"Seu sorriso vale mais de mil palavras
Deixa que o futuro fica pra depois"
Bem-vindos, leitores, a essa história. Este não é um romance como Nicholas Sparks, e também não é uma história policial como Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle. É apenas um romance. Meu nome é Paulo, e você pode me imaginar com uma voz rouca e profunda de narrador de filmes. Eu serei um dos três personagens principais dessa trama. E você deve estar louco para conhecer os outros dois então vamos logo.
Há alguns quilômetros daqui há uma estação de metrô simples e pequena que na época de 70 talvez tenha sido bem movimentada, cheia de vendedores de pipoca e amendoim e pessoas emburradas se acotovelando para pegar o transporte que os levaria para casa depois da longa jornada de trabalho. Infelizmente nossa história acontece algumas décadas depois disso, e só há um metrô funcionando. Todos os dias as mesmas cinco ou seis pessoas sobem e vão trabalhar para depois descer e voltar para casa. E a nossa segunda personagem principal encontra-se nesse contingente de pessoas. Uma singela e delicada moça de cabelos negros e sedosos, sempre sorridente.
Nossa terceira personagem encontra-se nessa mesma estação, sentado num banco artesanal já desgastado pelo tempo e uso. Assim como os trabalhadores pegam o metrô todo dia, esse rapaz de barba cheia e olhos distantes envoltos em olheiras senta-se ali todo dia e lê. É claro que o certo seria se os dois se encontrassem de alguma forma romântica e se apaixonassem de imediato. Mas não é bem assim que as coisas correm na vida real, por mais que queiramos. A vida real é como uma goiabada: é dura de cortar, mas muito doce. Então, ou você a come inteira e fica com dor de barriga depois, ou você sacrifica seus esforços para garantir que coma apenas um pedaço de cada vez. Sim, essa analogia foi péssima, mas eu aprendo com o tempo. Percebam que eu estou fugindo da história – é só pra encher linguiça.
Talvez essa história tenha algo a ver com destino, se você acredita nele. Talvez tenha sido sorte, ou ainda mesmo mera coincidência. Isso é você que vai decidir.
Tá, chega. Vamos ver o encontro dos dois. Imagine uma estação de metrô às sete da manhã, a chuva caindo e uma única luz para iluminar o ambiente. Agora imagine aquelas cinco ou seis pessoas de sempre chegando sem trocar uma palavra sequer. Imagine o rapaz maltrapilho e encardido no banco, com um livro na mão e um pote de água no chão ao seu lado, mas não imagine a moça pegando o metrô. Imagine-a usando um singelo vestido coral coberto por um sobretudo preto e o cabelo mal penteado chegando perto do rapaz e parando por ali, apenas apreciando-o, devorando-o com os olhos da mesma forma que ele fazia com seus livros.
Ele possuía cabelos castanho-avermelhados que desciam até os ombros, sujos e mal tratados pelo tempo. O rosto abatido pelo desgaste (emocional?) continha marcas da idade ressaltando os ossos da face e afundando-lhe os olhos. Olhos negros que quase se difundiam com as pupilas. Parecia eternamente cansado, carregando um fardo invisível nos ombros. Na imaginação dela, com um bom banho e tratamento ele seria lindo.
Agora imagine o vento oriundo da chuva arrebatando os dois e tremulando a chama do lampião improvisado pendurado no banco. Imagine a chama se apagando, o rapaz levantando a cabeça do livro pela primeira vez na manhã, percebendo a presença da moça ali. Imagine a moça enrubescendo e abaixando a cabeça lentamente.
– Bom dia. – o rapaz cumprimentou. – Você não quer sentar?
A moça, meio sem jeito, afagou o vestido e sentou-se. Ainda estava envergonhada por ter sido pega no flagra, mas decidiu vencer a emoção e estabelecer uma conversa afável.
– Bom dia. Eu sempre te vejo por aqui, sabe... Hoje eu não fui trabalhar porque estou de folga, mas vim aqui mesmo assim para conversar com você... Acabei ficando com vergonha e... Desculpa. – abaixou a cabeça de novo, desviando os olhos verdes.
– Ora, vamos lá. Não tem pelo que se desculpar, eu estou acostumado. As pessoas não gostam de ver mendigos e acham que ficar olhando para mim vai me fazer desaparecer.
– Não! – havia um tom de desculpas em sua voz – Não queria que você desaparecesse... Eu tava só olhando... Você parecia tão concentrado na sua leitura que fiquei receosa de interromper. – como não houve resposta, ela adiantou – Ah, que descuido meu! Nem me apresentei... Pode me chamar de Trina.
E sorriu. Fazia tanto tempo que não sorriam para ele que havia esquecido a sensação tranquila que aquilo proporcionava. Deleitou-se naquele pequeno prazer e quis chorar. Os soluços vieram, o corpo estremecia... Aquelas eram lágrimas de tudo que havia passado. Era um misto de felicidade e tristeza... Amargura. O que ele estava fazendo? Como podia ter largado tanto a vida a ponto de esquecer-se de sorrir? E ele tinha se certificado três vezes antes de sair se não estava esquecendo a alegria em casa. Olhou em volta, apalpou os bolsos. Lá estava! A foto, sua única lembrança da vida que levava antes de tudo. Abraçou-a tão forte que pensou que nada daquilo tivesse acontecido. Deixou-se levar até que uma mão pousou no seu ombro assustando-o. Era Trina que levantava seu rosto e secava-lhe as lágrimas num gesto materno. Quis abraçá-la e agradecê-la por trazê-lo de volta à vida.
E abraçaram-se.
– Não chora... Não era minha intenção... – dizia Trina, confusa, perdida nas águas turvas do rio negro que estavam seus olhos.
– Obrigado, Trina. Muito obrigado... – e chorou nos braços daquela moça que acabava de conhecer, mas que já significava seu mundo inteiro.
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K
NouvellesTrina, uma garota simples, perdeu seu irmão há 13 anos e o procura desde então, sem esperanças de achá-lo. Quando encontra Rubens, um morador de rua, sua vida muda, e, depois, muda de novo.
