Que tontura tremenda. Tinha amanhecido ainda sob os efeitos do álcool, aquilo que chamam de ressaca. O cenário em que me encontrava não era nada familiar. Estava em um lugar claro e pequeno sem muita mobilha. Parecia um apartamento. Sentia cheiro de legumes quentes e tempero...sopa. O que estava acontecendo? Onde eu estava? Levantei cambaleando da cama em que me encontrava e tentei seguir o aroma maravilhoso que vinha de outro cômodo. A cada passo que dava mais minha curiosidade se deparava com o medo de aquilo ter sido um sequestro, até avisto uma silhueta na cozinha mexendo com uma colher numa panela.
- Bom dia, porre, está melhor?
Cocei os olhos e tentei focar melhor.
- Kiera? Você?
- Quer sopa?
- O que aconteceu?
- Você apagou. Acho que bebeu mais que devia.
- Ah...
Flashes da noite passada percorriam minha cabeça confusa.
- Onde está minha câmera?
Kiera riu e puxou uma cadeira para eu sentar. Serviu a sopa em um prato e o colocou em minha frente. O vapor que exalava do recipiente era quente e me confortava assim como o aroma. Fazia-me lembrar de quando eu era criança, minha mãe cozinhava para eu e meu pai. Mas isso era algo que não queria mais recordar. A decadência que minha vida passara durante os anos seguintes aos meus dezesseis fazia com que eu quisesse esquecer a parte boa para que a depressão não me consumisse tanto.
- Alex, você precisa comer, depois alcanço sua câmera.
Fiz uma cara emburrada e engoli a sopa em dois minutos. Minha garganta queimava, mas com certeza me sentia melhor. Kiera trouxe a câmera e a segurou não me deixando pegá-la.
- O que foi?
- Prometa que não vai ter um ataque.
Encarei-a com um olhar apavorado e agarrei a câmera rapidamente. Assim que a liguei, deparei-me com fotos terríveis da festa, e o pior, eu não lembrava de nada, não seria possível nem me explicar.
- Você lembra disso?
Perguntei.
- Como eu esqueceria? Você estava estupidamente high e fazia merda atrás de merda. Sorte a sua que eu te achei e trouxe para casa, eu acho...
- Por que "acha"?
- Vai que você queria fama e eu estraguei tudo.
Por mais que aquilo tenha sido pesado, nós nos olhamos e começamos a rir. Rimos tanto que até cheguei a engasgar. Kiera deixou algumas lágrimas escorrerem de seus olhos, ela estava vermelha feito um pimentão.
- Valeu, Kiera. Mesmo.
As risadas se acalmavam e se transformavam em sorrisos.
- Capaz, Alex, agora você me deve uma.
- Ok, mas não exagere.
Meu celular toca, era Dylan.
- Porra, caralho! Que bosta foi aquela ontem? Você está bem?
- Vou ficar, eu acho, e quanto a você?
- Peguei a Judy, porra!
- Aquela dos peitos? Uau! Parabéns!
Dylan não presta mesmo...
- Brigado! Vamos comemorar essa?
- Haha, não, valeu mesmo. Já comemorei até minha morte ontem.
- Falou, você quem sabe.
Coloco o celular sobre a mesa e olho profundamente nos olhos de Kiera.
- A que ponto chegamos?
- A que ponto você chegou, você quer dizer...
Trocamos risos e sorrisos e assim decidi voltar para casa assim que recuperasse a consciência.
- Valeu por tudo mais uma vez, Kiera
Eu respondo com minha câmera nas mãos do lado de fora da porta de seu apartamento.
- Relaxa. Te ligo mais tarde pra saber como você está.
- Tchau.
Fui caminhando pelas ruas em direção ao meu apartamento que, pelo que Kiera havia me explicado, não parecia assim tão longe. Durante o "passeio" eu refletia sobre o que tinha ocorrido na festa e comparava com a desgraça da minha vida. Eu havia chegado no fundo, bem no fundo do poço, mas parece que alguém estava tentando me ajudar a sair e eu que não iria ignorar essa força. Poderia ser a única oportunidade que eu teria de eu recuperar minha felicidade.
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Anonymous
Non-FictionAlex quer desvendar os mistérios de sua vida e encontra uma forma de fazer isso conhecendo os mistérios da vida de outras pessoas.
