Bruno S. Andrade
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Este conto faz parte da página Contos em Preto e Branco
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Diferente da última semana onde a chuva ininterrupta castigava as tropas, hoje nos deparamos com um lindo céu azul e um sol brilhante que queimava nossos elmos. Mas de toda forma ele era bem-vindo, estávamos cansados de lutar no meio da lama sem enxergar direto de onde o aço descia para encontrar um pescoço desprotegido ou atravessar uma virilha, fazendo um homem forte despencar como mingau em meio a sangue, terra e tripas. Nossa força estava esgotada das seguidas escaramuças ao longo da descida do rio, e pelo visto teríamos que nos deparar com mais uma que prometia ser a última delas, já que terras amigas já podiam ser avistadas após a curva do rio. Terras estas que abrigavam uma vila onde o Capitão sabia que seríamos recebidos devido a sua posição. Mas eu já odiava aqueles bastardos. Tão perto e não mandaram ninguém para nos ajudar. O capitão dizia que eles tinham mais medo de abrir aquela merda de portão do que coragem para lutar contra os grupos de bárbaros que avançavam pela margem norte do rio.
Lilién era o nome do nosso Capitão. Já servia nas tropas dele há três meses e nunca havíamos perdido uma batalha, mas isto não quer dizer que todos saíam vivos no final e de alguma forma esse receio me atingiu pela primeira vez desde que deixamos a base nas montanhas para limpar o terreno. Acho que a proximidade de uma caneca de vinho, uma cama e as coxas de uma mulher acaba amolecendo um pouco os homens. Menos Capitão Lilién que se mantinha imponente montado em um cavalo malhado. Ele carregava os sinais de várias lutas em sua armadura perolada com crostas de sangue seco colados em vários pontos, mas não tinha nada além de cortes superficiais pelo corpo. Nos três últimos confrontos ele lutou no chão na primeira linha de escudos, deixando seus dois tenentes guiando nossos flancos. Sua forma de lutar não se parecia com os choques de força que normalmente ocorrem entre os lados, mas sim como uma dança ágil onde seus movimentos casam com o terreno, e quando o inimigo menos espera sua espada se crava no corpo do oponente. Diziam alguns que aquilo não podia ser normal, simples fruto de treinos repetitivos, mas que ele era um dos Retalhadores soltos por este mundo pelos Deuses. Se essas informações tinham um fundo de verdade era difícil saber, só que de uma coisa todos tinham certeza: Estávamos dispostos a viver e morrer pela liderança do Capitão Lilién.
O terreno em que paramos ficava em frente ao vau do rio e para trás ele subia um pouco até ficar plano novamente. Nossos homens chegavam quase a mil pessoas sendo somente cem a cavalo. Do outro lado da corrente um denso bosque escondia qualquer um que se aproximasse, fazendo que tropas inimigas só ficassem visíveis ao chegar à margem do rio. Assim nós olhávamos fixamente para o local, esperando um grande grupo de bárbaros que vinham para um ataque final. Muitas baixas ocorreram para os dois lados na última semana e este confronto era a chance deles acabarem com uma das forças principais do reino. Caso o Capitão Lilién caísse, seria esta uma notícia que se espalharia nas regiões geladas de onde eles vinham, convencendo muitos de que nossas terras eram uma maçã madura pedindo para ser colhida. Na verdade, esse local de plantações abundantes era sim uma bela e gorda maçã, mas o Capitão era o bicho que vivia dentro dela e enquanto ele existisse o gosto dessa fruta permaneceria amargo. Entramos em formação com os soldados a pé no centro e a cavalaria dividida pela metade nos dois lados. O rio facilitava a defesa dos flancos, mas tirava toda a força de uma investida a cavalo. O trabalho duro ficaria conosco, e eu já tomava posição na primeira linha com espada e escudo nas mãos. Capitão Lilién entregara sua armadura a um soldado e o ordenou que ficasse em seu cavalo na retaguarda fingindo assim comandar por trás. Seus dois tenentes comandariam os flancos como da última vez, enquanto o próprio seguiria na linha de frente como um de nós. Essa atitude levantou a moral das linhas e começamos a bater nos escudos com as espadas, seguindo um ritmo de morte e destruição. Então eles chegaram.
