nicolas

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Eu não tinha esperanças, quer dizer, quando vc é destratado e humilhado por toda a sua vida não da para ignorar isso simplesmente por ir para uma nova escola, no fundo minha felicidade era algo que dificilmente eu alcançaria.
Fui para a frente do espelho e comecei a chorar, entenda, você também choraria, no meu olho esquerdo ainda permanecia o roxo do meu último dia de aula na aclamada escola do meu último bairro, eu havia fugido para o banheiro a fim de não me encontrar com ninguém, mas eles entraram lá, foram empurrando todas as portas até que me encontraram, me arrastaram para fora e cuspiram em mim, disseram que eu era um inútil e um idiota, me bateram, me largaram lá, chorando
Eu sabia que oque eles falaram era verdade.
Eu desci as escadas até a sala de estar, mas parei na porta, meus pais estavam gritado um com o outro de novo, se houvesse alguma visita eles estariam sorrindo e trocando carícias, mas sou só eu, isso mesmo, só eu e eu não sou nada de relevante, eles continuavam a gritar um com o outro e a minha presença permanecia insignificante, fui ate o escritório do meu pai, lá eu encontrei a fotografia da minha vó, meu pai tratava a presença dela assim como tratava a minha, com completo descaso e a troca de sua presença física por uma mera fotografia não fez diferença alguma para ele, assim como eu acredito que minha presença também não faria.
Ela partiu a duas semanas e luto de sua partida permanece em mim, em meus pais não durou a a meio hora que levaram recebendo a notícia, ela morreu enquanto dormia e no dia em que aconteceu eu tive o desprazer de ser o infeliz a ir acordá-la.
Ela era a única que me amava, o tamanho do desprezo que lá sentia pela minha mãe era o mesmo tamanho do amor que ela sentia por mim, enorme, pra mim a sua presença não era irrelevante, era a essencial no meio de qualquer outra, como eu poderia simplesmente viver a vida normalmente depois dela? Meus pais pareciam encontrar essa resposta facilmente, já que ambos foram trabalhar sem nenhum resquício de abalo emocional ou algo parecido.
Aquele dia uma pessoa próxima a minha mãe veio visitá-la, sempre vinha, durante a noite pra passar um tempo com ela depois que voltava do trabalho.
Também vinha me ver, eu não gostava, achava estranho, e depois me sentia estranho, me machucava, mas minha mãe não ligava, ela bebia muito, muito, quando eu contava pra ela que me machucava, ela me batia, me mandava calar a boca e eu ia pro meu quarto, chorar mais um pouco.
Eles não calam a boca, já faz bastante tempo e eles continuam gritando, eu odeio essa vida, queria que as coisas fossem melhores, queria ser filho de outras pessoas e... Ser, talvez, mais feliz que isso, mas eu acho que isso não é felicidade mesmo.
Me falaram uma vez, e eu não acreditei, não existe felicidade pra todo mundo, eu queria que sim, deveria ser um bem coletivo, um colega meu me disse que é por isso que existem outras vidas, pra tentarmos mais uma vez, alcançar a felicidade outro me disse que devemos tentar ser feliz agora e que não existe outra vida, olhando para o andar de baixo, eu quero que ela exista.

NicolasDonde viven las historias. Descúbrelo ahora