os corvins - capítulo único

16 4 3
                                        

Os corvins são criaturas que passam a existir quando você começa a acreditar na existência deles, como eu sei disso? Porque eu fui vítima da travessura deles. Eles são como cupins para o seu violão, porém, você não consegue vê-los ou detetiza- los, ou seja, são os piores pesadelos de um músico.

Este conto se inicia quando, por acaso, ouvi uma velha história...

Eu tinha acabado de ganhar um violão novinho de presente de aniversário do meu avô, como você já sabe, todos os avós tem muitas histórias interessantes para contar.

- Mila, você conhece a lenda dos corvins? - perguntou meu avô quando eu estava a contemplar o lindo violão que ele havia me dado de presente de aniversário, como todos os avós sempre tem aquela história dos tempos de velhice para contar eu me aproximei, pois o tempo não só havia levado a sua juventude como sua voz também.

- Reza a lenda, que se você acreditar, eles passaram a existir de verdade.

- Eles quem vovô? - perguntei curiosa.

- Os corvins - ele sussurrou arregalando seus olhos, como se fosse um segredo entre neta e avô - eles vivem bem aqui! - apontou para o violão - dizem que eles são os piores pesadelos de um músico, eles são muito travessos quando não se esta olhando - deu uma gargalhada, daquelas que só os velhos sabem dar - eles desafinam seu violão, girando as tarraxas como se fosse um pião; pegam suas palhetas e escondem de modo que você nunca vai mais vai encontrar, não importa quantas você compre, onde guarda, eles sempre as acham e as escondem; eles riscam seu violão todinho, sabe aquele arranhão que você não sabe de onde veio? Bom agora você sabe quem os faz.

- Corvins? - perguntei tentando entender o nome.

- Sim, eu mesmo dei esse nome à eles, porque... bem, porque eu não gosto de corvos! - explicou.

- Verdade? Quer dizer, pequenas criaturas místicas dentro desse violão? - não podia ser verdade, como eu não poderia vê-los, não fazia sentido.

- Sim, sim, é a mais pura verdade, se não acredita mais nas palavras de um velho gaga, façamos um teste esta noite, os corvins são criaturas que se escondem à presença de humanos, mas é quando não há ninguém que eles começam suas travessuras - fez uma pausa dramática seguida de uma série de tosses - seu violão é o alvo perfeito, novinho em folha, eles não iram resistir, iremos deixar uma palheta enroscada nas cordas do braço do violão quando formos dormir, e então no dia seguinte se a palheta sumir vamos saber se eles existem ou não - deu uma piscadinha e em seguida outra gargalhada de velho, foi em direção ao violão encostado na parede e entrelaçou a plheta entre as cordas - agora vamos dormir e no dia seguinte ZASP! -fez um gesto com as mãos, como se tivesse capturado uma mosca - catamos eles.

Dei uma boa olhada no violão, e corri atrás do meu avô que seguia para o quarto.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi dar um salto da cama e correr para a sala, onde o violão se encontrava, parei de correr na hora ao perceber que a palheta não estava mais lá, com o coração apertado em meu peito me aproximei, olhei ao redor, nada de palheta alguma, será que não estava dentro daquele buraco no violão? afinal ela poderia muito bem ter escorregado pelas cordas durante a noite e caido lá dentro, mas era difícil ver direito, então balancei o violão de um lado para o outro a fim de ouvir algum som que indicasse que havia algo lá; chacoalhei, balancei, virei o violão de ponta cabeça, de "barriga pra baixo" , fiz de tudo o que se pode imaginar, só não taquei o violão no chão.

- Mila? O que está fazendo? -gargalhou.

- Vovô! Estou procurando a palheta, ela sumiu, isso é impossível, estava bem aqui até ontem a noite! - vovô soltou mais uma de suas risadas de gente velha balançando a cabeça, como se estivesse discordando do que estava falando.

- Fomos atacados durante a noite Mila, não percebe? a essa altura as palhetas já estão em palhetópolis! - disse analisando o violão como se fosse a cena de um crime.

- Palhetópolis? - perguntei confusa.

- Sim, é um lugar para onde as palhetas perdidas irão - disse passando a mão entre seus cabelos grisalhos, e depois coçou seu queixo bem aonde havia um verruga peluda, parecia estar pensando em alguma estratégia - já sei! Por que não compramos outra palheta? mas dessa vez vamos colar ela no violão e assim ela não será roubada... Não, acho que esse plano não é uma boa idéia; já sei! Vamos comprar ratoeiras... espera, também acho que não iria funcionar -fez uma longa pausa, coçou a cabeça, coçou mais uma vez a verruga, realmente os velhos tinham bastante coceira - já sei! Porque não tomamos café da manhã primeiro e depois pensamos melhor no que fazer, em? - finalmente uma boa idéia, pensei enquanto íamos para a cozinha.

- Sabe... - disse tentando mastigar sem deixar escapar a dentadura - esses bichos vêem assombrando nossa família à gerações, começou comigo, quando eu ainda trabalhava como luthier, varias pessoas haviam me procurado, e incrivelmente eles tinham os mesmo problemas em comum, foi ai que eu comecei a desconfiar na existência dos corvins... porque não havia indícios de algo que poderia ter acarretado os problemas, então comecei a ter certos tipos de problemas no meu local de trabalho também: minhas ferramentas sumiram! Violões empenaram! as bags rasgaram! Cordas estouraram! e o pior de tudo foram os violões cairem do suporte de uma hora para a outra! tudo estava um caos! Então percebi que só haveria uma maneira de acabar com os meus "problemas"

- Como? - perguntei curiosa.

- Desistindo dos meus sonhos de ser músico e um profissional qualificado! - assim que viu minha reação, começou a gargalhar, ele realmente se divertia enquanto contava histórias - te peguei! eu não desisti de nada Mila!

- Então como se livrou desses bichos destruidores de violão?

- Simplesmente parei de acreditar na existência deles - falou como se fosse simples deixar de acreditar em alguma coisa de uma hora pra outra - a propósito - parecia estar tentando tirar algo do bolso de seu agasalho - toma aqui sua palheta!






Hey gente linda, o que acharam do conto? Não se esqueça de comentar e dar uma ★

Guitar TermiteStories to obsess over. Discover now