Aposto que vocês já viram a série Dexter. Bom, eu sou quase ele, só que sem um pai me ensinando a matar. Sabe como é: foi comprar cigarro.
É nisso que penso enquanto avalio minha próxima vítima: um idiota que acha normal abandonar uma menininha e ainda bater na mãe dela. Como sei disso? Fica bem mais fácil quando se tem acesso a tudo o que a polícia sabe. Um dos benefícios de trabalhar no departamento.
Ah, nossa, mas eu mataria só por isso? Claro que não. Aquele babaca é o bandido mais insuportável de pegar da cidade. Ele controla o maior esquema de tráfico humano da região, e os meus "queridos" colegas de trabalho não conseguem prender o infeliz nem por uma semana. Saco.
Vejo um movimento no fundo do beco. Abaixo mais o boné e deixo passar quem quer que seja. Volto minha atenção para a vítima.
- O quê? Onde ele foi? - Percorro a rua escura com os olhos. É o que dá conversar comigo mesma dentro da cabeça. Bufo.
Caminho com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Sinto um arrepio na nuca, um mau pressentimento. Hoje não é dia de tentar nada. Como minha mãe sempre dizia: a calma leva à perfeição. E você deve ser perfeita, Alice. Sempre. Nenhum erro. Ou, claro, eu era castigada.
Esquece. Outro dia eu acho um lugar mais tranquilo, enfio a agulha naquele merdinha e acabo com ele. O ritual sinistro de cada passo: primeiro o susto, depois o medo e, por fim, o vazio. Que pena. Hoje não vou ganhar minha lembrancinha nem minha fogueira.
Pego o caminho de casa e meu celular começa a tocar. Jesus, são 23h30. Quem liga a essa hora? Quem ainda liga, inferno!
Olho a tela. Meu irmão.
- Que é? - atendo.
- Céus, você sempre atende assim. - A voz dele soa cansada. Ultimamente minha sobrinha tem mantido o sono bem longe dele. Problema dele, quem mandou ter filho.
Rio do meu próprio comentário mental.
- Diz logo o que você quer. Estou... - tento enfiar a chave na fechadura - meio ocupada agora.
- Liguei por dois motivos. Primeiro, você vai ao almoço da Malu, e isso não está em discussão. Segundo, você não vai inventar desculpa de trabalho.
Puta que pariu. Eu achava que tinha conseguido driblar esse almoço de família, amigos e sei lá quem mais eles convidaram. Abro a porta de casa e jogo os sapatos longe.
- Caio, eu... sabe... trabalhar na perícia não tem horário fixo. - Acha um motivo, acha um motivo. Se eu quero matar aquele desgraçado amanhã, vou precisar da noite livre.
- Alice. - O tom do meu irmão fica mais sério. Eu odeio ser a mais nova. - Preciso da minha irmã amanhã. Prometo não falar sobre ela.
É. Ela. Nossa mãe.
Esfrego a sobrancelha com o dedo, irritada. Estou irritada. Onde estão meus remédios mesmo?
- Ok. Não me liga mais. Apareço às 14h. - Desligo.
Não preciso ouvir mais nada. Nossa relação pode passar de normal a péssima muito depressa, principalmente quando você precisa interpretar um personagem na frente do próprio irmão.
Olho ao redor. Prefiro a minha companhia e o escuro de casa. Me aproximar dele só o faria se decepcionar ou, pior, descobrir que a irmã mata pessoas.
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Musa da morte
RomanceAlice tem 25 anos, é perita criminal e carrega um segredo: de noite, ela caça os homens que a polícia não consegue prender. Fria, calculista e obcecada por não errar, aprendeu cedo que ser perfeita era a única forma de sobreviver, e que sentir é um...
