capítulo 1

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A Luz Dourada do Império do Oriente _

​O som compassado da pena de ganso deslizando sobre o pergaminho de linho espesso era o único ruído que rompia a quietude solene do Gabinete Imperial do Palácio de Safira. A luz matutina de outono trespassava os vitrais altos em arcos góticos, projetando arabescos em tons de azul e dourado sobre a imensa mesa de mogno maciço. Sobre a superfície polida, organizavam-se com precisão milimétrica pilhas de relatórios fiscais, mapas de redistribuição de grãos das províncias do sul, decretos de infraestrutura urbana e correspondências diplomáticas do continente ocidental.

​No centro daquele domínio administrativo sentava-se Navier Ellie Trovi, a Imperatriz do Império do Oriente.

​Sua postura era impecável. A espinha mantinha-se perfeitamente reta, sem encostar no encosto entalhado do trono de veludo. Os cabelos pretos, estavam recolhidos em um coque alto e elaborado, preso por ganchos de platina e pérolas discretas. Nascida na influente e prestigiada Casa Trovi, Navier fora educada desde os primeiros anos de infância para uma única função: ser a governante perfeita. Ela conhecia a história de todas as dinastias do continente, dominava quatro línguas antigas, entendia de economia, táticas militares e da complexa etiqueta da alta nobreza.

​Para Navier, o título de Imperatriz nunca fora uma coroa de vaidades ou um mero ornamento de poder. Era um voto sagrado. Um compromisso inegociável de vida com a estabilidade do império e o bem-estar de seus súditos.

​- Vossa Majestade - a voz suave da Baronesa Eliza, sua principal dama de companhia e confidencial mais antiga, ecoou suavemente junto à porta lateral. - Permita-me interromper por um breve instante. A senhora trabalha desde o alvorecer sem consumir uma única gota de água ou chá. O conselho dos nobres se reunirá em duas horas, e o Imperador deve retornar da caçada imperial ao meio-dia.

​Baronesa Eliza aproximou-se carregando uma bandeja de prata polida, sobre a qual repousava um bule de porcelana fumegante e uma xícara delicada.

​Navier ergueu os olhos azuis claros, frios como lagos cristalinos de montanha, mas dotados de uma serenidade profunda. Ela pousou a pena no tintero e descansou as mãos sobre o colo.

​- Obrigado, Eliza - disse Navier, com sua voz melodiosa e pausada, impecavelmente modulada. - Eu estava finalizando a auditoria das contas de abastecimento da província de Rimwell. Houve uma divergência de três por cento na arrecadação de grãos no último trimestre. Se não corrigirmos a taxa antes do rigor do inverno, os camponeses daquela região enfrentarão escassez.

​- A senhora carrega nos ombros preocupações que caberiam a dez ministros, Majestade - comentou a baronesa, servindo o chá de jasmim refinado. - O povo sabe do seu zelo. Não há uma única província que não venera seu nome.

​- O afeto do povo não nasce de palavras bonitas, Eliza, mas de celeiros cheios e leis justas - respondeu a Imperatriz, levando a xícara aos lábios. - O Imperador Demitri e eu fomos preparados para guiar esta nação como uma engrenagem única. Ele lida com a diplomacia externa e as forças armadas; eu mantenho o coração do Estado funcionando. É assim que deve ser.

​O casamento entre Navier e Demitri fora arranjado pela família real quando ambos ainda eram crianças. Cresceram juntos nos corredores do palácio, estudando com os mesmos preceptores, compartilhando lições de esgrima, história e política. Não havia entre eles a paixão avassaladora descrita nos romances poéticos dos bardos da corte, mas sim algo que Navier julgava infinitamente mais sólido e duradouro: respeito mútuo, companheirismo e uma parceria inabalável construída sobre o dever compartilhado.

​Navier estava perfeitamente satisfeita com aquela vida. Ela pretendia governar com sabedoria ao lado de Demitri, velar pela prosperidade do Império do Oriente até a velhice e deixar um reino próspero para os seus sucessores.

The Remarried EmpressHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora