Episódio 1: As Marcas do Início
O som suave e ritmo constante do relógio na parede era o único barulho na sala espaçosa. Lorelae estava sentada diante da janela, observando os pingos de chuva descerem pelo vidro. Ela segurava uma xícara de chá já morno, os olhos perdidos nas memórias que tentou, por anos, trancar no fundo de sua mente.
Ela suspirou, virando-se para encarar o espaço vazio do quarto, e começou a falar — não para alguém em particular, mas para libertar o peso que guardava no peito.
— Se você olhar para mim hoje, talvez veja uma pessoa reservada, alguém que calcula cada gesto e mantém uma distância de segurança de todo mundo. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que meu coração não tinha nenhuma proteção, nenhuma maldade.
Lorelae fechou os olhos, e a imagem de sua infância veio à tona, nítida e dolorosa.
— Eu devia ter uns sete anos. Lembro-me perfeitamente do dia em que decidi levar meus brinquedos favoritos para o parque do bairro. Eu não queria guardá-los só para mim; na minha cabeça de criança, aquela era a oportunidade perfeita para compartilhar, para fazer amigos. Vi um grupo de meninas brincando perto do balanço e me aproximei com o meu melhor sorriso. Aproximei-me sem qualquer desconfiança, estendi a mão e ofereci a minha boneca preferida, dizendo que podíamos brincar juntas.
Ela fez uma pausa, o olhar marejado refletindo a dor daquela garotinha do passado.
— Elas nem sequer olharam para o brinquedo. Olharam diretamente para mim, com um desprezo que eu, naquela idade, não conseguia entender. Uma delas pegou a boneca da minha mão, olhou para as outras e riu, dizendo que ninguém queria brincar com alguém como eu. Depois, jogou o brinquedo na lama. Eu fiquei ali, paralisada. Não entendi o motivo. Não havia maldade na minha intenção, só o desejo simples de não me sentir sozinha. Voltei para casa em silêncio, tentando limpar a lama da boneca, mas a sensação de rejeição grudou em mim de um jeito que nunca mais saiu.
Lorelae caminhou devagar até a mesa, apoiando as mãos na madeira antes de continuar.
— E se em casa a rejeição doía no silêncio, na escola ela se transformava em um pesadelo diário. O ambiente escolar para mim nunca foi sobre aprender ou brincar; era sobre sobreviver. O bullying começou cedo. Eu era a garota estranha, a que não se encaixava em grupo nenhum.
Ela apertou os dedos contra a borda da mesa, relembrando os corredores barulhentos.
— Eles encontravam graça em tudo o que eu fazia. Se eu respondia a uma pergunta na aula, zombavam da minha voz. No intervalo, eu procurava os cantos mais isolados do pátio para tentar comer em paz, mas eles sempre me encontravam. Riam das minhas roupas, inventavam apelidos crus, empurravam meus cadernos no chão só para me ver tentar me esticar para pegar as folhas. O pior não eram as piadas ou os empurrões físicos... era o olhar coletivo de indiferença dos outros. Ninguém defendia. As pessoas preferiam rir junto para não se tornarem o próximo alvo.
Um silêncio denso tomou conta do ambiente por alguns instantes. Lorelae respirou fundo, recuperando a postura e encarando a chuva lá fora com uma determinação fria.
— Foi ali, entre o riso debochado dos meus colegas e a solidão do meu quarto, que eu aprendi a minha primeira grande lição: o mundo não é um lugar seguro para quem demonstra fraqueza. Eu entendi que, para não ser machucada de novo, eu precisava erguer muros tão altos que ninguém jamais conseguisse atravessar. A garotinha ingênua que só queria um amigo ficou para trás, coberta de lama naquele parque. E no lugar dela, eu comecei a construir quem sou hoje.
KAMU SEDANG MEMBACA
Um amor especial - lesbicas
Fiksi UmumUma história emocionante, crua e profundamente humana sobre resiliência, cicatrizes invisíveis, laços familiares contraditórios e a força implacável de uma garota determinada a desenhar o próprio destino.
