Clara nunca acreditou em coincidências.
Acreditava em horários, mapas, negativos fotográficos e na quantidade exata de café necessária para sobreviver a uma madrugada de edição.
Coincidências, não.
Por isso, quando recebeu aquela mensagem numa terça-feira às 23h47, ficou alguns segundos olhando para a tela antes de responder.
Número desconhecido:
"Você ainda fotografa casas antigas?"
Clara franziu a testa.
Não havia nome. Nenhuma foto de perfil. Apenas aquela pergunta.
Ela quase ignorou.
Quase.
Clara:
"Depende da casa."
A resposta chegou imediatamente.
"Rua das Acácias, 117."
Clara conhecia o endereço.
Todo mundo que morava naquela região conhecia.
A casa estava abandonada havia quase dez anos. Uma construção enorme, espremida entre dois prédios modernos, com janelas altas, paredes descascadas e um jardim que ninguém cuidava. Existiam histórias sobre aquele lugar.
Algumas diziam que a antiga dona havia desaparecido.
Outras diziam que ela simplesmente tinha ido embora.
Clara nunca soube qual versão era verdadeira.
Até aquela noite.
O celular vibrou novamente.
"Preciso que você fotografe o interior antes que reformem."
Clara digitou:
"Quem é você?"
Dessa vez, demorou.
Então:
"Marina."
Clara não conhecia nenhuma Marina.
Mas conhecia o sobrenome.
Marina Albuquerque era a arquiteta responsável pela reforma da casa.
E, aparentemente, estava precisando de uma fotógrafa.
---
Na manhã seguinte, Clara chegou à Rua das Acácias com sua câmera pendurada no ombro.
A casa parecia ainda maior de perto.
Marina estava parada diante do portão.
Cabelos curtos, camisa branca dobrada nos braços, calça escura e uma pasta cheia de plantas debaixo do braço.
- Clara?
- Depende.
Marina sorriu de lado.
- Você sempre responde assim?
- Só quando alguém me chama às oito da manhã.
- São oito e quarenta.
- Exatamente.
Marina riu.
Foi a primeira coisa que Clara percebeu nela.
A segunda foi que Marina parecia nervosa.
Não nervosa com a reforma.
Nervosa com a casa.
- Você já entrou aqui? - Clara perguntou.
- Algumas vezes.
- E por que precisa das fotos?
Marina olhou para a construção.
- Porque tem uma coisa aqui dentro que não aparece nas plantas.
Clara ficou em silêncio.
- Que coisa?
- Ainda não sei.
Marina abriu o portão.
- É por isso que chamei você.
---
Duas horas depois, Clara já tinha fotografado quase todos os cômodos.
A casa era estranha.
Bonita de uma maneira triste.
Havia móveis cobertos por lençóis, quadros virados contra a parede e dezenas de livros antigos espalhados pelo escritório.
Clara levantou a câmera.
Click.
Outra foto.
Click.
Até perceber uma coisa.
- Marina.
- O quê?
Clara apontou para uma parede.
- Esse quadro estava aqui quando você entrou pela primeira vez?
Marina se aproximou.
Era um retrato antigo de três mulheres.
Uma delas segurava um livro.
Outra estava sentada no chão.
A terceira olhava diretamente para a câmera.
Marina ficou pálida.
- Não.
- Tem certeza?
- Tenho.
Clara aproximou a câmera.
No canto inferior da fotografia havia uma pequena inscrição.
"Para L., quando finalmente voltar."
- Quem é L.? - Clara perguntou.
Marina não respondeu.
Porque naquele momento alguém bateu na porta da casa.
As duas se viraram.
Uma garota estava parada do lado de fora.
Cabelos castanhos curtos, uma mochila cheia de livros e uma expressão completamente confusa.
Ela olhou para Marina.
Depois para Clara.
- Desculpa... - disse. - Eu estou procurando uma casa.
Marina fechou a expressão.
- Qual?
Laura tirou um papel amassado do bolso.
- Essa.
Ela mostrou o endereço.
Rua das Acácias, 117.
Clara olhou para Marina.
Marina olhou para Laura.
E Laura, sem entender nada, perguntou:
- Por que vocês estão me olhando assim?
Clara apontou para o quadro atrás delas.
- Porque acabamos de encontrar uma fotografia com uma mensagem para alguém chamado L.
Laura ficou imóvel.
O sorriso desapareceu.
- Qual era a mensagem?
Marina respondeu:
- "Quando finalmente voltar."
Laura respirou fundo.
E então disse uma frase que nenhuma das duas esperava ouvir:
- Minha avó morou aqui.
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O mistério da casa abandonada
ActionDurante anos, a antiga casa da Rua das Acácias, 117 permaneceu abandonada, cercada por histórias que ninguém parecia disposto a contar. Até que Clara, uma jovem fotógrafa, é chamada para registrar o imóvel antes de uma possível reforma. O que deveri...
