Apolinário Silveira nasceu numa terça-feira de chuva, na cidade de Extrema, Minas Gerais. Filho de um contador e de uma professora de matemática, cresceu num ambiente onde tudo podia ser medido, pesado e, sobretudo, previsto.
Aos sete anos, já calculava mentalmente o troco do supermercado antes que a caixa registradora o fizesse. Aos doze, montou uma planilha para otimizar a distribuição de doces entre os colegas de classe, cobrando uma taxa de administração em balas de hortelã. Aos dezessete, entrou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica com a maior nota da história da escola.
Formou-se engenheiro. Especializou-se em logística. Depois, em vendas técnicas. E foi nesse último campo que descobriu seu verdadeiro dom: Apolinário Silveira não vendia produtos, vendia certezas. Ele não oferecia equipamentos, oferecia a tranquilidade de uma decisão matematicamente correta. Seus clientes não compravam compressores, trocadores de calor ou válvulas industriais; compravam a sensação de que haviam feito a escolha ótima, a escolha que nenhum consultor poderia contestar. E, por essa sensação, pagavam qualquer preço.
Aos quarenta e dois anos, era vice-presidente de vendas da maior fabricante de sistemas de refrigeração da América Latina. Ganhava mais do que o presidente da empresa. Tinha um apartamento na Vieira Souto, no Rio, um carro alemão que trocava a cada dois anos e uma conta bancária que fazia seu contador suspirar. Era respeitado, temido e, em certos círculos, odiado. Mas Apolinário não se importava com o ódio. Ódio, dizia ele, era apenas admiração mal disfarçada.
Casou-se aos trinta e oito, com Odolina Marques, portuguesa e historiadora da arte que dava aulas na UERJ e escrevia colunas esporádicas para uma revista de cultura. Conheceram-se num voo de São Paulo para Lisboa. Ele ia fechar um contrato; ela, visitar uma exposição sobre Paulo Vanzolini. Sentaram-se lado a lado. Ele passou as primeiras duas horas analisando relatórios no laptop. Ela passou as mesmas duas horas lendo um livro sobre a representação do corpo na pintura barroca. Em algum momento, o avião enfrentou uma turbulência. Ela fechou o livro. Ele fechou o laptop. Olharam-se.
— Você não parece assustado — disse ela.
— Estatisticamente, a probabilidade de um acidente aéreo fatal é de uma em onze milhões. Não faz sentido sentir medo.
— E se você fosse aquela uma em onze milhões?
— Aí eu estaria morto e não poderia me arrepender de não ter sentido medo.
Odolina riu. Foi um riso curto, mas sincero. E algo naquele riso desarmou Apolinário de uma forma que nenhuma planilha jamais conseguira.
Casaram-se seis meses depois. Foi um casamento pequeno, discreto, com poucos amigos e nenhum parente. Apolinário não tinha amigos; tinha contatos. Odolina não tinha contatos; tinha amigos. De certa forma, equilibravam-se. Ele trazia a lógica; ela, o sentido. Ele trazia a eficiência; ela, a beleza. Ele trazia a resposta; ela, a pergunta.
Apolinário detestava perguntas.
Foi Odolina quem insistiu que ele aceitasse o convite para a palestra em Atenas. Um simpósio sobre "Eficiência Energética na Indústria 4.0", organizado por uma universidade grega em parceria com uma fundação cultural. Apolinário achou o escopo estranho — o que a cultura tinha a ver com refrigeração industrial? —, mas Odolina viu uma oportunidade.
— Você nunca foi à Grécia — disse ela. — Eu sempre quis conhecer. Vamos. Eu faço companhia.
Ele aceitou. Não pela palestra, mas pela esposa. Apolinário Silveira podia desprezar a arte, mas não conseguia desprezar Odolina. Era uma contradição que ele preferia não examinar.
A palestra foi um sucesso. Apolinário falou por quarenta minutos sobre otimização de ciclos de refrigeração, respondeu a perguntas por mais vinte e, ao final, recebeu um convite inesperado.
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O vendedor de arte
General FictionApolinário Silveira é um dos maiores vendedores do Brasil. Formado em ciências exatas, ele acredita apenas no que pode ser medido, calculado e provado. Para ele, arte é ruído, farsa, conversa de humanas. Quem compra arte é burro. Quem finge entender...
