O ar estava impregnado com a fumaça do fogão à lenha, o cheiro de feijão de corda cozinhando me enjoava, abri a janela do quarto e pulei, não queria que ninguém me visse, subi o degrau mais alto e pude ver o ônibus se aproximando, fiz uma prece, um sussurro, para que o ponto de ônibus estivesse vazio, talvez, por um milagre aquele dia não estivesse realmente acontecendo, olhei, foi quando o avistei, ele estava lá, vestido com roupa de sair, no chão ao seu lado estava a mala de couro, do outro a vasilha do frito. Tentava se abanar com a mão, dava pra ver o sol refletido nos fios dourados de seus cabelos, buscou abrigo na sombra da Algarobeira, notei que segurava um cigarro de fumo de rolo entre os dedos, parecia inquieto. Ergui um pouco mais a cabeça e seus olhos encontraram os meus, senti meu coração parar por um instante, meu estômago começou a queimar, o ardor subia até minha garganta, minhas mãos suavam, comecei a ficar trêmula. Eu não entendia porque ele estava lá, o verde de seus olhos estavam em um tom de esmeralda, havia um brilho que escorria no seu rosto, surpreso em me ver levou a mão à face tentando disfarçar a inquietação, baixei a cabeça e comecei a descer a velha calçada, fui surpreendida pelos gritos de Ângela e Lúcia que corriam em direção à estrada:
-Papai! Papai!
Tentei segurá-las, em vão, as duas correram em direção à estrada, pularam a calçada alta e correram descalças pela terra vermelha e quente, corri também, meu extinto de sobrevivência assumiu o controle do meu corpo, meus pés estavam queimando, mas não podíamos parar, estávamos desesperadas, corríamos exatamente pelo mesmo motivo, pelo amor, pelo medo, pela dor. A dor era o maior motivo, não queríamos mais ela, estava sugando nossas almas, tentei gritar mas não saiu voz, senti o coração subindo no peito e parando na minha garganta, estava sufocando, entrando em pânico, olhei pra elas e vi a dor refletida em seus olhos, eu sabia o exatamente o que estava acontecendo, ele estava nos deixando de novo, meu corpo todo gelou, Ângie e Lúcia suplicaram para que eu não desistisse, Ângie era tão pequena, parecia um anjinho, sujo de barro, ela me olhou e pediu:
- Isa! não deixa ele ir!
Eu a peguei no colo, subi a porteira, Lúcia já tinha 9 anos, já conseguia subir e descer sozinha a porteira velha, continuei por elas, estávamos as três gritando entre soluços, era a única coisa que podíamos fazer. Já perto da parada eu estagnei, ele estava lá parado, acenando para que não fôssemos, baixei os olhos envergonhada, não tentei impedi-las. Ângie agarrou-lhe as pernas e Lúcia abarcou sua cintura. Eles ficaram ali os três chorando, agarrados, eu não consegui dar um passo, meu peito estava doendo, uma dor que apertava e retirava todo o ar, estava enjoada, minha garganta estava seca, meus olhos estava ardendo por causa da poeira quente, ouvi o barulho dos freios do ônibus, tentei correr e segurá-lo também, foi quando percebi novamente o lindo verde esmeralda dos seus olhos, e sem dizer uma palavra me pediu para tirá-las de lá. Reuni um último soluço e gritei:
- Não nos deixe!
Minhas forças acabaram ali, caí de joelhos, nas pedras, elas o soltaram e correram pra mim, foi quando ele entrou no ônibus e se foi.
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Verde Esmeralda
Non-FictionA luta três irmãs, Isabel, Lúcia e Ângela, para sobreviver após serem abandonadas pelo pai em uma terra seca e sem esperança. Uma história emocionante de persistência.
