¤Um Edifício Em Pandemônios¤

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  O centro da cidade de Florianópolis estava apinhado de gente. As calçadas abarrotadas de famílias, crianças, casais e todo tipo de pessoas e etnias com seus celulares tirando fotos, rindo, comprando e aproveitando o grande feriado de carnaval no ápice do verão. Um dia ensolarado de clima quente, ar límpido e uma refrescante brisa do mar que cerca a ilha só sublinha o momento e local perfeito para se curtir a vida. Ninguém nota, no céu azul logo acima dos prédios, um gigante par de asas douradas de três metros e meio sobrevoando suas cabeças.
Nem Hadolff Greenberg.
Andando por essas mesmas ruas, à passos largos e desajeitados, às pressas vestindo um smoking preto surrado levemente mais curto do que o ideal para seus magricelos e esguios um metro e oitenta e nove, Hadolff olha incontáveis vezes para seu relógio de pulso sabendo que chegará ao seu primeiro dia de trabalho quase em cima da hora em pleno próprio aniversário de dezoito anos.
Nos vidros espelhados das paredes do onipotente Edifício Comercial Touch Down, dez minutos adiantado e algumas gotas de suor escorrendo do lado das têmporas, Hadolff ajeita o paletó e a gravata. Seus cabelos negros semi longos e lisos estão impecavelmente esticados para trás da nuca, ao não ser por alguns poucos fios da franja grudados na testa branca.
Hadolff não tem família. Nunca viu seus pais. Foi criado por uma família de portugueses na capital de São Paulo, trabalhando em restaurantes até os seus dezessete anos. Até o dia do acidente! Que o obrigou a ir morar com sua meia tia na cidade de Florianópolis.
No vigésimo terceiro andar, a porta do escritório de número vinte e três mil e duzentos e um se abre ao primeiro toque. Um rapaz com sua mesma estatura, só que muito mais corpulento, loiro e sorridente de dentes branquíssimos, é excepcional em recepcionar com seus aparentes vinte e oito anos de idade. Fael, seu nome, apresentou-lhe todos do escritório da empresa multinacional Impacto Em Rede. Após o caloroso café da manhã, o gerente e sócio-proprietário da empresa, inicia uma longa palestra motivacional e instrutiva aos novos funcionários numa grande sala à beira dos grandes vidros da parede.

A palestra foi ministrada pelo gerente e sócio-proprietário Ruarez com seus aparentes trinta e quatro anos de idade, ralos cabelos pretos esticados por de trás de uma meia careca de orelhas pontudas, assim como um rato. Fael continuava sentado ao seu lado, volta e meia jogava-lhe um olhar alegre e brilhoso com um sorrisinho falso e calorosamente charmoso. Sentado, sua coxa era visivelmente mais grossa do que havia percebido e sua calça social Slim estava visivelmente esticado por robustos músculos. E reparando melhor, percebia-se que seu corpo robusto destina-se à grandes músculos desde os ombros e peitos, descendo até as panturrilhas.

O céu lá fora continuava límpido e claro. O sol árduo resplandecendo imperial entre as finas e imperceptíveis camadas de nuvens. Apenas um minúsculo pontinho preto flutuava no meio da imensidão azul do outro lado da janela. Um ponto que começou menor do que uma mosca. Instantes depois, do tamanho de uma joaninha. Um besouro. Uma barata. Uma lagartixa. Um pássaro, talvez. Um avestruz, não. Um cavalo alado, não. Um avião, um avião.

Um avião que se aproximava gradativamente. Com o nariz apontado numa direção inconfundível, inconfundível mesmo.
"Senhor Greenberg!!! Posso saber o motivo de seu devaneio?! Acredito que o Senhor se encontra menos interessado do que os testes finais." Exclamou o Gerente nariz de rato com seus olhinhos miúdos por detrás dos óculos.
"Não Senhor!" sobressaltou-se Hadolff. "Eu me pergunto onde um avião poderia pousar por detrás deste prédio?!"

