A partir do pátio de trens, ela vira para o oeste e descreve um círculo
largo e lento pelo canto mais distante da cidade. Seduzidos pelos ruídos sobrenaturais da voz de Jeremiah, bem como o sinal luminoso oscilante, errantes saem de claustros na via expressa, de trás de trailers abandonados, saem de valas, de galerias subterrâneas, de cada canto. A turba cresce. Em seu espelho fraturado, Lilly vê o mar de mortos seguindo os delírios murmurados do louco. No alto da Whitehouse Parkway, ela pega o leste e volta por onde veio. Quando chega ao lado leste da cidade, o pregador está quase morto e
praticamente toda a horda segue o caminhão, um vasto campo de mortos ambulantes, abrangendo uma quadra e meia da cidade, e pelo menos 200 metros de extensão. Ela se admira com o tamanho da turba, visível no reflexo distorcido do retrovisor lateral. A manada é tão enorme que as massas fervilhando no ponto mais distante da traseira são apenas um borrão nebuloso na tarde nublada. Lilly passa lentamente pelos destroços da colheitadeira de Tommy
Dupree, vendo, por sobre o ombro, as duas figuras emergindo da cabine amassada e virada. O menino sai primeiro, descendo pelo para-brisa quebrado, parecendo um animal deixando a hibernação. David vem em seguida. O homem mais velho luta para sair e semicerra os olhos para o céu cinza-aço, respirando fundo o ar vital. Tommy fica boquiaberto com a multidão que se afasta, seguindo como
robôs a luz oscilante. O menino olha sem parar, de boca escancarada. David se coloca ao lado dele, limitando-se apenas a balançar a cabeça, assombrado, enquanto observa. Lilly faz uma leve curva para a Riggins Ferry Road e vai para o trecho
largo de terrenos desolados e terras devolutas junto ao vale do rio Flint. Seu destino fica a 17 quilômetros - aproximadamente duas horas e
meia nessa velocidade -, portanto, ela se ajeita no banco e solta um longo suspiro. Os pensamentos vagam, e o drama mítico que acontece nesse exato
momento bem atrás dela torna-se a coisa mais distante de sua mente. O grande e honorável reverendo Jeremiah Garlitz naquele dia, amarrado a um gancho, 4 metros acima da terra repulsiva que ele pensa ser o Sião. Em seus últimos pensamentos embaralhados, fala à megaigreja de almas perdidas, que o segue obedientemente, na poeira da Terra Santa. Pronuncia grande parte de sua homilia em latim, flutuando no ar, cercado pelos anjos. O pastor abre os braços e sorri beatificamente para a grande assembleia de fiéis que o seguem - seus soldados cristãos, seus discípulos justos -, as faces escuras, sujas e empobrecidas tomadas de uma nobre selvageria. Deus abençoe sua congregação. Isso prossegue por horas; Jeremiah recordando-se de todos os grandes
capítulos e versículos, todos os melhores sermões que deu na vida em tendas abafadas e igrejas do interior. O bruxulear da vela votiva acima dele ilumina o altar enquanto os paroquianos esfarrapados o acompanham por quilômetros e mais quilômetros, muitos descalços, sangrando, aleijados, leprosos, doentes, velhos e enfermos. Perto do fim da jornada, o homem sente um afrouxamento da alma, uma sombra caindo sobre o campo de visão, fazendo-o entrar em júbilo. Ele sente sua carruagem se acelerar, as asas se abrirem, apanhando o vento, os anjos erguendo-o pela estratosfera rumo ao paraíso. Seu último ato é entoar o testemunho alegre em uma língua antiga. Enquanto o firmamento o abraça.
Acontece quase rápido demais para Lilly notar o som. Ela abre a porta do motorista a 30 metros da beira do precipício, no lado sul de Emory Hill - o lugar de onde costumava olhar com anseio a cidade tomada de errantes -, e escora o pé de cabra entre o banco e o acelerador. O reboque se lança para a frente enquanto Lilly pula para a terra
rochosa, o trovão do vento e do motor tragando todos os outros ruídos, exceto a voz. Mesmo ao correr pela mata adjacente, apressando-se a fim de evitar o
contato com a manada, e mesmo quando o reboque cai pela beira do precipício, Lilly ainda consegue ouvir a voz fraca do reverendo. À medida que o caminhão voa pela beira e mergulha mais de 20 metros até a margem de rio coberta de pedras, ela ouve as vocalizações bizarras de alguém falando em línguas estranhas.
