Meu nome é Noah.
Antes de contar como conheci Alexander Beaumont e Victoria Laurent, preciso contar quem eu era antes deles aparecerem na minha vida.
Ou, talvez, quem eu precisei aprender a ser.
Minha infância nunca foi bonita.
Eu nasci de uma mulher Ômega que trabalhava como acompanhante de luxo. Não sei muito sobre ela. Na verdade, quase tudo que sei veio de poucas histórias contadas por outras pessoas e de lembranças tão pequenas que, às vezes, nem sei se são realmente minhas.
Eu tinha apenas quatro anos quando fui levado para a casa de uma senhora de sessenta anos.
Disseram que ela cuidaria de mim.
Eu acreditei.
Era pequeno demais para entender que cuidar e criar alguém são coisas muito diferentes.
Naquela casa, eu tinha um quarto pequeno, uma cama simples e algumas roupas. Mas, desde cedo, aprendi que nada vinha de graça.
Eu precisava estudar.
E, depois da escola, precisava trabalhar.
Lavar louça. Varrer a casa. Limpar os cômodos. Organizar as coisas. Fazer comida quando aprendi. Cuidar de tudo o que estivesse ao meu alcance.
Eu era uma criança, mas raramente me sentia como uma.
Enquanto outras crianças brincavam depois da escola, eu fazia tarefas.
Enquanto algumas reclamavam porque não queriam arrumar o próprio quarto, eu aprendia a limpar uma casa inteira.
Não vou dizer que aquela senhora era a pior pessoa do mundo. Seria fácil demais transformar minha infância em uma história de vilões e mocinhos.
Ela simplesmente nunca me enxergou como uma criança que precisava de carinho.
Para ela, eu era alguém que deveria ser grato por ter um teto.
E talvez eu tenha aprendido a ser grato até demais.
Com o passar dos anos, fui ficando cada vez mais quieto.
Aprendi a observar antes de falar.
A pensar antes de pedir.
A perceber o humor das pessoas pelos passos, pelo jeito de fechar uma porta ou pela maneira como colocavam um copo sobre a mesa.
Também aprendi algumas coisas sobre mim.
Eu era sensível.
Muito mais do que gostaria de admitir.
Palavras duras ficavam na minha cabeça por dias.
Eu gostava de abraços, embora quase nunca pedisse um.
Gostava de música, livros e de imaginar como seria viver em uma casa onde ninguém precisasse merecer o direito de ser amado.
Eu também era teimoso.
Quando acreditava em alguma coisa, dificilmente desistia.
Talvez essa tenha sido uma das poucas coisas que me manteve de pé.
Eu estudava porque queria ter uma escolha no futuro.
Trabalhava porque precisava.
E obedecia porque tinha medo das consequências de não obedecer.
Mas, conforme cresci, comecei a fazer minhas próprias escolhas.
Pequenas no começo.
Escolher uma matéria para estudar mais.
Guardar um pouco do dinheiro que recebia.
Decidir quando ficar em silêncio e quando responder.
Aprendi a não confiar facilmente nas pessoas.
Aprendi a não aceitar qualquer gentileza como prova de carinho.
E, principalmente, aprendi a não esperar que alguém viesse me salvar.
Aos poucos, construí uma personalidade que nem sempre combinava com aquilo que eu sentia.
Por fora, eu parecia tranquilo.
Educado.
Responsável.
Até um pouco frio quando precisava.
Por dentro, eu ainda era aquele garoto de quatro anos que queria acreditar que alguém poderia olhar para ele e dizer:
"Você pode ficar."
Eu cresci assim.
Entre livros, tarefas domésticas, poucas amizades e uma vontade enorme de construir uma vida que fosse realmente minha.
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Até aquela noite.
O evento acontecia em um dos hotéis mais luxuosos da cidade.
Eu trabalhava ali naquela noite como parte da equipe de atendimento.
Era um daqueles eventos em que tudo parecia perfeito.
Luzes douradas, música baixa, mesas impecavelmente organizadas e pessoas vestidas com roupas que provavelmente custavam mais do que tudo que eu já havia possuído.
Eu estava acostumado a esse tipo de ambiente.
Aprendi cedo que existem lugares onde algumas pessoas entram pela porta da frente sem precisar provar nada.
E existem pessoas como eu.
Que entram pela porta dos funcionários.
Naquela noite, eu estava carregando uma bandeja quando ouvi alguém perguntar:
- "Você pode nos indicar onde fica o salão principal?"
Levantei os olhos.
E foi quando os vi.
Alexander Beaumont.
Um Alfa Dominante.
Eu já tinha ouvido aquele sobrenome antes. Praticamente todo mundo tinha.
Ao lado dele estava Victoria Laurent.
Uma Ômega Dominante.
Os dois pertenciam a um mundo completamente diferente do meu.
Roupas impecáveis.
Postura confiante.
Olhares acostumados a serem obedecidos.
Eu deveria apenas ter respondido à pergunta e seguido meu caminho.
Mas Alexander me observou por alguns segundos.
E Victoria também.
Não como as pessoas costumavam olhar para funcionários.
Não foi um olhar de superioridade.
Foi curiosidade.
Como se eles realmente estivessem tentando entender quem eu era.
- "O salão principal fica no fim do corredor, à esquerda" - respondi, mantendo a educação.
- "Obrigada" - Victoria disse.
Eu apenas assenti.
E fui embora.
Não sabia ainda, mas aquele pequeno encontro seria o começo de algo que mudaria completamente a minha vida.
Porque, pela primeira vez, duas pessoas que tinham tudo olharam para mim como se eu também fosse alguém que pudesse ter alguma coisa.
Uma escolha.
Uma família.
Um lar.
E eu ainda não sabia se estava pronto para ser escolhido.
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ENTRE CLASSES E ESPÉCIES
RomanceENTRE CLASSES E ESPÉCIES Em um mundo dividido entre Alfas, Ômegas e Betas, classe e espécie determinam o lugar de cada pessoa na sociedade. Alexander Beaumont, um Alfa Dominante de 28 anos, e Victoria Laurent, uma Ômega Dominante de 27 anos, nascera...
