As paredes mostram, aflitas, a insana noite que agora terminou. Os gritos ainda cavalgam enlouquecidos pela espaçosa sala principal da imponente mansão italiana.
Um corpo caído, antes aparentemente morto, começa a se mover. Cambaleante, procura equilíbrio no ar. O jovem, nu e semiconsciente, pensa estar num terrível pesadelo.
_ “Permita-me ajudá-lo, guri”.
_ “Eu... eu...”
O estranho, calmo e muito bem trajado, com cabelos negros, lisos e longos, rosto forte, triangular, fechado, estende sua mão ao jovem napolitano, levantando-o com cuidado, ciente de sua semiconsciência.
_ "Oh! Meu Deus!...", pensa Lorenzo, ao visualizar a sala, recordando-se da noite anterior.
_ "Deus não tem nada a ver com isso, pequeno. Não diretamente. Zeus sim. Permita-me a apresentação: sou D. William. Você deve ser Lorenzo Ravieri, não?"
_ "Quem é você? Como sabe quem eu sou? O que faz aqui?"
_ "Calma, Lorenzo, calma. Já lhe disse meu nome. Não se recorda da minha pessoa?"
Nosso não menos afortunado amigo fixa seus olhos azuis no rosto do estrangeiro, analisando minuciosamente sua fisionomia. Perfume adocicado, cabelos longos muito bem escovados e soltos, negros, sobrancelhas finas, olhos castanhos...
_ "Você! É você mesmo! O gerente do hotel em que fiquei hospedado em Paris!"
_ "Sim, rapaz. Agora entende como eu sabia seu nome e como encontrá-lo".
_ "Qual o motivo de estar aqui?"
_ "Essa é uma longa história. Devo começar, confessando que fui eu quem o transformou".
O rosto de Lorenzo petrifica-se com a revelação.
_ "Você é o responsável por todo o meu sofrimento! Bastardo! Você me amaldiçoou. Por quê? O que eu fiz contra você?"
_ "Maldição? Não seja tolo, jovem. O que lhe dei foi uma bênção!"
_ "Ah... Tá. Uma benção?!? Eu matei minha mãe quando ela atirou em mim, comi o coração da coitada. Chacinei várias famílias sem piedade e agora meus entes queridos, todos eles, estão mortos. Grande benção, D. William".
_ "Você matou sua mãe, pois sua existência fora ameaçada. Agiu por instinto, porque é assim que age o animal que vive dentro de você. Esse é o preço pela dádiva. Nossa genitora precisa de energia para viver. E nós precisamos matar, para que ela sobreviva. Ela nos agraciou com alguns poderes sobrenaturais que somente as crias da escuridão detêm: podemos ler pensamentos, enxergar além da visão, correr mais rápido que um jaguar e ser tão ágil quanto; temos a ferocidade do lobo e a inteligência muito superior a do homem. Cada lobo tem seu "dom especial", uma espécie de poder extra que nossa rainha nos concede. Permita-me demonstrar".
O barulho de ossos se partindo começa a ecoar nos ouvidos de Lorenzo. Os olhos de D. William sangram; sua pele facial se contorce como por vontade própria, esticando frontalmente junto aos ossos. Os dentes saltam, formando uma imensa mandíbula lupina. De forma brusca, suas costas racham, colocando o homem em posição jurássica. Pelos crescem em instantes, os dedos alongam-se; em suas extremidades, unhas tornam-se garras. Alguns eternos minutos se passam.
_ "Nunca presenciei tamanho horror em minha vida! Não tinha consciência de que era assim tão..."
_ "Estranho, guri? Bizarro, talvez?"
_ “Medonho. Você pode comunicar-se telepaticamente como Annete fez! Explique-me como!"
_ "Todos nós podemos, lobos com lobos, pois somos a mesma essência. Mas minha demonstração ainda não terminou"
O ritual de transmutação inversa tem início. D. William novamente assume aspecto humano.
