Não gosto de rótulos, acordos tácitos que nos colocam sobre o fio da navalha enganando todos os lados da mesma moeda. Limitantes por natureza, castram e tolhem pela perpetuação de um estado quase imutável de coisas em que a mobilidade é impossível.
Talvez a pior faceta destas impressões duradouras sobre papel e plástico coladas com poderoso adesivo em nossas bocas, olhos, ouvidos e corações seja o fato de serem tão convincentes que mesmo após encerrado o conteúdo da embalagem, ainda os carregamos vida afora como aquele maldito adesivo que mesmo após retirado deixa suas impressões grudentas e sujas por longos períodos.
Assinaturas duráveis como mesmo o tíner ou a benzina, poderosos ingredientes da alienação mental, são capazes de apagar completamente. Completam a mente, definem o perfil com que te locupletas de alguma forma.
Faço aqui uma importante pausa. Melhor googlar a palavra locupletar. Eu te espero...
Inegavelmente, indelevelmente marcados pelos acordos inocentemente assinados em tempo de muita loucura ou de pouco saber e refletir, acabamos levados aos lixões onde o que não tem mais serventia ocupa espaço e gera dor de cabeça.
Um paradoxo se pensarmos no sistema fechado em que vivemos. Montanhas de embalagens com rótulos descartadas para dar lugar a outras tantas exatamente iguais ou com poucas diferenças definidas por uma nova legislação...
Mas se o amigo leitor prestou atenção a tudo que disse até aqui,
Está certo. Sua leitura foi superficial, absolutamente transversal e você teme ter perdido O Detalhe vital para o que falarei agora.
Sem problemas. Eu espero você reler. Caso tenha tempo, é claro.
Talvez já esteja sendo importunado pelas notificações das redes sociais e seus olhos não consigam se desviar das breves informações que aparecem no topo a telinha de seu smartphone.
É melhor você ler novamente para ter certeza que não transcendeu o que disse até agora, maldizendo as insistentes mensagens de bom dia que chegam das poucas dezenas de grupos em que você foi colocado para se aproximar da sua realidade material.
Estávamos no lixão. Aquele espaço para onde o que acabou segue para continuar ocupando espaço e gerando dor de cabeça. Rótulo para nossa vida despreocupada, acordo tácito que em algum momento também nos legará ao descarte para ocupar espaço e dar dor de cabeça.
Diria na sequência para você, caso ainda esteja conseguindo manter a concentração, que nada é permanente para sempre. Mesmo o insistente rótulo será consumido em algum ponto de sua história.
A grande questão é que, enquanto a destruição não se faz por algum processo lento da natureza, vivemos à sombra de sua composição feita para perturbar.
Melhor mesmo seria usar máscaras especiais para que pudéssemos rotular livremente uns aos outros, sempre diante do consentimento do rotulado, mesmo que por sua inocência, passividade ou loucura, é claro.
Rotulados desta forma podemos escolher o melhor conjunto de rótulos a apresentar nas ocasiões da vida e assim poderíamos ser mais felizes.
Mas nós somos as máscaras e carregamos as marcas dos rótulos antigos que denunciam o que fomos.
O melhor dos mundos seria se você pudesse entrar no modo avião agora para terminar esta leitura. Ficaria imune a tantas notificações e chamadas do mundo virtual, ou seria este o real e o outro virtual? Melhor não problematizar nesta altura do texto...
Se o modo avião fosse uma escolha, você estaria inacessível também às propagandas que chegam no meio deste texto, talvez nem conseguisse ler até o final pois as últimas partes só serão exibidas depois que você curtisse ou compartilhasse alguma coisa em alguma rede social para algum público de suas relações levando-os a consumir alguma coisa de algum fabricante que decidiu pagar para que você estivesse lendo alguma coisa gratuitamente...
Ou seja, a inexatidão de tudo que envolve este texto lega a ele a simples existência e se você arrancasse este rótulo se desligando na Grande mãe, a Internet, e impedisse que te rotulassem para vender mais alguma coisa, decretaria a não existência para ele.
Melhor correr com a leitura para que acabe este artigo antes que o próximo anúncio chegue pela virtual conexão 1000G que te conecta ao mundo desconexo de continuidade...
Estou quase acabando. Tente não se dispersar e te falarei sobre uma possibilidade.
E se reciclássemos as embalagens vazias e eliminássemos os rótulos?
Está certo, eu sei que seria uma puta revolução. Mas talvez as guerras acabassem, as intolerâncias perdessem sentido e o preconceito fosse transformado em proconceito, uma postura em que acreditamos sempre no potencial do outro e o queremos por perto para nos ajudar a reciclar.
Neste cenário utópico, melhor googlar novamente, não seria necessário restringir a venda do tíner e da benzina. Elas simplesmente não seriam mais necessárias para alienar a mente e nem para retirar os vestígios de rótulos antigos que não desejamos mais.
Não teríamos mais lixões e tudo poderia ser reaproveitado, até mesmo você e eu...
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Why Fly Zone
Non-FictionQuando era jovem costumava olhar para os conflitos de gerações de uma posição muito cômoda. Eu era a visão inovadora que não conseguia imprimir tolerância suficiente em mim mesmo para lidar com as dificuldades vivenciadas por meus pais, bem mais vel...
