Prólogo

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Há quem diga que nasce sabendo que quer ser médico quando crescer. Há aqueles que logo que descobrem que você precisa estudar para o resto da sua vida, desistem dessa possibilidade. Há aqueles que resolvem que querem salvar vidas e serem "heróis" no último ano de colégio. Há aqueles que têm esse sonho desde que se conhecem por gente e passam anos estudando e se dedicando para serem aceitos em alguma universidade reconhecida. Já no meu caso, eu não me encaixo em nenhum desses grupos.

Decidi que queria ser médica quando encontrei a minha mãe na cozinha, com um pano de louça ensanguentado enrolado em sua mão, após cortar o dedo com uma faca de manteiga. Ridículo, certo? Afinal, era uma mísera faca de manteiga. O fato é que naquele momento eu entrei em pânico com aquela quantidade de sangue no pano e no chão. Sem meu o pai em casa e com os meus dez anos de idade, achei que minha mãe estava prestes a bater as botas. No fim das contas, depois de dez minutos, o sangue havia sido estancado e tudo o que foi necessário foi um band-aid em cima do corte.

O negócio é que eu não me importava que tinha sido tão fácil assim. Eu queria ser médica porque queria poder e saber cuidar das pessoas com as quais eu me importava.

Um motivo muito nobre, muito bonito, coisa e tal... Mas muito idiota também se pararmos para analisar bem.

Mesmo aqueles que nascem sabendo que serão médicos, desconhecem o curso de Medicina e a realidade de um estudante de Medicina. Eles não sabem que você vai passar mais da metade da sua vida estudando manhã, tarde e noite; que a sua vida social será praticamente inexistente; que se você gosta de dormir, ninguém está nem ai para o seu sono; ou que a palavra 'final de semana' será abolida do seu dicionário.

Resumindo: ninguém sabe que você viverá em função do próximo.

Fui aceita para ser caloura do curso de Medicina, na Universidade de Harvard, cinco anos atrás. Como filha única de meus pais e como a única neta mulher de meus avós paternos e maternos, todos foram à loucura quando souberam que teriam uma médica na família. "Que orgulho da nossa menina", "nossa pequena honrando o sobrenome da família Richards", eles diziam. Pois bem, peguei as minhas malas e, após algumas horas de abraços e olhos inchados e melecados de lágrimas, os meus pais me deixaram em frente ao meu novo apartamento e à minha vida nova. E eu não poderia estar mais aliviada de – finalmente – estar longe de casa.

Durante esses quatros anos e meio fui considerada a melhor aluna da minha turma, e meu pai e minha mãe, renomados advogados da cidade de Boston, não poderiam estar mais orgulhosos. Os meus professores me adoram, e a maioria das pessoas do hospital confiam em mim o suficiente para entregar em minhas mãos alguns casos um pouco mais difíceis de se lidar. Apesar da rotina exaustiva, eu amo o que eu faço e definitivamente não me imagino fazendo outra coisa na vida.

Bom, pelo menos é assim que eu pensava até alguns meses atrás, antes de ele entrar na minha vida e virá-la de cabeça para baixo.



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