não precisa entender, querido. Só aproveitar." – disse-me ela, numa voz rouca, bem ao pé do ouvido.

"Aproveitar o que exatamente?"

E ela me mostrou. Laçou-me entre suas pernas, e pôs-se a me beijar e a me amar como nenhuma outra. Cada toque era brasa, cada beijo o paraíso.

Passaram-se dias, semanas ou meses? Eu não saberia dizer. Só o que sei é que meu tempo era preenchido por ela, sempre por ela. Quando não estava com ela, estava dormindo, pois nossas sessões de amor me esgotavam. Eu apagava imediatamente após o gozo, para acordar com ela ao meu lado, e recomeçarmos tudo de novo.

Comecei a sentir que desaparecia lentamente. Chegou a um ponto onde não conseguia me lembrar do meu próprio nome. Lembranças e memórias foram os primeiros a irem, seguidos dos outros sentimentos, ficando apenas o desejo por ela. No fim, restou somente o meu fantasma, vagando sem rumo e esbarrando nos móveis, causando pânico nos próximos hóspedes daquele quarto de hotel durante anos, especialmente no dia dos namorados...

A Mulher do SobretudoWhere stories live. Discover now