"Não entendo Senhor Greenberg." disse o confuso Gerente nariz de rato.
"Um avião Senhor. Está se aproximando cada vez mais baixo. Olhe..." Tentou mostrar-lhes o que tinha visto. Mas agora é impossível não notar. Todos já estavam olhando. O avião estava se aproximando rapidamente. Não era um grande avião. Provavelmente um jatinho particular. Mas estava chegando tão de pressa que era impossível notar algo logo atrás deste.
Um par enorme de longas asas douradas serpenteava o céu atrás do avião como uma águia perseguindo uma presa.
"O avião está vindo direto pra cá!!!" alguém gritou entre eles.
Então foi aí; como no dia do acidente. Que veio o caos...
BUMMMM!!!
Toda a estrutura do prédio sacudiu. O barulho foi ensurdecedor. O mundo ficou preto e Hadolff não sabia se os gritos saiam de sua boca ou das de outros.
Tudo era fumaça. Tudo era uma bagunça de corpos se trombando. E uma mão forte de veias saltadas agarrou seu braço direito.
"Hadolff... vamos cara.." Era o Fael em meio a fumaça. Sua cara estava salpicada em poeira. "Hein... Hadolff... Vamos!"
As pernas de Hadolff estava mais bambas que a estrutura do prédio, mas mesmo assim conseguiu seguir Fael em meio a confusão.
E que confusão!!!
O escritório da Empresa Impacto Em Rede estava muito mais apertado do que antes. Com pessoas se esbarrando, ajudando outros caídos, mesas e cadeiras reviradas.
No lado de fora da sala, onde ficam as portas para o elevador, a confusão não estava tão diferente.
Mas uma última olhada dentro do escritório, Hadolff vislumbra uma cena mais estranha ainda. Um enorme par de asas douradas, como o de uma águia gigante, passa do lado de fora dos vidros rente a parede do Edifício Touch Down.
Como no dia do acidente! Acidente que matou seus pais!
BUMMMM!!!
Um novo estrondo, um pouco mais embaixo do prédio. Tudo sacode de novo. Mais poeira sobe ao ar. Mas ainda deu para ver quando, com mais um estrondo ensurdecedor, todos os vidros das paredes do Edifício Touch Down foi à baixo.
O barulho das grandes placas de vidro caindo no chão centenas de metros de distância à baixo era horrível e estranho. Como se milhares de agulhas gigantes caíssem em cima de um metal oco.
Hadolff estava agachado do lado de fora do escritório. E no corredor as pessoas gritavam, rezavam e pediam mais uma chance de vida pra Deus.
Dali mesmo, Hadolff podia ver que o lado de dentro do escritório a situação estava ainda pior. Pessoas estavam gravemente feridas, com ferimentos expostos, sangue escorrendo por todos os lados e ou ainda inconscientes.
Mas no meio daquela fumaça toda, algo grande se movia por meio aos escombros. E todas aquelas pessoas passavam para lá e pra cá, e pareciam não notar.
Era inconfundivelmente um homem. Muito alto, de pelo menos quase três metros de altura. Pele branca. Corpo robusto, muito músculo, muitas veias e um corpo trincado como dos que concorrem aos prêmios bodybuilding.
Está vestido apenas com um pedaço de pano branco amarrado em sua cintura e um par de sandálias de couro trançado até a base dos joelhos. Há um bracelete dourado no braço direito. Há também uma auréola dourada e extremamente brilhante da grossura de um dedo pairada em sua cabeça de cabelos loiros encaracolados. Grossas correntes pratas desciam até o chão onde há também duas grandes bolas de aço toda cheia de espinhos. Seus olhos estavam brilhando intensamente. Mas as asas...
Por detrás das costas emergia um enorme par de asas. São maiores que seu corpo. Toda dourada. Suas penas pareciam metal. Uma divindade. Uma divindade como no Dia do acidente que matou seus pais!!!
"Hadolff!!! Acorda cara!!!" Era Fael sacudindo-lhe os ombros. "Precisamos ir. Isso vai piorar cara. Vamos morrer intoxicados com essa porra de poeira!!!"
Ainda do lado de fora, Hadolff podia ver o 'anjo' vasculhando os escombros. Tocando pessoas desacordadas uma à uma. Mas, mais parecia que estava procurando algo do que ajudando os feridos.
"Mano!!! Sério. Se você não vem eu vou sozinho!!!" Fael já estava tossindo bem mais que antes. Não parecia ter notado o 'anjo' de quase três metros dentro do escritório.
"Vamos." Respondeu Hadolff.
"Graças a Deus!" Fael pareceu muito mais aliviado. Mesmo sua tosse diminuiu de ritmo. Ele puxou Hadolff para mais fundo no corredor já escuro e não olhou para trás. Definitivamente não notou o 'anjo' que ficou pra trás no escritório da Empresa Impacto Em Rede aos destroços.
Os elevadores obviamente não estavam funcionando. Tiveram que começar a descer pelas escadas de emergência. Ali não havia tanta fumaça. Mas a descida era lenta devida a massa de sobreviventes que tomaram o mesmo caminho.
Alguns andares mais à baixo, ainda na escada de emergência, quase não havia luz. As pessoas pareciam ter mais dificuldade em se locomover. O silêncio era aterrorizador.
TUMMM!!!
Mais um estrondo. As pessoas voltam a ficar assustadas. O chão treme novamente. Uma fina camada de poeira é jogada pra dentro das escadas de emergência.
"Estou escutando algo." Sussurrou Fael. Hadolff não escutava nada, ao não ser os gemidos dos feridos.
"Não escuto nada." respondeu Hadolff tentando escutar algo de mais anormal ainda.
"Shiiiii..." Fael pediu silêncio. Com uma mão limpou os olhos irritados. "Me parece estar vindo da porta do próximo andar à baixo. Presenciamos checar."

