Prólogo

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O ano é de 2108. Fazem exatamente 80 anos que a humanidade tomou medidas drásticas para manter sua sobrevivência.

No século XXI, o sistema de governo implantado por inúmeras nações ao redor do globo, faliu.

O capitalismo mal estruturado saturou-se e acabou por levar consigo os últimos suspiros de uma economia globalizada.

Todas as bolsas de valores ao redor do mundo anoiteceram mas não foram capazes de ver o raiar de um novo dia. Os donos de negócios multimilionários foram obrigados a ver seu dinheiro escorrer na ponta de seus dedos sem terem condições de fazer nada a respeito. Pobres se tornaram miseráveis. Miseráveis já não existiam mais, a taxa de mortalidade por fome, infecções e suicídios nunca fora tão alta.

Para piorar a situação, a crise hidráulica que espreitava a nossa porta durante tantos milênios finalmente instaurou-se. A falta de água levou a intensas ameaças por de nações com armamentos nucleares. Durante uma desavença com o Japão sobre um reservatório de água brasileiro, os Estados Unidos lançaram uma bomba nuclear sobre o território asiático que dizimou um terço da população e tornou o território atingido inabitável por pelo menos 10 anos.

O cenário era apocalíptico. A civilização humana estava a beira de um penhasco como nenhum outro. E o penhasco possuia apenas um fim: o extermínio.

Desesperados com o rumo que as coisas estavam tomando, líderes mundiais se reuniram em um congresso cujo nome iria perpetuar até o fim dos dias: Gênesis.

O Congresso de Gênesis foi instaurado nas ruínas da conhecida "capital do mundo", Nova Iorque. Governantes de todas as partes do mundo compareceram para tentar buscar uma solução. A população se reunia, ansiosa, em locais onde a energia ainda não havia desaparecido totalmente.

A reunião durou aproximadamente duas semanas. Depois de muita discussão e debate, a solução tornou-se óbvia: o mundo precisava ser reconstruído. A pergunta que não queria calar era: o sistema que faliu não só uma, mas duas vezes, seria implantado novamente? E se não fosse o capitalismo, o que seria? O socialismo e anarquismo encontravam-se fora de cogitação pela maioria dos líderes presentes. Uma economia mista então? Mas a China apresentava hibridismo e mesmo assim, não conseguiu escapar do crash de 2018.

O que fazer então? Dividir o mundo parecia a melhor opção. Separar as pessoas não por territórios, nem etnias. Separar as pessoas por sua ideologia. Uma votação seria realizada, as pessoas, pela primeira vez, possuíam o poder de escolha sobre seu destino. A notícia era animadora e aterrorizante. Nunca tamanho poder fora dado a classe trabalhadora.

Power to the people, John Lennon defendia anos antes. Mas o que fazer quando as pessoas, finalmente, conseguiam o poder? As pessoas escolhiam. E escolheram.

Grande parte preferiu o capitalismo pois este fora a única forma de governo que conheciam. A segurança parecia ser a resposta. Os "esquerdistas" escolheram o socialismo, nada mais óbvio. Finalmente teriam a chance de ver um governo popular de verdade, como Marx defendia e como nunca foi apresentado. Uma grande minoria escolheu o anarquismo. Para eles, o governo era a maior expressão de caos que poderia existir.

Com suas escolhas feitas, o mundo foi dividido em três partes. Para evitar a transição de insatisfeitos durante a implantação dos sistemas, as Três Grandes Muralhas foram levantadas, impossibilitando a comunicação entre os três lados durante a maior parte do ano. Mas, excepcionalmente em uma noite, os portões seriam abertos para a reunião de líderes representantes dos dois lados.

O ano é de 2108. O mundo segue dividido até então.


Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. - Carlos Drummond de Andrade

BORDERSWhere stories live. Discover now