Martinelli segurava o papel como se ele queimasse em suas mãos.
Ômega Recessivo
Algo indesejado.
Mesmo que seu pai abominasse omegas, os normais e puros conseguiam casamentos vantajosos. Todas as irmãs que tivera foram casadas, casamentos preciosos que renderam uma união entre famílias vantajosas.
Mas ele... ele não teve sorte.
Seu pai já não gostava do seu cheiro antes da confirmação. Agora, então, o que aconteceria com ele?
— Então, meu filho — sua mãe se sentou na cama. — Qual o resultado?
Lágrimas solitárias molharam o rosto do pequeno ômega, quentes, mas tristes. Ele sentiu a mão da mãe em suas costas, um carinho leve, suave, mas com um peso absurdo.
— O que vai acontecer comigo, mãe? — sua visão começava a embaçar pelas lágrimas. — O que vai ser de mim agora?
Os ombros do pequeno ômega tremiam. Um som baixo escapava de sua garganta, aumentando à medida que o choro ficava mais forte e difícil de segurar.
— Seu pai vai dar um jeito.
A menção ao pai fez o choro piorar. Seu corpo todo tremia violentamente agora.
...Ele dará um jeito...
...
Não muito longe dali, um jovem passava por coisa pior.
Endrick agora estava trancado no porão de casa. Seu pai o olhava de cima a baixo com um nojo absoluto.
— Um ômega recessivo...
O pequeno mantinha a cabeça baixa, soluços baixos, quase inaudíveis e controlados.
— Meu único filho...
A mãe assistia encostada na porta. Um sorriso simples e cruel dançava em seus lábios.
— Podia ser um ômega normal, puro, até lúpus — ela se abaixou na frente do menino. — Até um alfa, o que eu sempre achei que seria.
Endrick levantou a cabeça, sendo acertado por um tapa. Um som seco e duro ecoou pelo porão. Sua bochecha provavelmente ficara marcada.
— Não olhe para mim. Mantenha sua cabeça abaixada.
A ordem percorreu todo o corpo do ômega, parecendo uma corrente elétrica.
— Talvez achemos alguma família que queira um indesejado, meu amor — a mulher tocou de leve os ombros do marido. — Mesmo que seja para esquentar a cama de algum alfa.
O tom doce escondia a frieza e a crueldade da mulher.
— Talvez, querida.
As lágrimas presas escaparam aos poucos dos olhos do pequeno ômega.
...Talvez...
