Capítulo 1

5 1 0
                                        

- Gostei de si, Íris. A meu ver, parece-me uma pessoa responsável, com bom caráter, disponível. Penso que estamos num bom caminho. Entraremos em contacto consigo assim que conseguirmos. - Disse um homem engravatado que minutos antes tinha iniciado a minha primeira entrevista de trabalho que, por estranho que pareça, tenha sido bastante agradável e ido por bons caminhos.

Agradeci os minutos que me disponibilizou para eu poder demonstrar a minha personalidade através de um pedaço de papel e umas palavras mais caras. Saí do escritório e logo a seguir daquele edifício em direção ao metro mais próximo. 

Tinha acabado o ensino secundário há coisa de meses, tinha ainda 18 anos e já me estava a atirar aos lobos como consequência de não ter entrado numa boa faculdade. Tinha de arranjar um trabalho para começar a pagar as minhas despesas e para poder investir no meu futuro e, para uma primeira entrevista, até tinha corrido bem. Podia ser apenas impressão minha, porque todos os entrevistadores nos põem paninhos quentes, mas tinha a sensação de que ia ter sorte e ia conseguir o meu primeiro emprego, indo apenas àquela entrevista.

Semanas depois, já estou eu, de volta à mesma sala de espera onde esperei ser chamada para entrevista. Apenas havia uma diferença, estava lá para começar de facto a trabalhar. Estava como costumo estar em espaços públicos, mais isolada, tentando passar despercebida à espera de que todo o novo grupo de trabalho fosse chamado para a sala de reuniões.

- Bom dia, preciso de saber quem está aqui para o primeiro dia. - Soa uma voz meio anasalada, de uma mulher alta e magra. Seria aquela a minha nova chefe? - O meu nome é Tânia e hoje serei eu a acompanhar-vos nas nossas instalações. - Acabando de falar levanto-me e logo a seguir um restante grupo de 21 pessoas.

Seguimos aquela mulher por corredores largos até uma sala ampla com uma vasta mesa, preenchida por pequenas garrafas de água, blocos e canetas. Um a um, vamos entrando e sentando nas cadeiras esperando uns pelos outros até a sala estar completa.

A mulher deu inicio à apresentação do projeto de trabalho e de seguida procedeu uma breve apresentação de cada um de nós. Até àquele momento eu estava calma, mas a minha ansiedade era demasiado grande por saber que naquele grupo eu iria ser a criança. A mais nova e a mais deslocada. 

Todos se apresentaram, dizendo os seus nomes, as suas idades, localidades e experiências de trabalho, até que chegou a minha vez e tive de engolir em seco e tentar com que a voz não me tremesse.

- O meu nome é Íris Tavares, tenho 18 anos, - Fiz uma ligeira pausa e senti todos os olhares esbugalhados em mim. De certeza que ninguém esperava uma novata num trabalho assim. - vivo em Setúbal e este será o meu primeiro emprego. A minha experiência de trabalho não é lá muito vasta.

Quando terminei o meu discurso olhei em frente e deparei-me com algo que não tinha prestado atenção antes, talvez pelo nervosismo. Uma figura de um rapaz alto, moreno, de olhos verdes, bem constítuido, com barba e um estilo muito alternativo e de certa forma misterioso, olhava-me de uma maneira desconfortávelmente atraente. O seu nome era Alexandre.

Senti o sangue subir-me à cabeça, fazendo as minhas bochechas mais vermelhas, destacando-se da pele branca. Ele sorriu ligeiramente e covinhas formaram-se nas laterais da sua boca. De facto ele era atraente. Pelo menos para mim era. Não se comparava nem um pouco ao rapaz com quem eu mantinha uma relação no momento. Este era moreno, de pele bronzeada, coisa que até nunca tinha sido aquilo que mais me atraía num homem.

A nossa relação não era a mais saudável do mundo. A início todos nos questionavam como é que nunca discutíamos, e afirmavam que seria impossível nós nos separarmos. A verdade é que muito provavelmente não nos conhecíamos assim tão bem a início. Mas as coisas iam resultando dentro dos possíveis. Gostávamos um do outro e isso era o suficiente. Pelo menos era.


Durante os seguintes dias, a rotina tinha-se tornado chata. Acordar cedo, apanhar transportes, deslocar-me até Lisboa, ir trabalhar, aprender novos pormenores sobre o que estávamos ali a produzir, aprender a lidar com o grupo... De facto consegui estabelecer boas relações com algumas colegas, que estavam mais próximas. Mas eu queria era conseguir estabelecer uma boa relação com ele.  Ele era enigmático e isso criava uma curiosidade enorme em mim. 

Nunca conseguimos falar um com o outro naquela sala, nem fora dela. Eu porque não sabia ao certo o que poderia dizer e ele porque de certa forma parecia não querer saber.

Com aquela rotina, o meu corpo e o meu cérebro esgotavam-se mais rapidamente do que o normal. Decidi falar com os meus pais sobre o assunto e rapidamente se decidiu que para toda aquela nova experiência ser mais produtiva e compensadora, eu passaria a viver com a minha avó, em Lisboa e iria a casa nas folgas. 

A relação com a minha avó nunca foi a melhor, mas certamente que a minha relação com o meu avô era bem pior. Ao passar a viver com eles, a minha relação com a minha avó melhorou mas com o meu avô nem por isso, mas isso já nem me fazia diferença, eu só precisava de estar ali até conseguir ser transferida para a minha área de residência. Até lá, conseguia viver ali, apesar de me ter habituado a uma nova rotina muito rapidamente. Acordava sempre às 7h para conseguir sair de casa antes das 8h e chegar à estação de metro o mais rapidamente possivel, porque ainda me esperavam 40 minutos de viagem. 

Tinha dias de viajar sentada e tinha dias de viajar em pé encostada às portas do metro. Num dos dias em que os bancos estavam todos ocupados, eu viajava em pé, encostada. Percorri as primeiras estações de metro olhando para todo o lado, cantando em pensamento para passar o tempo, quando cheguei à estação de metro em que entra na mesma carruagem onde eu me encontrava um sujeito vestido de negro com um casaco de cabedal, cabelo moreno puxado para trás. Quando consegui olhar bem, vi que era Alexandre. Manteve-se em frente a mim, mas separados por meia duzia de pessoas, a uns dois metros de distância. Ele não me olhou. Não tivemos trocas de olhares, mas eu não conseguia olhar para mais lado nenhum desde que ele entrou naquela carruagem. Íamos sair na estação a seguir e eu dirigi-me para a porta e ele pôs-se a meu lado enquanto não chegávamos ao destino. Olhei para o meu lado direito e ligeiramente para cima e ele olhou nos meus olhos. Ainda havia uma sonolência nos olhos dele e os meus lábios criaram um "Bom dia" silencioso porque a minha voz não quis sair. Quando me apercebi disso apenas sorri de vergonha e ele sorriu de volta, piscando o olho.   

Aquela tinha sido a situação mais próxima de uma interação entre nós. Caminhámos até aos escritórios e enquanto mergulhava nos meus pensamentos, a sua voz rouca despertou-me, questionando-me que horas eram.

- São 8h50. Ainda há tempo.

- De certeza? Ainda há pouco eram 8h35. Tens a certeza que o teu relógio está certo? - Disse retirando o telemóvel do bolso, mostrando-me as horas que marcava.

Eram de facto 8h40. 

- Tens razão, desculpa. Eu tenho sempre o relógio adiantado. Só assim nunca chego atrasada.

- Não me peças desculpa. É uma boa tática.





Friendly LoversWhere stories live. Discover now