CAPÍTULO 1: ONDE O SOL NÃO ALCANÇA
A chuva rosa começou às 4h da manhã.
Eu sei porque eu não dormi. De novo. O barulho da água ácida batendo no teto de zinco do Galpão 47 parece prego caindo. Se dormir, a goteira me acerta. Se acordar, a goteira também me acerta. Então eu fico acordada vigiando.
— Vai cair de novo — o Cael fala do outro lado da cortina de plástico.
Eu nem sabia que ele tava acordado.
— Não vai.
— Vai. Canto noroeste. Você não apertou direito ontem.
Eu aperto o travesseiro. Faz dois meses que esse Fiscal desertor mora aqui e ele fala comigo como se eu fosse uma recruta dele.
— Eu apertei sim. Você que fica me olhando consertar e não ajuda.
Silêncio. Eu ouço ele levantar. A sombra dele passa pela cortina. Um metro e oitenta de homem que não sabe ocupar pouco espaço.
Ele aparece na minha frente de camiseta preta e cabelo ainda amassado de sono, segurando a chave inglesa que EU deixei em cima da minha caixa de ferramentas.
— Você segura errado. — ele diz. — Por isso afrouxa.
Ele se abaixa na minha cama sem pedir licença e pega meu pulso. Não com força. Com precisão. Como quem conserta fio desencapado.
— Assim. O punho trava. Gira.
A mão dele é quente. A minha tá gelada porque o Galpão 47 nunca esquenta. Eu puxo o braço de volta rápido demais.
— Aprendi. Pode sair da minha cama.
Ele não discute. Levanta e volta pro lado dele. Mas deixa a chave inglesa certa. Do jeito que ele falou.
Eu odeio que ele tem razão.
Lá fora o resto do galpão acorda. São 12 no total. O velho Rook tossindo, as gêmeas brigando por água limpa, o cheiro de óleo queimado que a gente usa pra esquentar comida. No meio disso tudo, a Lira aparece com dois copos fumegantes.
— Bom dia, meus amores que não dormem.
Ela me entrega um e entrega outro pro Cael. Quando ela entrega pra ele, ela encosta a mão. De propósito. Fica um segundo a mais.
— Você ficou acordado de novo por causa da chuva? — ela pergunta pra ele, doce.
— Uhum — ele responde, mas não olha nos olhos dela. Olha pro copo. — Obrigado.
Lira senta na beira da minha cama. Ela é bonita de um jeito que faz as pessoas quererem ficar perto. Eu sou bonita de um jeito que faz as pessoas desviarem o olhar pra não queimar.
— Ele te ensinou de novo a segurar a chave? — ela cochicha pra mim, rindo.
— Ele é insuportável.
— Ele é atencioso — ela corrige. E eu vejo o jeito que ela fala. Ela gosta dele. Gosta mesmo. Desde que ele chegou sangrando e ela fez o curativo.
E eu sinto um negócio esquisito no estômago que não é fome.
— Kayra, vem cá. Preciso te mostrar uma coisa — o Rook grita da escada que leva pro telhado. — A goteira nova.
Eu subo. Cael sobe atrás. Claro que sobe. Ele sobe em todo lugar que eu subo como se fosse fiscalizar meu trabalho.
No telhado, o mundo acaba.
MEGA CITY é uma pilha de níveis. Do nível 1 ao 100. A gente tá no 47, o nível que o sistema esqueceu. Pra cima, luz neon, prédios que nunca dormem. Pra baixo, escuridão e esgoto. E em volta de tudo, a cúpula. Aquela merda cinza que filtra o ar e esconde o céu há cem anos. Ninguém nunca viu sol. Só em desenho velho.
Eu desenho sol todo dia na parede do galpão. Círculo amarelo com raio torto. As crianças riem.
— Olha ali — eu aponto.
Na cúpula, entre duas vigas, tem um risco. Não é rachadura ainda. É mais fino que fio de cabelo. Mas por ele entra uma luz.
Não é neon. Não é rosa. É branca. Quente. Dói no olho de tão diferente.
— Impossível — Cael sussurra do meu lado. Ele tá tão perto que o ombro dele encosta no meu. — A cúpula tem 3 metros de liga.
— Tá rachando — eu falo. Minha voz falha.
Ele não fala "é delírio". Ele não fala "você tá inventando". Ele fica em silêncio olhando aquela linha fina de luz como se fosse uma coisa sagrada.
Pela primeira vez em dois meses, a gente olha pra mesma direção sem discutir.
Lá embaixo, a Lira grita:
— O que vocês tão vendo aí?!
Eu cubro a rachadura com a mão rápido. Não sei por quê. Só sei que se a EDEN descobre que a cúpula tá rachando, eles vão mandar os Corvos. E vão apagar o Galpão 47 de verdade.
Cael entende na hora. Ele tira o casaco dele e joga por cima da viga, escondendo a luz.
Nossos olhares se cruzam. Pela primeira vez sem raiva. Com medo. O mesmo medo.
— Depois a gente conversa — ele fala baixo. Só pra mim ouvir.
— A gente nunca conversa — eu respondo.
— Então vamos ter que começar.
E ele desce a escada primeiro, me deixando ali sozinha com aquele fio de sol queimando na minha palma.
Eu nunca acreditei em destino. Mas se o sol existe de verdade, eu vou abrir esse céu. Mesmo que eu tenha que ficar trancada num galpão com ele pra fazer isso.
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O Galpão 47
Ficção CientíficaGalpão 47. 12 pessoas. Em um mundo onde os rejeitados são obrigados a morar em galpões. Você não pode sair da linha ou quebrar regras. Será que Kayra e Cael conseguirão terminar essa história juntos?
