A renúncia

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O calor que fazia escarmentava, parecia que a terra a qualquer momento revelaria um avesso em lavas e engoliria os carros, as árvores e as pessoas. a sensação era como se o sol tivesse descido pela sua garganta feito uma espada engolida por um engolidor. Os barulhos eram de uma cidade em saliente movimento, a vida acontecendo dentro do roteiro do que se tem que acontecer num espetáculo em que a vida é uma protagonista decadente.

A concentração era dura, inabalável a ponto de seu bombeamento de sangue percorrer cada veia como uma orquestra regida impecavelmente. Cada gota de suor que escorria numa paciência perturbadora pelas costas de Lígia eram como uma contagem regressiva para um fim do mundo que não viria realmente acontecer.

Lígia era magra, tão magra que inspirava piedade. Branca, num retrato pálido com contornos eesqueléticos geometricamente enquadrados em sua face triste de maçãs enrubecidas. Suas pernas eram lisas e delgadas. Não era tão triste quanto denunciava, era mais uma armadilha que a destacava de outras moças religiosamente doutrinadas à beleza e personalidade de mulheres que aceitaram nascer, reproduzir, talvez celebrar algum pecado em segredo e por fim, morrer.

Bem mais que saber o que queria seria não saber nada do que se queria. Lígia era penetrada, dissecada pela grande evasão do nada, mas tinha uma audácia em desafiar a vida no simples ato de respirar, pois contemplava cada célula do tempo dada como uma afronta de não morrer igual a quem senta numa cadeira elétrica unicamente por prazer e leva uma descarga de 2.300 volts.

Lígia chutava uma pedra fajuta enquanto caminhava pelo asfalto de uma estrada que não a levaria à um destino certo. Ela vivenciava vagamente perplexa a experiência de estar em um lugar que a inacabasse. Mas o seu organismo se beneficiava, recebia vida. Apenas uma certeza a surpreendia- seria impossível decidir sobre o próprio destino- também se aproximava, vindo na direção contrária talvez a conjuntura que a trouxesse e a estabelecesse sem comiseração em uma realidade esférica num auge sem queda. Qualquer instante que sucedesse aquele seria baixo e vazio.

A mulher que parara com uma criança pálida de olhos amendoados grudada em seu braço reto e disciplinado trazia um ar longínquo como se tivesse percorrido um longo caminho sob o solo até parar exatamente onde estava, à vista cuidadosa de Lígia. os corpos de ambas começaram a responder mudos e de vagar. A mulher aparentava bem mais idade do que a sua certidão podia assegurar. Imobilizada, dolorosa em repouso, a mulher e a criança bem ali, esperando o próximo instante que vinha. A mulher segurava uma mala de couro já gasto e marcado pelas ações do tempo na outra mão, mas como todo couro que se preze, aquele também duraria mais uma dezena de anos.

Aos poucos nascia a inquietação, a menina lançou um riso cínico em direção à Lígia, mas logo se conteve e deu dois passos esquivando-se na barra da saia florida da mulher. A menina segurava qualquer coisa, parecia um protótipo de uma boneca feira de trapos. Lígia recordou-se num abraço gélido do passado de quanto fora uma menina que lançava olhares e risos cínicos e que também tivera uma boneca de trapos confeccionada pela mãe. Lígia perscrutava aquele momento como uma fuga de si, um pedaço seu que saira e tomasse existência própria naquela estrada, naquele calor...

As três, a mulher, a menina e Lígia... Os olhos a abertos, murmúrio leve e constante... Lígia não se libertava das duas. Era um espelho que nao refletia nem a sua imagem nem os seus movimentos, mas o auto reflexo das outras duas. Lígia inclinou-se Para a mulher, uma pausa, olhou-a bem de frente sem que sua mão pudesse alcançá-la. Embora uma estivesse paralela à outra num curto espaço de chão haveria um abismo de um bilhão de anos que as separariam. Antes que qualquer palavra fosse dita, Lígia a lia raciocinando com esforço.

Uma brisa espectral percorreu cada poro seu eriçando-os. Naquele intervalo Lígia teve a sensação de que nunca mais dormiria, que vagaria pelas estradas daquela cidade numa insônia implacável. Ela estava lúcida é sólida e o ar era benevolente e misterioso. Toda atenção voltada para o que sentia numa força contida de engolir aquelas duas, encarcerá-las na gestação de sua infância. Fora isso que a havia surpreendido, o passado regurgitado aí em sua frente. Lígia agora existia além dela mesma. Fechou os olhos por alguns segundos e abriu-os novamente e mordeu os lábios, espalhou-se um gosto de sangue fundido com sua saliva. Pairava agora na penumbra de sua floresta silenciosa. Seu corpo, seu plasma... Lígia era toda memória fresca onde as sensações se moldariam como na primeira vez sentidas.

Mal havia tido tempo de arrumar as trochas para a partida, a menina pequena aflorada em seu mundo do que se quer ser quando crescer. Já não tinha mais pai desde então. A mãe se viu obrigada a pegar um rumo com a filha. O delas era um mundo em que ou se morria de fome ou se morria de insistir em viver. E ambas escolheram, sem saber, morrer insistindo em viver. Deixaram o barraco, a poeira, as memórias... O cão ficara com a vizinha.

Lígia pensou que poderia sentir vários caminhos diversos simultaneamente e não escolher nenhum. De súbito esses caminhos precipitavam e se dissolviam. O seu plano não foi permitido ser levado até o fim. Estou sofrendo, indagou-se em sua fina exaltação. A verdade é que não sabia se estava feliz ou triste. Através do seu olho unia-se o passado e o futuro num pedido de auto perdão.

Lígia percebera o quanto a vida havia sido a sua incógnita, o seu segredo...
Ela escolheu estar viva e a acontecer. Lígia acontecia assombrosamente. Anos, séculos ou até mesmo uma explosão que acabasse com tudo e mais uma explosão que começasse tudo do zero não fossem suficientes para desvendar todos aqueles códigos binários e não binários da sua existência oblíqua. Ela continuaria... Enganaria a todos, inclusive a Deus com o seu final, pois seria ponto e vírgula. A mulher e a menina também continuariam, Lígia também seria enganada com o fim das duas. Nunca saberá como naquela estrada não havia mais ninguém, somente o assovio do vento distante e o calor que fazia escarmentava.

O Eu DesesperoStories to obsess over. Discover now