Era a manhã do dia 14 de Janeiro. O céu estava bonito, na opinião de terceiros, mas na minha, estava um dia horrível. O sol brilhava no céu azul com algumas nuvens brancas de algodão, deixando o clima quente e desagradável.
Ainda era cedo, 8:30, para ser mais exata, e lá estava eu, dentro de um Rabecão lotado de malas dirigindo até minha nova casa no centro de New Jersey.
No caminho, várias crianças brincavam com sorrisos ridiculamente largos no rosto, como se aquele fosse o melhor dia de todos. Idosos com roupas de ginástica caminhavam pelas calçadas, sorrindo tanto quanto as crianças. Mulheres cheias de lipoaspirações e silicone corriam com fones de ouvido e macacões apertados. Homens bombados e fúteis corriam e observavam as bundas e peitos das mulheres siliconadas. Ah, como é bela a sociedade...
Que falta de educação a minha... Nem me apresentei! Meu nome é Lucy Candle Scar e tenho 19 anos. Faço faculdade de artes cênicas e sofro da famosa "síndrome de reprimida ao ponto de precisar reprimir sua reprimez", popularmente chamada de ansiedade e depressão por psiquiatras. Mas não gosto dessas denominações. Ansiedade e depressão são coisas vazias. São apenas diagnósticos. O que eu sinto não é nem um pouco vazio, pelo contrário, transborda. Em resumo, não confio em diagnósticos. Quero dizer, aqueles caras possuem diplomas, mas não sabem o que eu sinto. Eles não passam pelo mesmo que eu passo, não passaram pelo mesmo que eu passei. Logo, não podem me receitar remédios.
O que me lembra de outra coisa que sempre está em minha cabeça é o uso de remédios para controle emocional. Eles nos dopam. Nos impedem de sentir. Acho isso extremamente errado. Hoje em dia, ninguém mais sente nada, todos tomam remédios para bloquear os pensamentos durante o dia, a vontade de explodir as coisas que guardamos há muito tempo e a criatividade durante a noite. Não somos mais permitidos sentir o que precisamos sentir! Os pensamentos durante o dia são denominados depressão. A vontade de explodir as angústias é chamada de ansiedade. O boom de criatividade durante a noite agora chama-se insônia. E tomamos pílulas para bloquear essas coisas de dentro. É ridículo!
Mas vamos votar, ainda terão muitas páginas para meus desabafos loucos e que provavelmente não farão nenhum sentido para outras pessoas.
Sou uma americana comum, olhos castanhos, cabelos castanhos e compridos e sou magra. Meço 1,75, nem muito alta e nem muito baixa e me dedico bastante aos meus estudos.
Não tenho muitos amigos. Na verdade, meu ciclo de relações é bem restrito. Tenho quatro amigas, Clara, Rita, Mariah e Clove, sendo que Rita mora no México. Os amigos homens são cinco; Josh, Daniel, Tom, Jasper e Jazz. Jasper e Jazz são irmãos gêmeos que conheci na faculdade. Tom, Daniel e Marcos são os três CDF's do curso de medicina. Josh não é da faculdade, ele é um modelo de cuecas e não estuda, mas é muito amigo dos gêmeos, então acabei conhecendo-o também. Clara e Mariah são da mesma área que eu, mas estão estudando para produzir filmes, e não participar deles. Clove faz música em outra faculdade, nos conhecemos em um bar de esquina (longa história). Rita foi uma garota que morou em minha casa ano passado, quando ainda morava em outro lugar de New Jersey. Ela passou um ano comigo, como intercambiária, e depois voltou para seu país, mas não perdemos contato. Não tenho namorado nem namorada (não sou lésbica, mas sem nenhum preconceito), mas não me considero uma encalhada. Não é uma prioridade para mim.
Minha família é bem dispersa. Minha irmã mais nova, Violet, mora em Seattle com dois amigos e o namorado. Meu pai mora com minha madrasta em Manhattan, mas não o vejo há cinco anos, desde que me mudei. Ele é um babaca.
Minha nova casa agora é menor do que a anterior e mais próxima da faculdade e da loja Tiffany em que trabalho. É uma residência individual reformada e mobiliada em um bairro cheio de outros estudantes. Comprei-a com meu orçamento mais a ajuda financeira de 5.000 dólares de meu pai.
Além de ser atendente na loja, vendo quadros e poesias em alguns lugares da cidade. Para conseguir um pouco mais de dinheiro, dou aulas particulares de física e biologia.
Como passatempo, faço aulas de canto, leio, escrevo e gravo vídeos para o YouTube.
Depois de dirigir por mais um tempo, cheguei à minha nova casa. A fachada era rosa-chá com detalhes brancos em madeira. Era estreita, mas espaçosa o suficiente para uma pessoa. No segundo andar, havia uma varanda também rosa e branca, com pequenos entalhes em renda. O jardim da frente era bem-cuidado e cheio de florzinhas, mas com certeza não continuaria assim por muito tempo, se dependesse das minhas habilidades com plantas.
Peguei minha chave na bolsa e abria porta da casa. Os móveis estavam cobertos por lençóis brancos, para não ter risco de pegarem poeira ou estragarem. As janelas eram bem acabadas, contornadas com madeira branca. A cozinha era composta por uma geladeira vermelha, uma bancada com cook top, pia, armários também vermelhos e a ilha. Na sala, um sofá preto de veludo de quatro lugares posicionado em frente à televisão embutida na parede, um tapete felpudo vermelho, uma lareira automática e uma mesinha de centro de vidro e madeira escura compunham um ambiente aconchegante.
Na parede que separava sala da cozinha, havia uma escada de madeira, como as de brinquedos de parquinho, que levava até o andar de cima, o quarto. Subi até lá e rodei pelo cômodo. Uma grade de madeira marrom impedia que eu caísse depois de subir a escada e entrar no quarto. O piso era marrom também e as paredes, brancas. Uma cama de casal e um criado mudo preto com uma gaveta ao estilo antigo estavam bem no meio. Um puff roxo e uma escrivaninha de madeira estavam no canto, virados para uma das janelas. As portas de vidro duplas que levavam até a varanda eram também contornadas por madeira branca. O teto inclinado dava um ar mais "casa" a tudo aquilo. O quarto era bonito.
Abri as portas da varanda e caminhei pelo espaço. Não era grande, mas era bonito. O piso era da mesma cor que as bordas da janela e dava para ver toda a rua de lá. Era uma boa casa.
