Ponto final

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Era difícil explicar em palavras o que ela sentia enquanto corria. Os primeiros dez minutos eram sempre meio chatos. Ela rapidamente ficava entediada, e logo vinha um cansaço, uma sensação de que não iria passar dos primeiros dois quilômetros. A perna ficava pesada, os pulmões diminuíam de tamanho dentro do peito, a respiração ficava curta e a mente ansiosa. Normalmente, ela achava que não ia aguentar e teria que desistir. Mas de repente, sem explicação nenhuma, uma energia invadia sua corrente sanguínea e iluminava cada parte do seu corpo, o movimento dos pés sincronizavam com o das mãos, a música no fone de ouvido parecia tocar no mesmo ritmo das batidas do seu coração, uma felicidade inexplicável tomava conta do seu ser, e já não era mais possível saber se era ela que estava correndo pra frente ou se o asfalto sob os seus pés que rolavam para trás.

- Ah, para com isso!

- É sério. Eu também sempre duvidei quando me falavam dessa sensação, mas é verdade.

- Isso que você está descrevendo parece mais gostoso do que fumar maconha.

- Mas é!

- É mais gostoso do que sexo?

- Não dá pra comparar. Do que você gosta mais, de chocolate ou de cerveja?

- Não dá pra comparar.

- É disso que eu estou falando. Sabe quando você fica horas tentando tocar o acorde perfeito no seu baixo? Você passa uma tarde inteira tentando, parece que nunca vai conseguir, e de repente, a música sai quase que inteira de uma vez?

- Puta. É foda para caralho quando isso acontece.

- Pois é. Eu não sei que sensação é essa porque eu não toco baixo. Mas já vi a felicidade que você fica. Eu imagino que é a mesma coisa. Quer dizer, claro que não é a mesma coisa. Mas eu imagino que ativa a mesma região do cérebro.

Sentaram-se à beira do lago, olhando em silêncio o reflexo do sol na água que quase não se movia. Ela sempre gostava de observar a quietude daquele lago enorme, bem no meio da maior metrópole do país, do lado de uma avenida tão movimentada e barulhenta. Naquele exato momento, meninos cheiravam cola em cima do monumento, bebês choravam no colo de suas babás a quem chamavam de mães, ladrões apontavam armas para as madames nos carros, casais terminavam relacionamentos enquanto o sinal não abria, maridos mandavam WhatsApps para suas amantes, vereadores xingavam-se uns aos outros. Todo esse caos urbano acontecia ali mesmo, em um raio de menos de cinco quilômetros quadrados, mas a água se mantinha inerte, alheia a isso tudo.

- Você sempre foi muito pessimista. Por que não consegue olhar o casal se beijando, a criança aprendendo a andar de bicicleta, o vendedor de algodão-doce que arrancou um sorriso daquela senhora, o cara ali, tranquilão, fumando um baseado de boa?

- Eu tava só tentando mostrar um ponto de vista.

- Sim, um ponto de vista extremamente negativo. Sai desse mundo cinza que você vive. Vai dar uma corridinha pra ver se você relaxa um pouco.

- Você é um puta de um babaca, sabia?

- Porra, eu tava brincando.

Ela jogou o corpo para trás e deitou a cabeça na grama. Ele deitou a cabeça na sua barriga e os dois ficaram olhando o céu e o movimento das nuvens, até que ele começou a rir:

- Sua barriga está fazendo aqueles barulhos sinistros.

Ela não respondeu. Ainda estava pensando sobre o mundo cinza que ele havia dito que ela vivia. Será que ela estava mesmo se tornando uma pessoa muito negativa?

- Amanhã a tarde estou querendo ver o filme novo do Wes Anderson. Vamos?

- Amanhã eu não posso. Tenho uma entrevista de estágio.

- Como assim?

- Estou participando de um processo seletivo para trabalhar na agência de um amigo do meu pai. Eu comentei isso com você.

- Eu não lembro.

- Você não prestou atenção.

Ele se levantou, foi até o carrinho de pipoca e começou a bater papo com o pipoqueiro. Ela se sentiu inquieta, como se de repente quisesse estar em qualquer lugar do mundo, menos ali, naquele lugar que sempre fora um dos seus favoritos, com aquela pessoa que sempre fora seu melhor amigo de todos os momentos.

Ele voltou com um saco grande de pipoca e sentou-se novamente ao lado dela, estendendo o braço para ela:

- Não quero, valeu.

- Sabe aquela menina que eu conheci na festa semana passada? Ela me adicionou no Facebook, mas ainda não aceitei. Você não acha que ela tem muita cara de ser daquelas que vai colar demais?

Ela não respondeu. Pegou um graveto no chão e começou a remover um montinho de terra que estava entre suas pernas, mas logo percebeu que era um formigueiro e levantou-se em um sobressalto, assustada com as formigas que rapidamente subiam pelo seu braço.

Ele começou a rir, mas também se levantou, e os dois começaram a caminhar em silêncio.

- Porra, se você começar o estágio, essa vai ser nossa última tarde no parque.

- Você devia ficar feliz por mim. Vai ser importante pra minha carreira, é uma das agências mais fodas do país.

- Eu fico feliz, mas o que eu vou fazer enquanto você estiver no trabalho?

- Você devia trabalhar também. Ou adicionar a menina da festa no Facebook. Quem sabe ela não vem com você no parque?

- Sabia! Você está com ciúmes.

- Claro que não.

- Vamos na exposição nova que está tendo?

Ela respirou fundo e parou de andar.

- Vou para casa. Minha mãe quer ajuda com as entregas que ela tem que fazer esse fim de semana.

- Beleza. Você está toda estranha mesmo. A gente se vê por aí então.

Ele pegou o celular e abriu o Tinder, enquanto foi andando em direção à ponte de metal.

Ela saiu andando na direção oposta. Até que parou, olhou para trás e observou durante alguns segundos o andar desengonçado do amigo. Por um breve instante, passou pela cabeça dela que aquela amizade, que já durava doze anos, havia chegado ao fim. Jogou o ombro para trás, como se quisesse espantar o mal pressentimento, e pôs-se a andar em direção à saída do parque, pensando em qual roupa usaria no dia seguinte na entrevista, sem fazer ideia de que o tal pressentimento era, realmente, o ponto final.

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⏰ Last updated: Jan 08, 2016 ⏰

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