_ "Esse é o meu dom, jovem Lorenzo. Posso controlar minha transformação. Não dependo da presença divina para evocar os poderes. Sou o primeiro da estirpe... Nascido da própria deusa. O precursor de nossa raça de homens-lobos"
_ "Eu não consigo controlar minha transformação, D. William".
_ "Pois não é o seu dom. Tu não consegues fazê-la sem sentir dor também. No meu caso, eu sou quase um metamorfo, também consigo mudar minha aparência para qualquer ser canídeo. Esse é o meu dom e cada lobo é agraciado com um único poder extra. Tu ainda não percebeste qual foi a graça que tu recebeste?"
Lorenzo não responde. Ele está muito confuso para pensar.
_ "Meu rapaz, quão ingênuo tu és! Tu sobreviveste ao "beijo" da vampira! Suportaste que ela sugasse sua essência lobo!"
_ "É verdade... Eu poderia ter morrido".
_ "Poderia, não. Deveria! Por isso, eu estou aqui. Tu és o escolhido, aquele que foi agraciado com o poder da invulnerabilidade aos vampiros".
_ "Não entendi nada".
_”Entenderás. Precisamos viajar para as terras do Rei Saurr”.
_ “Por que motivo?”
_ “Ah, tu verás pessoalmente o motivo! – responde William, enquanto volta seu olhar para algo que se aproxima por trás de Lorenzo.
_ “Cáspita! Que diabos é isso?” – diz Lorenzo, ao dar um grande pulo de susto quando vê a criatura bem às suas costas, o que o faz cair novamente no chão e ela, com uma voz rouca e máscula, típica de um homem maduro e experiente, fala:
_ “Fui atrás das informações desejadas, William. Temos que ir para a África”.
_ “Não se espante, meu jovem, ele é um amigo”, tranquiliza William, estendendo a mão aberta para que Lorenzo a segurasse para assim levanta-lo.
A besta-fera tinha uma cabeça de cavalo, patas diferentes, as da frente, de leão, com garras pontudas e dedos gordos, e as traseiras, como as de um cervo, de cascos duros e amarelados. Sua boca era muito grande, indo de orelha a orelha praticamente e sempre que parava de falar, parecia sorrir. O corpo era todo revestido de pelos, como os do lobo, sendo uma camada de subpelo em tom marrom claro, com pelos mais grossos, avermelhados, em um tom bem ruivo nas pontas, o que refletia um efeito singular, quase mágico, quando o sol batia neles, provocando uma suave vertigem em quem a visse. Conversaram por alguns poucos minutos e então William decidiu:
_ “Bem, pois então, o que esperamos? África, que seja!”
_ “Ainda não entendi o que vamos fazer em África? É lá que o Rei Saurr vive?”
_ “Nós vamos caçar parandrus” – responde a criatura. “A propósito, meu nome é Linger, neto do Grande Lobo”.
_ “Eu sou Lorenzo Ravieri. Quem é o Grande Lobo?”
Linger olha para William e percebe que ele não contou para Lorenzo sobre a ancestralidade dele. Pelo fato de confiar nas motivações do seu amigo, ele se cala e começa a caminhar, dando às costas aos dois.
Lorenzo também não fala mais nada, nem insiste na pergunta, ficou um clima estranho no ambiente. Tão menos se surpreende com aquilo que vão caçar: parandrus. Isso não causou nenhum espanto no napolitano. O que de fato o intrigou é que, ou ele ouviu muito mal, ou ele estava delirando, ou a criatura realmente estava conversando com uma voz feminina agora?
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Lua, Perversa Lua.
WerewolfItália no começo do século XX, no período entre guerras. Uma tradicional família esconde um terrível segredo. Uma criatura domina as noites de Nápoles e região. Por séculos, a maldição do lobisomem recai sobre a mansão dos Ravieri. Até a chegada de...
