O jogo mais pessoal de todos

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O ar dentro do laboratório de Cortéx não fluía; ele estagnava. Tinha o cheiro acre de produto químico queimado, de ferro enferrujado e da umidade pesada que subia das paredes de pedra cinzenta e gélida. Era um cheiro de confinamento, de carne costurada e de experimentos que não deveriam ter dado certo.

No fundo do corredor escuro, alinhadas como prateleiras de cobaias esquecidas, ficavam as jaulas de ferro reforçado. Em uma delas, gravado na placa de metal desgastada junto à trava, lia-se um único nome: Verity.

Dentro da gaiola, o axolote permanecia imóvel no fundo do tanque de vidro turvo. As brânquias externas, que flutuavam em volta da sua cabeça como galhos rubros e delicados, agitavam-se devagar, reagindo às vibrações do ambiente. Ele sentia tudo. Pela pele translúcida e hiper-sensível, Verity absorvia o frio do metal, o estalo do teto de pedra cedendo e a mudança brusca na pressão do ar.

O silêncio que seguiu ao estrondo distante era diferente. Não era o silêncio do mestre trabalhando; era o silêncio de um trono que acabara de vagar.
Com um movimento rápido e fluido, o axolote emergiu da água. Suas garras pequenas pressionaram as grades de ferro. A trava da jaula, já desgastada pela ferrugem e pelas químicas que Cortéx usava na sala, cedeu sob o peso e a agilidade da criatura. A porta se abriu com um guincho agudo.

Verity saltou para o chão frio de pedra. Suas patas úmidas deixavam marcas pequenas enquanto ele caminhava pelo laboratório silencioso, ignorando os frascos quebrados no chão e a mesa de operação vazia. Ele não procurava comida nem liberdade. Ele procurava por Cortéx.

Ele seguiu até a grande janela em arco do laboratório, cujas vidraças quebradas deixavam entrar o vento gélido da realidade cinzenta.
Apoiando as patinhas no parapeito de pedra, o axolote olhou para baixo.
Lá no fundo, na base da torre, a fumaça das explosões aos poucos se dissipava. Verity viu o rastro do desastre. Ele viu o momento em que a figura do mestre desaparecera, arremessada do alto da torre pelo Rato Sombra - a verdadeira causa da queda.

Mas a mente de Verity não processou a lógica do combate.
Seus olhos redondos e fundos fixaram-se na figura que emergia vitoriosa do meio da poeira: a carcaju Bera, empunhando sua força e pisando firme sobre os escombros do império que o mestre construíra.
Para a lógica doentia do axolote, o Rato Sombra era apenas uma ferramenta de caos, uma sombra passageira. Mas Bera... A carcaju estava ali. Bera era a força que desmantelara o laboratório, a invasora que atraíra a ruína até o topo da torre, a intrusa que tirara Cortéx do seu pedestal.

As brânquias de Verity se contraíram violentamente, ficando de um vermelho vivo e pulsante sob a pele pálida. Um chiado baixo e úmido saiu de sua garganta.

Ele não viu uma batalha justa. Ele viu uma profanação. E enquanto o vento frio cortava a janela do laboratório abandonado, a fixação de Verity se cristalizou em um único objetivo: fazer Bera pagar por ter destruído o único mundo que ele conhecia...

Verity deu as costas às vidraças quebradas da janela. Passou pela soleira de ferro e cruzou a pesada porta reforçada do recinto. Com um rangido metálico seco e o estalo de uma tranca enferrujada se acomodando, a estrutura de metal bateu atrás dele. Gravada na placa de ferro queimado da entrada, sob o símbolo desgastado do laboratório, reluzia a verdadeira identidade daquele lugar: Projeto Nêmesis.

O axolote avançou pelos corredores escuros da torre. À frente, uma fenda luminosa e instável cortava a rocha fria, pulsando em tons arroxados e emitindo um chiado grave de energia dimensional.

Era a abertura entre os mundos — a passagem esquecida que conectava aquela realidade cinzenta ao universo de Bera e Leonina.
Passos rápidos e afobados ecoaram na pedra às suas costas. Um furão correu em sua direção, desesperado, parando a poucos metros da fenda com o peito arfando de cansaço.

— Espere! Não vá por aí! — avisou o furão, com os olhos arregalados de aflição. — Você está livre! Aquele cientista era louco... fuja dele! Esqueça tudo isso, a torre caiu!

Verity nem sequer piscou. Ele virou o focinho devagar na direção do furão. Suas brânquias externas de axolote se agitaram suavemente no ar frio, brilhando em um tom rubro e doentio. A pele translúcida e os olhos redondos e fundos da criatura não refletiam medo, dor ou alívio pela liberdade. Refletiam apenas uma fixação cega.

Para Verity, as palavras do furão não passavam de ruído sem importância. Ele não queria salvação; queria retribuição.
Enquanto encarava a fenda aberta, uma voz ecoava dentro de sua cabeça — um sussurro baixo, frio e ritmado, que parecia a própria ressonância dos experimentos de Cortéx gravados na sua carne. Era essa voz que o guiava, que organizava sua insanidade e desenhava o caminho a seguir.

Sem dizer uma única palavra ao furão, Verity deu um passo à frente e deixou seu corpo ser tragado pela luz da fenda dimensional. Ele atravessaria os mundos para reerguer o mestre e cobrar cada dívida.

A loucura no olhar de Verity se intensificou enquanto ele proferia cada palavra, as brânquias externas tremendo em uma dança frenética no ar. Para ele, a batalha nunca tinha sido sobre justiça ou equilíbrio, mas sobre uma equação distorcida de dor, vingança e escala.


— O universo vive de escala... — sussurrou Verity, com a voz saindo úmida e sibilante, ecoando com uma reverberação doentia. — E essa carcaju tem uma mordida muito forte, capaz de rasgar mundos. Ela feriu meu mestre, que era incapaz de se defender...
O axolote abriu os braços devagar, revelando a pele translúcida por onde pulsação e magia química se misturavam sob a carne. Um riso baixo e gutural começou a sair de sua garganta, crescendo à medida que a voz em sua cabeça se tornava um grito de guerra.

— Vamos ver como ela se sai contra um axolote que tem a regeneração dos deuses!
Com um movimento fluido e aterrador, Verity se projetou totalmente para dentro da fenda dimensional. A luz arroxada engoliu sua silhueta, distorcendo o espaço ao seu redor enquanto a fenda se fechava com um estalo ensurdecedor, deixando para trás apenas o cheiro de ozônio e o rastro do Projeto Nêmesis a caminho do seu novo alvo.














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VerityHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora