Saio da faculdade, entro em um ônibus, que me levaria onde posso pegar outro, que me levaria ao lugar onde finalmente pegaria uma van para o curso.
O caminho é longo, leva quase uma hora e meia da faculdade até o curso. É estressante. No transporte, o triplo de gente do que comportaria, muita gente falando, debatendo diversos assuntos, falam coisas das quais eu não concordo, mas tem também os calados, nesses estou eu. Assim, sigo o trajeto inteiro.
Chego na entrada do bairro que é o meu destino, espero, sozinho e mais uma vez calado, ansiosamente a van que me levará até o meu destino. O carro chega, entro e sou recebido com um "boa noite" seco e cansado do cobrador, o respondo da mesma forma, só que com gentileza. Afinal, ele já está cansado pra que vou tratá-lo mal?
No meio do trajeto, entra uma mulher com seu filho, que deve ter seus 5 anos, pequeno e simpático, o recebo com um sorriso. Percebendo que ele estava aberto a uma conversa, perguntei como ele estava, como se chamava, ele me disse que tinha um amigo que também se chamava João, disse que gostava de estudar e tudo mais. O ponto de descida dele era antes do meu. Depois uma longa conversa, nos despedimos, ele desce da van, e quando eu já não esperava mais nada, ele vira e pergunta bem alto antes que o carro começasse a andar:
- Hey, quando você vai na (sic) minha casa?
Nessa hora, todos que estavam na van olham para mim, esperando uma resposta, e eu digo que não sei, que depois veríamos isso. Não vi isso, e também nunca mais vi o pequeno. Recebi um gentil sorriso e um "ok", e foi toda a conversa que eu precisava naquela noite.
E tenho que concordar com Gonzaguinha, eu também fico com a pureza da resposta das crianças. Do que vale a vida se não for vivida com pureza? Fico devendo outra conversa para o rapazinho. Ou melhor, ele é quem me deve outra conversa.
