Era segunda de Carnaval e não havia luz sobre Veneza.
Da janela, dava para ouvir os ruídos da festa. Seus passos suaves, sorrateiros, apressados. As línguas de todas as civilizações, ali combinadas para formar uma nova. De antes de Babel.
Fechei a janela e arrastei o vestido até a mesa. Deixei ali a minha máscara, aquela que havia sido feita exclusivamente para mim, em prata e turquesa.
Era linda. Não haveria alguém tão linda em toda Veneza naquela noite! Heitor sabia disso. Tinha encomendado a máscara ao estilista mais caro da cidade.
Mas, Senhor Conde, uma máscara! Não é coisa da alta costura, e nunca o será!
Acabou por fazê-la. A máscara foi exposta durante duas semanas na Piazza San Marco. Não havia quem ignorasse sua origem. Ou dona.
É a máscara da Senhorita de T... a senhorita que o Senhor Conde tomou por amante. Disfarçada em prata e turquesa, acabarei sendo eu mesma. Bela e órfã, Senhorita de T.
Alguém tocou a campainha. Desci as escadas rapidamente, pensando já se tratar de Heitor. Assim que abri a porta, vi-me diante de um belo e jovem mensageiro.
– Senhorita de T, uma carta do Senhor Conde.
Ele fez uma pequena reverência e partiu. Não era sequer uma carta, mas um pequeno bilhete. Heitor não viria me buscar naquela noite. Em seu lugar, viria Antonio, seu valet sempre fiel. Antonio que eu não conhecia, mas de quem tinha ouvido muito falar.
Pelo mistério do Carnaval, ele escreveu.
Sentada de frente para a janela, distraí-me pensando. Se for bonito, faremos amor. Ou fugirei dele. Me perderei sozinha pelas ruas de Veneza.
Ele veio me buscar quase uma hora depois.
Desci as escadas lentamente e abri a porta. Ele também fez uma pequena reverência, e sob a escuridão de Veneza, pude ver que a sua máscara era quase tão linda quanto a minha. Do mesmo turquesa, da mesma prata. Do mesmo desenho exótico que Heitor tinha, ele mesmo, criado. Seria idêntica se não fosse pela tinta de batom em meus lábios artificiais. Seu traje era de um valet elegante que sempre se veste em negro. Era alto, de movimentos precisos. Ah, meu doppelgänger masculino!
Ele me levou na gôndola. Ri, mas baixo demais para que ele pudesse ouvir. Durante todo o percurso, ficamos em silêncio. Eu queria tirar-lhe a máscara, revelar o seu rosto. Ou talvez não. Teria preferido que ele me fizesse amor, ali, antes da meia noite, antes da chegada de Heitor. Eu e minha versão masculina. Antonio, meu duplo para sempre.
Mas, por que meia noite, perguntava-me? E por que tão longe? Antonio sequer me olhava, fiel serviçal. Quantas noites havia pensado nele em desespero! Uma prima havia dito: ele é tão bonito! Heitor era, ele mesmo, bonito demais para a sua idade. Rico demais. O amor de um homem livre, de um burguês, forte, jovem, este sim seria um desafio para ele, que tinha todas as mulheres aos seus pés. Solteiras, casadas, viúvas, todas amavam Heitor.
De repente, Veneza sucumbiu à penumbra completa. Já não via mais Antonio. Decidi tirar minha máscara e então, aproximar-me dele, substituindo a sua máscara de homem pela minha, de mulher. Imóvel, ele não reagiu à brincadeira. Ficamos em silêncio, na gôndola, até que ele a parou, no meio do nada.
Uma luz fraca nos tocou, por um segundo apenas. Vi seus olhos cruéis detrás da minha máscara de mulher, ele que não era Antonio. Imaginei por um momento que fosse me matar. Ou que talvez não houvesse ninguém por trás da máscara, como nos contos de terror que lemos para as crianças. Ou talvez ele estivesse morto, já, e aqueles olhos fossem fruto de um jogo de luz, de meu medo? Eu que tinha considerado trair Heitor! Recuei, devagar, estremecida. Mas ele riu. Riu! Riu e tirou a sua máscara, seu riso cortando os meus ouvidos a seco.
Ele tinha seus olhos, seus cabelos, mesmo sua boca, seu nariz. Mas não era ele. Não podia ser ele. Seus olhos eram cruéis sob a luz da noite. Ele se aproximou de mim, tirou o meu vestido. Heitor ou seu duplo tomou-me com uma mão forte, rígida, sem misericórdia. E eu baixei os olhos.
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Malgosia no tempo e outras histórias
Short Story"Malgosia no tempo e outras histórias" reúne 29 contos sobre alguns dos principais temas da literatura universal: o tempo, o duplo e o mar. Curtos em sua maioria, os textos se alternam entre a crônica, a vinheta e a ficção de suspense psicológico...
