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A viagem até à praia foi longa.

No decorrer do caminho tivemos que parar muitas vezes para nos escondermos devido à persistência dos guardas. Por esta altura eu estava um pouco preocupado com a segurança dos meus companheiros de mar, mas mais preocupado comigo mesmo, pois um homem que fica para trás é deixado para trás e eu já tinha muita sorte por a minha tripulação me ter vindo resgatar.

Quando chegámos ao nosso destino, não se via ninguém em lado nenhum, e aí a minha preocupação aumentou.

- Não vejo os teus homens em lado nenhum. – constatou a Katrina rodando sobre si mesma, o que fez com que os seus cabelo e o vestido rodassem com ela, tornando-a ainda mais bela, e tornando-me a mim um palerma por começar a gostar dela quando não devia.

- Eu sei, mas eles devem estar por perto. - disse-lhe, aproximando-me dela e puxando-a para os meus braços. – Sabias que és linda? – perguntei, não lhe dando a oportunidade de responder e beijando-a.

O beijo não durou muito tempo, porque alguém não muito longe pigarreou, interrompendo-nos. Eu separei-me dela, colocando-me numa posição em que ficava entre o intruso e a rapariga, e preparei-me para o confronto.

Só que não houve confronto, pois quando olhei em frente, vi que eram dois dos meus homens e senti-me imediatamente mais aliviado.

Eram o meu imediato e o meu melhor homem de armas. Os dois homens faziam um grande contraste entre si. O cargo de imediato do meu navio fora entregue ao homem que me acompanhava nos mares desde o início. Christopher era um homem sério como a sua função exigia, mas era principalmente leal, uma qualidade rara entre os piratas que são conhecidos pelas suas traições. Christopher era um holandês loiro e de olhos azuis, ao contrário do escocês de cabelo ruivo escuro e olhos castanhos, dono de uma personalidade violenta e cruel, que se encontrava ao seu lado no areal.

- Capitão estou a ver que se encontra bem! – disse o Christopher sorrindo, tentando observar a Katrina.

- Melhor é impossível. – disse-lhe devolvendo o sorriso.

- Capitão, os homens aguardam o seu regresso, no navio. – disse o Dante, o meu homem de armas, apontando para o meu barco, que aparecia no horizonte, ao qual eu dei o nome de "Revenge of the Sea".

Este continuava com as suas grandes velas cinzentas e com a pintura preta, que reluzia com a luz do sol, tal como os cabelos da sereia que se mantinha escondida atrás de mim.

O barco estava tal e qual eu me lembrava e, ainda bem pois eu não queria ter que matar o desgraçado que alterasse o meu barco.

- Sim, vamos lá então antes que os guardas apareçam. – disse começando a andar em direção ao bote que nos ia por em segurança no Revenge.

Chegando ao bote os meus homens entraram, enquanto eu me voltava para me despedir da minha sereia.

- Então este é o adeus. – disse ela ficando com os olhos um pouco vermelhos.

- Tal como eu te disse. Vê o lado positivo a partir de agora já não vais ver a minha pessoa nunca mais. – Sorri-lhe tristemente.

Toquei-lhe na bochecha suave, limpando-lhe a lágrima que caiu dos seus olhos verdes.

- E o lado negativo é que nunca mais te vou poder bater. – disse ela chorando e rindo ao mesmo tempo, fazendo com que eu também começasse a rir, enquanto os meus homens trocavam um olhar confuso entre si.

- Capitão. - Chamou o Dante. – Temo que tenhamos que partir agora. Os guardas estão a aproximar-se.

- Então vai lá. Eu não quero ser a causa de tu ires parar novamente à prisão. – disse ela dando-me um beijo suave nos lábios e voltando-se para ir embora.

Quando estava a caminho do navio, começaram a ser disparados tiros na nossa direção, e o meu primeiro pensamento foi para a rapariga que não estava muito longe deles e que podia ser atingida.

Agindo por impulso, saí do bote ignorando a água fria e os gritos dos meus homens que me chamavam nomes, nada bonito, mas esse assunto ia ser discutido mais tarde. Alcancei a rapariga que parecia congelada pelo pânico e levei-a para dentro do bote, o mais rápido que pude. Conseguindo fugir das balas no processo.

Quando entramos no "Revenge of the Sea" fomos recebidos com euforia e aplausos, mas assim que a Katrina entrou no barco o festejo morreu instantaneamente e toda a minha tripulação ficou séria.

- Capitão, o que vem a ser isto? – perguntou um dos meus homens, olhando intensamente para a Katrina, que lhe devolveu o olhar.

-É claramente uma mulher. Mas eu acho que tu sabes disso. – Respondi-lhe aproximando-me da mulher em questão. – Que eu saiba, já deves ter visto uma em algum momento da tua vida miserável.

O marinheiro pareceu ficar embaraçado e baixou a cabeça em sinal de respeito, não voltando a dirigir-me a palavra.

-Ela ajudou-me a retomar para o meu barco. Deixando-me assim em dívida com ela. Logo não a podia deixar à mercê dos guardas para que fosse presa e executada por traição. Por isso ela vai connosco. – expliquei.

- Mas isso é contra o código de Bartholomew Roberts, onde ele cita que: "Crianças e mulheres não são permitidas a bordo". Logo a mulher não pode ficar. – acrescentou um novato, que não devia ter mais do que 15 anos e era responsável pela limpeza do convés.

- Então, por essa lógica, tu também não podes ficar a abordo por seres considerado uma criança. – comecei por dizer aproximando-me dele, fazendo-o encolher-se. – Mas acho que umas horas no calabouço te vão relembrar quem é o capitão e quem diz o que pode ou não ser feito.

Após o pequeno confronto o Dante agarrou no novato e levou-o para a cela de reflexão.

- Mais alguém quer desafiar a minha autoridade ou a minha honra ao código? – perguntei, olhando para toda a minha tripulação.

No convés não houve nenhuma réplica, dando-me a certeza que por agora não iriam haver mais conflitos.

- Ótimo, pois a mulher fica. E já que estão todos tão cientes do código, sabem a lei que passo a citar: "Se alguma vez te encontrares com uma mulher prudente, e um homem se intrometer com ela, sem o consentimento dela, deve sofrer morte certa." Por isso lembrem-se disso antes de tentarem algo.

- Todos aos seus postos. – gritou o Christopher fazendo com que a tripulação se dispersasse e voltasse às suas funções. - Eu vou preparar tudo para prosseguirmos viagem, capitão.

- Então parece que agora também vou ser uma pirata. – disse uma voz doce atrás de mim.

Ao voltar-me reparei que os seus olhos brilhavam com entusiasmo e, claro, com curiosidade.

- Parece que sim. – disse-lhe puxando-a para os meus braços, onde podia assegurar a sua segurança.

Mesmo que a vida no mar fosse perigosa, cansativa e muitas vezes aborrecida eu tinha a sensação que isso iria mudar daqui para a frente. E mesmo o futuro sendo incerto, eu queria aproveitar ao máximo a minha nova oportunidade de vida ao lado da minha tripulação, mas principalmente, ao lado da mulher por quem não consegui evitar apaixonar-me.


*****

Espero que tenham gostado de ler a história!

Até à próxima.

XOXO


Vida de PirataWhere stories live. Discover now