Gostaria de pensar que talvez o dia não fosse triste. Ando olhando para as nuvens cinzas, será se elas tem a mesma empatia por mim como tenho por elas? Quero dizer, eu amo nuvens cinzas, elas fazem me sentir tão participativa no mundo mesmo que de um jeito um pouco deprimente. Mas será - se por algum acaso as nuvens pudessem sentir algo - elas sentiriam o quão parte eu faço dessa atmosfera? Ah, esqueça. É só baboseira minha, ou talvez não. Mas eu vivo tão pouco das coisas. Até que parece confuso, mas é simples. Sempre sou aquela pessoa no final do ônibus, ouvindo qualquer música que me desperte a cota necessária de emoção pra suportar mais um dia. Sabe, essa pessoa? A que fica camuflada em dias nublados e perde horas deitada olhando pra chuva escorrer na janela. Essa pessoa sou eu, e isso é tão ruim quanto é bom.
A música para ao mesmo tempo que o ônibus e lembro-me de descer, mais um dia atrasada pra aula.
Corro pra sala pensando em como deve estar Lucia. Sabe, Lucia e eu costumávamos ser amigas antes das férias. Não sei bem o que aconteceu. E quando falo isso eu realmente quero dizer, eu não faço a mínima ideia do que aconteceu. Eu estava vivendo, como sempre vivi, e um dia ao acaso Lucia estava vivendo comigo, na mesma sintonia que eu.
Nós jogávamos vídeo game o dia inteiro, falávamos de filmes e Lucia dava em cima de meninos. Até que o Ensino Médio chegou. Ela ficou até que próxima de mim no primeiro ano. Me apaixonei pela primeira vez, pelo André, e ela me ouviu, me aconselhou, mas com o tempo foi se afastando, conhecendo outras pessoas e esquecendo de lembrar de mim. Nós nem nos falamos durante as férias, nem nos vimos ou nos importamos.
Ano passado ela vivia falando desse CD que queria muito de natal e acabei sabendo que ela não ganhou, por isso eu comprei de presente e embrulhei pra dar. Sabe, como um jeito de tornar as coisas normais de novo. Acho que ela vai gostar bastante.
Chego na sala. Está tudo igual, exatamente como o universo deixou no ano passado. Talvez com exceção daquela menina que antes era loira e agora é ruiva, não sei o nome dela, e da professora de português substituída por um professor. As primeiras aulas seguem se arrastando, eu ponho o fone de ouvido de canto pra ouvir um pouco de All I Want do Kodaline, a música acaba por me deprimir o suficiente e o sinal de intervalo bate antes dela acabar. Reviro na bolsa em busca do embrulho enquanto todos os rostos conhecidos saem, alguns me cumprimentam com piscadelas, nada significante, nada que renda uma conversa.
Ando em direção ao refeitório, parece que aumentaram o tamanho dos muros da escola, alguma coisa haver com aquele menino que tentou fugiu de certo. Paro um momento quando vejo a tão familiar cabeça vermelho sangue ao longe, Lucia está sentada no colo de alguém. Ela sempre está com alguém, tão contrário de mim, porque talvez... André. Lucia está sentada no colo de André. Isso me deixa, realmente... Estou tão confusa. Algo cai da minha mão quando eles se beijam, não sei dizer o que. Ouço algumas pessoas rindo logo atrás mas não consigo dizer se é de mim. Fico imaginando que talvez seja, que estejam todos rindo de mim, que todos sabem o quanto penso e me imagino com ele e agora o quão ridículo isso tudo parece. Me viro quando ela se vira, estou de costas pra pior cena que nunca ao menos cogitei. A única amiga que eu tive, com o único menino que eu desejei. Não sou do tipo de se paralisar pelas pessoas, mas isso acontece nesse tipo de contexto.
- Isabeli – ouço sua voz de convite. Sou pega de surpresa. É a primeira vez que falam meu nome hoje. Desperto a sair dali, sigo em qualquer direção, odiando a mim mesma por desejar querer seguir aquela voz amigável, por desejar abraços e piadas internas, por desejar amigos e por confessar o fracasso desse desejo.
Entro no banheiro empurrando algumas quaisquer que estão saindo, alguém me olha do espelho... Ah, sou eu. Eu acho. Nunca tinha me visto de olhos borrados de rímel. Nem tinha me visto chorar por um menino. É, talvez não seja eu. Tanto faz. Me tranco e sento, acho que talvez esteja soluçando, não sei. Mas sei que estou chorando, sinto que estou chorando. Ouço um barulho de pisada no chão, algum motivo inconsciente me impede de parar de chorar até ouvir batidas na porta. São batidas violentas como quem quer invadir. Estremeço. Me assusto o suficiente para dar-lhe toda minha atenção. Abro a porta da cabine assustada imaginando o que possa ser.
Uma menina alta, com cabelo cacheado e unhas pretas me encara furiosa, as sobrancelhas grossas e os cílios pequenos. Eu não sei o que ela quer ou porque pareço ter a ofendido. De longe pode parecer uma cena improvável demais, ela ali em pé na minha frente e eu apavorada. O tempo se estende...
- Que porra é essa? – ela diz.
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Em Qualquer Momento
Teen FictionIsabeli se identifica com o vento, discreta, indiferente e sozinha... Ela não sabe, mas em qualquer momento saberá.
