ARCO I (Capítulo 1) - A Menina Que o Mar Devolveu

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MARÉS DE SANGUE

Diziam que o mar nunca devolvia aquilo que tomava. Em Greyhaven, essa era uma daquelas frases que os moradores repetiam havia tantas gerações que ninguém mais sabia dizer quem a inventara ou se algum dia alguém realmente acreditara nela. O mar fazia parte da vida daquela pequena cidade costeira no sul da Inglaterra como as pedras faziam parte dos muros e o sal fazia parte do ar. Estava presente nas redes penduradas para secar atrás das casas, nos barcos que partiam antes do amanhecer, nas gaivotas que roubavam peixes do mercado e até no cheiro que permanecia nas roupas depois de um dia inteiro no porto. Greyhaven não era uma cidade rica, mas era bonita à sua maneira. As casas de pedra escura se espalhavam pelas ruas estreitas que subiam em direção às colinas, algumas cobertas por hera, outras com pequenas janelas enfeitadas por vasos de flores. Mais ao norte, no ponto mais alto da região, erguia-se o castelo de Blackthorn, pertencente à família que governava aquelas terras havia décadas. Seus muros de pedra cinzenta podiam ser vistos de praticamente qualquer lugar da cidade, especialmente quando o céu estava limpo e o sol se punha atrás das montanhas. Para os moradores, o castelo representava segurança, tradição e poder. Para Nerys, desde criança, ele sempre parecera apenas mais uma coisa que fazia parte da paisagem. Ela crescera olhando para aquelas torres sem sentir qualquer fascínio especial por elas, embora tivesse aprendido cedo que deveria respeitar a família real e as regras daquele lugar. O que realmente chamava sua atenção era outra coisa. O mar. Sempre o mar.

Dose anos antes, numa noite em que uma tempestade havia transformado o litoral de Greyhaven em um lugar onde nenhum homem sensato ousaria colocar os pés, Elias encontrara uma criança na praia. Naquela época, ele ainda não tinha cabelos grisalhos nas têmporas nem as pequenas marcas de expressão que Helena dizia serem culpa dos anos em que ele insistira em trabalhar mais do que deveria. Era apenas um homem acostumado ao mar, acostumado ao cheiro de madeira molhada e ao peso das redes de pesca nos ombros, mas naquela noite nem mesmo ele se sentia corajoso. A chuva caía tão forte que mal conseguia enxergar alguns metros à frente, e as ondas quebravam contra os rochedos com uma violência capaz de partir embarcações inteiras. Mesmo assim, Elias saíra de casa depois de ouvir o barulho de algo se chocando contra a costa. Helena tentara impedi-lo, mas conhecia o marido o suficiente para saber que discutir naquele momento seria inútil. Acabara seguindo-o com uma capa grossa sobre os ombros e uma lanterna protegida pelas mãos, reclamando o caminho inteiro sobre a ideia absurda de enfrentar uma tempestade daquela proporção. Eles encontraram restos de um navio espalhados pela areia, pedaços de madeira, cordas, caixas quebradas e objetos que o mar havia arrancado de algum lugar distante. Elias estava prestes a voltar quando ouviu um som diferente entre o rugido das ondas. Era um choro. Fraco, quase perdido no meio da tempestade. Ele chamou por alguém, mas não recebeu resposta. Então avançou mais alguns passos e encontrou a menina. Ela estava encolhida entre os destroços, coberta por um tecido encharcado, os cabelos vermelhos colados ao rosto e uma pequena ferida acima da sobrancelha. Parecia ter aproximadamente sete anos. Helena se ajoelhou imediatamente, esquecendo completamente o frio, a chuva e todas as reclamações que havia feito segundos antes. A menina estava inconsciente, mas respirava. Quando Elias a pegou nos braços, ela abriu os olhos por um instante. Eram olhos incomuns, de um tom entre mel e âmbar, assustados e confusos. Seus lábios se moveram, e a única palavra que conseguiram formar antes que ela desmaiasse novamente foi:

- mãe.

Nos dias que se seguiram, Greyhaven inteira ouviu falar da criança encontrada na praia. As autoridades procuraram sobreviventes do naufrágio, comerciantes foram questionados, capitães que passavam pelo porto foram interrogados e mensagens foram enviadas para outras cidades costeiras. Ninguém apareceu para reclamar a menina. Ninguém conhecia uma família que tivesse perdido uma criança naquela tempestade. Ninguém sabia sequer de onde o navio tinha vindo. O que havia restado dele era tão pouco que os homens encarregados de investigar não conseguiram determinar sua origem com certeza. A menina também não ajudava. Ela não se lembrava do próprio sobrenome, não sabia dizer de onde vinha e, quando tentavam perguntar sobre seus pais, parecia mergulhar em uma espécie de silêncio profundo, como se alguma parte de sua memória estivesse escondida atrás de uma porta que ela não conseguia abrir. A única coisa que possuía além das roupas destruídas pelo naufrágio era um pequeno pingente de prata preso ao pescoço por uma corrente fina. Havia uma concha delicadamente trabalhada no centro e, gravado nela, um nome: Nerys. Foi assim que passaram a chamá-la. Durante semanas, Elias e Helena esperaram que alguém aparecesse. Esperaram tanto que o quarto improvisado para a menina deixou de parecer temporário. Helena começou a comprar vestidos para ela. Elias construiu uma pequena prateleira para guardar os poucos objetos que Nerys tinha. Aos poucos, a espera virou rotina, e a rotina virou pertencimento. Até que, certa noite, Helena sentou-se ao lado do marido na cozinha enquanto a menina dormia no quarto ao lado e segurou a mão dele.

Marés de sangue (kim taehyung)Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora