CAPÍTULO UM
"I'm coming home,
tell the world I'm coming home."
(Coming home-Diddy Dirty Money)
Acordei naquele dia com uma dor de cabeça que eu nunca havia sentido antes, o despertador tocou cedo demais, suponho -ou eu ainda não me acostumei com o fuso horário-, soltei um grunhido, e enterrei a cabeça no travesseiro.
"Eu preciso levantar mesmo, mãe?"
Ninguém assentiu, foi aí que eu olhei ao meu redor: aquelas prateleiras cheias de action figures, aqueles CDs e DVDs, a decoração de Star Wars: eu não poderia estar em lugar melhor.
Levanto e vou até o espelho que fica encostado na parede do quarto, paralela à porta. Encaro a imagem refletida. Meu cabelo estava muito bagunçado: há alguns anos, resolvi entrar numa de o clarear com um shampoo específico. No começo eu confesso que não gostei muito da ideia e que não achei tanta vantagem, mas na Califórnia todos usavam e o produto estava tão barato que eu não poderia recusar. A embalagem dizia que a cor mudaria de acordo com o tom do seu cabelo. Segundo as informações expressas, o meu devia ficar mais puxado ao louro, mas para minha sorte, ele ficou mais para o ruivo. Se eu tivesse quinze anos na época, eu com toda certeza surtaria, e comemoraria de felicidades. Mas muitas coisas mudam quando você passa de uma fase para outra da vida, e a cor do cabelo não é a mais comum delas. Além do cabelo, meu rosto todo estava uma confusão, além das olheiras por ter dormido pouco, percebi também que esqueci de tirar a maquiagem da noite anterior, o que deixou meus olhos marcados e menores que o de costume. Outra coisa que eu demorei a perceber foi a minha vestimenta: eu usava uma camisa do Strokes que ia até os meus joelhos. Não consegui evitar o riso.
"Jota..."
"Ei...", gritou da cozinha. "Acordou?"
Aquilo me fez dar uma gargalhada, nunca imaginei que minha vida faria tanto sentido algum dia.
"Depende. Você já terminou as panquecas?", falo rindo.
Fevereiro de 2020
Acho que a vida é regida sempre por algo que te impulsiona ao topo, sempre temos algum princípio que nos faz querer chegar lá. Quando eu tinha 13 anos e me perguntaram se eu já sabia a universidade que eu queria fazer, me peguei pensando seriamente nas possibilidades que eu teria. Mas nenhuma na época se comparava a cursar robótica na USC. Na verdade, eu fiz o teste como uma grande brincadeira. Eu nunca pensaria na possibilidade de ganhar uma bolsa total, ou na de realmente aceitar e ir. Tudo o que eu tinha, eu guardava nas mãos com medo de perdê-las, mas quando eu tive que dar minha decisão, tive medo de abri-las, e delas cair as coisas que eu mais considero importante. Meu grupo de amizades sempre permanecera intacto, meu namoro de cinco anos poderia facilmente me prender na minha cidade, facilmente me faria jogar tudo para o ar, e gritar que aquele era o lugar que eu ficaria para sempre. Mas todos me apoiaram, todos disseram que, sim, eu iria. E eu fui. Sempre tive isso de me preocupar totalmente com quem amo, do que comigo mesma. Porém, aquele seria meu momento de ir.
O dia da ida realmente não foi fácil. Mas todos estavam lá. Ele estava lá segurando a mão.
Quando parti, não sabia se estava preparada para ver tudo o que eu amo numa escala de distância maior, mais longe do meu coração.
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Tudo o que acontece em dez anos (Marina's POV)
Teen FictionMarina acaba de retornar após cinco anos longe do Brasil, agora com 25, tenta se adaptar às tantas mudanças que aconteceram em apenas dez anos.