Os dois saíram da escada de emergência e entraram no oitavo andar do prédio. Lá não havia salas após salas e nem pessoas. Todos já haviam se retirado. Havia um imenso hall todo espelhado com imensos pilares revestidos em mármore. Atrás do hall era visível um imenso salão com várias mesas e cadeiras, mais um palco ao fundo. A parede transversal era toda espelhada com grandes portas de vidros e longas cortinas vinho escancaradas. Do outro lado desta parede de vidro havia um outro salão igual, talvez um pouco menor.
"O barulho está vindo do outro salão..." Sussurrou Fael guiando-os mais à fundo no hall.
Hadolff agora também podia ouvir. Parecia um chiado distante de chocalhos de areia e um barulho suave de tambor.
Quando estavam prestes a entrar no primeiro enorme salão, por detrás das cortinas do palco emergiu por uma porta semioculta uma enorme figura cintilante. Era outro 'anjo' de três metros de altura.
"Aí. Caralho!!!" Exclamou Fael ainda em voz baixa.
"Você consegue ver o 'anjo'?!" Perguntou Hadolff.
"Psiuuu!!!" Advertiu Fael a ficarem quietos.
Este 'anjo' também carregava uma daquelas armas de correntes de prata com bolas de aço. Ele desceu majestosamente os degraus do palco. Passou esbarrando por algumas mesas. E com um movimento rápido girou a corrente de prata e estourou um pilar bem no meio quando a bola de aço perpassou o mármore facilmente.
TUMMM!!!
O estrondo desta vez fui muito forte. Estilhaços de pedras voaram por todos os lados. Mais poeira subiu o ar.
"Mas que porra!!!" Exclamou Fael. Os dois se esconderam atrás de um pilar ainda no hall bem a tempo. O 'anjo' virou para o lado deles. Parecia estar farejando o ar.
Os batuques e os barulhos de chocalho aumentaram de intensidade no outro salão. Isso pareceu desviar a atenção do 'anjo'.
Com mais um movimento, ele arrebentou com todos os vidros da parede espelhada que separava os dois salões. Com a parede de vidros inteira no chão, o barulho do outro lado estava mais discernível.
Antes mesmo do 'anjo' adentrar o próximo salão ficou à vista um pequeno grupo de pessoas de cabelos pretos lisos. Eram quatro. Uma mulher e três homens. Todos vestidos de terno e tailleur. Os homens sacudiam um graveto com uma bola de coco na ponta. A mulher batucava um pequeno tambor. De um pequeno vaso de barro saia uma fumaça preta. E eles gritavam feito índios na selva.
O 'anjo' pareceu mais irritado do que antes e transformou mais um pilar em nada. Mais um estrondo. Mais estilhaços de pedras. Mais poeira. Mais tremor.
O pequeno grupo de índios engravatados pareceram notar a aproximação avassaladora do 'anjo'. Eles aumentaram o 'ritual' de intensidade. O pequeno vaso de barro começou a tremer compulsivamente e a fumaça que sai dele ficou mais forte. Até que o pequeno vaso explodiu em nuvens pretas e relâmpagos. E no meio daquela mini tempestade brotou uma enorme pata. Um corpo robusto. Um par gigante de dentes de sabre.
Inconfundivelmente emergiu um mamute no meio do salão.
O chão tremeu. O mamute grunhiu assustadoramente.
Fael parecia estar paralisado de medo. Hadolff sabia que não estava tão diferente.
O 'anjo' atacou usando sua arma. O mamute deu uma investida. O encontro das duas entidades em fúria foi recebida com mais um estrondo. O chão começou a tremer novamente e o barulho era estarrecedor.
O mamute se movia lentamente. Mas as pancadas eram avassaladoras. O 'anjo' se movia com mais graça e delicadeza, mas seus golpes eram igualmente destrutivos. Mais poeira subia o ar e a briga era impressionantemente assustadora.
Os quatros índios de terno continuam cantando seu ritual. A briga a frente deles os motivavam gritar ainda mais.
Mais pilares estavam sendo seriamente destruídos enquanto os corpos destas divindades se atracavam selvagemente.
O chão treme mais e mais. Parecia que toda a estrutura do prédio já estava incorrigivelmente danificada.
"Precisamos sair daqui!" Alertou Hadolff.
"Sim. Vamos."
Os dois deram meia volta. Saíram pela mesma porta de que entraram, deixando para trás uma briga divina de criaturas milenares dum mundo paralelo à Terra, ao Céu e ao inferno.
Hadolff já havia visto o 'anjo' muito antes ao pandemônio do Edifício Touch Down. No dia do acidente de seus pais! Mas nunca o tinha visto mais, nem assim. Nem tinha conhecimento de outros que pudessem vê-lo, assim como Fael. E nem tinha visto ainda algo como o mamute.
Sempre suspeitou que o mundo como conheceu nunca existiu. Que muitas forças ocultas pairavam por todas as partes. Mas nunca imaginou vivenciar algo para ver. E o que ele vai ver está além de suas crenças. Além das forças destrutivas daquelas duas criaturas milenares. Duas divindades em fúria. 

O Filho do Demônio E A Morte Da CruzHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora