Sabe, a sociedade é permeada de porquês e padrões que nos mantém nos limites sociais aceitáveis. É assim desde sempre. Mulher nasceu pra cuidar do lar e homem nasceu para o trabalho. Certo que, atualmente, aos poucos estamos vendo esses padrões sendo desconstruídos. Mas o padrão de beleza. Ah, o padrão de beleza. Este permanece imutável.
E eu posso afirmar que não me encaixo em nenhum dos padrões pré estabelecidos socialmente. A começar pelos meus 107 kgs arrumados confortavelmente no meu 1,70 de altura. Meus cabelos cacheados e volumosos não parecem em nada com aqueles das modelos de capa de revista.
Não que isso de fato me incomodasse, mas quando eu era apenas uma adolescente e estava no meio daqueles adolescentes todos, com suas regras e padrões determinados, confesso que isso me incomodava excessivamente. Agora eu já era uma mulher, no auge de meus 23 anos. Não ia mais me deter a essas futilidades. Eu não tinha idade, nem tempo pra isso.
Já passava da meia noite, eu não conseguia dormir. Estava ansiosa. No dia seguinte seria meu primeiro dia na livraria do Pedro. Era um bom emprego, à primeira vista. A livraria ficava no mesmo quarteirão do meu prédio e eu poderia ir a pé todos os dias. Eu estava mesmo querendo caminhar, agora tinha uma motivação. E eu precisava deste emprego. Já faziam alguns meses que eu havia deixado a minha cidade Natal no interior de Minas Gerais para tentar a vida em São Paulo. Não podia desperdiçar uma oportunidade como aquela. E meus pais também não tinham mais economias para me ajudar a me manter ali naquela selva de pedras.
O Pedro era um sujeito legal.
Era alto, educado, um tipo intelectual. Daqueles ratos de biblioteca. A minha entrevista de emprego pareceu mais um encontro de velhos amigos do que um encontro formal e profissonal.
Ele me mostrou o acervo de livros que tinham, o sistema de caixa. Enquanto caminhávamos pelas inúmeras estantes ele colocou a mão nas minhas costas e me conduzia pelo lugar. Me senti confortável, mas ao mesmo tempo intrigada. Era proximidade demais para uma simples entrevista de emprego. Imaginei no momento se ele fazia isso com todas as garotas que trabalhavam ali. Tendo em vista que Pedro era um homem irresistível.
Os olhos verdes emolduravam o rosto forte, e reluziam por baixo do óculos. Ele aparentava ter uns 35 anos. Era bem resolvido e educadíssimo.
Acabei por ignorar meus pensamentos e garantir que a vaga de emprego seria minha. Ao final da entrevista, um breve aperto de mãos.
Sorrimos, e ele disse que me veria na segunda. Eu entendi que a vaga era minha. Então fui pra casa mais feliz.
Agora estava ali, me obrigando a dormir, porque logo seria segunda e eu odiaria me atrasar no meu primeiro dia de emprego. Isso estava fora de cogitação. Eu havia acabado de me mudar para aquele apartamento no centro de São Paulo. Não gostava de lembrar do antigo kitnet na zona norte. Era um lugar insalubre e que passei momentos difíceis demais. Estar ali era um respiro, eu podia sentir que as coisas estavam finalmente dando certo para mim. Não havia sido fácil sair de casa, nem tão pouco fazer meus pais entenderem que eu queria ser independente. Queria ver o mundo. Caminhar com meus próprios pés. Da cidadezinha do interior de Minas, de onde eu venho, as moças ainda saem de casa apenas quando vão casar.
E ali estava eu. Sozinha numa cidade grande, solteira, num apartamento de 45 metros quadrados me questionando se eu realmente conseguiria sobreviver àquela cidade. Ainda lembro da minha mãe me dizendo que aqui tudo era loucura. Que eu podia ficar onde estava. Afinal, a minha prima Cláudia estava super bem no seu emprego na prefeitura. Era funcionária pública. Tinha comprado uma casinha linda no centro. Estava noiva. Porque eu não podia fazer o mesmo?
Porque São Paulo? Porque sair de casa? A modernidade era algo difícil para os meus pais. E eu não os culpo por isso. Muita coisa era estranha pra mim também. Mas eu sabia que se eu continuasse ali, jamais saberia do que eu de fato sou capaz. Eu precisava provar isso para mim mesma. Precisava construir meu próprio mundo. Receber aquela oportunidade de trabalho parecia um presente dos céus. E eu iria agarrar com unhas e dentes. Aquela era uma oportunidade de mostrar aos meus pais que eu conseguia me virar bem sozinha. Nada poderia ser pior do que voltar para casa com o rabinho entre as pernas.
Todos aqueles pensamentos estavam me deixando ansiosa. Tive que me obrigar a dormir.
Fui fechando os olhos, e a mente se encarregou de me fazer lembrar dos momentos com Pedro. Quando finalmente consegui dormir um sorriso estampava meu rosto.
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Em busca de um novo amanhecer
RomanceAlice era o tipo de garota que passaria despercebida em qualquer lugar. Desleixada, desastrada e destroçada emocionalmente. A cada novo amor uma nova decepção. Mas todos nós podemos acreditar em um novo amanhecer. Até a Alice.