Vimos sair do bosque uma quantidade grande de homens empunhando armas e se aglomerando na margem do rio, preparados para o que seria uma grande investida. Infelizmente o vau era muito raso, o que faria com que a água não trabalhasse por nós, mas o terreno do nosso lado nos favorecia pela altura em relação ao oponente. Colamos nossos escudos e levantamos as estacas que permaneceram escondidas um pouco atrás dos primeiros homens. Os bastardos gritaram e sopraram seus cornos de guerra e então vieram correndo para nós como loucos. Nessa hora boa parte dos homens sente o coração bater forte e alguns perdem o controle do pau, o que ocorreu com o soldado do meu lado, que não pode esconder o tecido molhado de urina colado na perna. Cutuquei-o com o ombro para tranquiliza-lo, afinal dependia também dele a força da parede de escudos.
- Mantenha-se firme e segure o escudo com força. As estacas gritarão mais alto que eles e prometo te pagar uma caneca de cerveja no final. Se matar mais que eu te pago uma puta. – Ele sorriu.
- Obrigado por me devolver a coragem e prepare suas moedas. – Respondeu segurando com mais firmeza o escudo.
Os bárbaros estavam na metade do rio e a ordem foi anunciada pelos cornos. A tropa deu alguns passos atrás, suficientes para colocar as estacas à frente. Elas iam receber a carga e nós cortaríamos o que sobrasse. Já era possível distinguir a face deles e assim o estrondo ecoou por toda a área. Muitos foram sumariamente empalados, mas os números deles eram grandes e dessa forma, muitos ultrapassaram a primeira barreira e vieram na direção de nossos escudos. O baque foi forte mas a linha aguentou firme enquanto aço subia e descia entre os dois lados. Dois se chocaram com meu escudo e espetei um deles na perna com a ponta da minha espada. Meu amigo que havia perdido sua coragem enfiou sua lâmina no pescoço do segundo.
- Esse vai para minha conta e no final eu vou ganhar aquela puta. – Disse sorrindo e me obrigando a sorrir também. Outros estavam próximos e aparei um golpe lateral de machado que mirava minhas costelas. Cortei a barriga do desgraçado e chutei suas bolas. De uma forma geral nós estávamos segurando o ataque de forma eficiente, com poucos soldados morrendo e muito sangue bárbaro derramado. Continuei minha matança acertando a ponta do meu escudo em um pé desprotegido. A hesitação de dor do homem foi o suficiente para o meu amigo cortar sua barriga. O cara caiu tentando segurar as tripas que teimavam em sair. Ele sabia que ia morrer, mas ainda iria agonizar bastante. Minha espada estava vermelha até o punho e meus braços doíam do esforço, parecia que o número deles era sem fim. Então soou as duas trombetas para recuo organizado. Nada mais era que uma preparação para o ataque final, previamente organizado pelo Capitão e dito aos seus tenentes que comandavam dos dois lados da cavalaria. Só que recuar, mesmo que ordenadamente, era bastante perigoso porque ficamos um pouco vulneráveis e assim tínhamos que lidar com algumas baixas, repondo rapidamente a parede de escudos. Conseguimos realizar a manobra e voltamos vários passos no terreno. Os bárbaros leram a tática como fraqueza e transbordaram na nossa margem. Capitão Lilién cortava vidas a poucos homens à minha esquerda e notei que eles estavam com medo de se aventurar naquele pedaço. Parecia que uma alma de morte andava com aquele homem e nenhum oponente ficava de pé.
Mais uma trombeta soou longa e forte e os homens a cavalo partiram em galope para flanqueá-los. Os bárbaros perceberam tarde demais o golpe e poucos conseguiram voltar pelo rio enquanto a maioria ficou presa na nossa ferradura. Eles entenderam a derrota e assim morreram naquele local. Os que restaram voltaram para os bosques e provavelmente para suas próprias terras. Não tinham mais número suficiente para ataques e restava se resignarem com a derrota. No fim, Capitão Lilién subiu no cavalo e se dirigiu aos homens:
- Amigos de aço, sangue e alma. Não há batalha que não possa ser vencida e não há exército que nos metam medo. Somos um só, somos a Vanguarda! – E todos ergueram suas espadas e gritaram juntos:
- Pela Vanguarda!
Eu limpava meu equipamento na margem do rio quando o "Sem Coragem" apareceu do meu lado. – Não vou me esquecer da força que você me deu no início da luta, obrigado.
- Está tudo bem, como disse o Capitão somos um só. – E sorri. Ele estendeu a mão e apertei com força aproveitando para lembrá-lo sobre minha promessa.
- Parece que lhe devo uma cerveja mais tarde.
- E não se esqueça da mulher. – Ele completou.
- Amigo, se existe alguma justiça nesse mundo, agora você me deve metade do bordel da vila.
FIM
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Última Batalha
Action(Conto) As tropas se preparam enquanto o inimigo avança com aço nas mãos e sangue nos olhos. Um relato de luta em uma parede de escudos.
