Capítulo 1: A Lâmina na Pedra

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Capítulo 1: A Lâmina na Pedra

A geada da alvorada ainda cobria as urzes quando Aravos Evoramonte cravou a ponta da falcata no granito. A rocha fria rangia sob o peso do ferro, mas a mão de Aravos não tremia. Acima dele, a crista do Monte Hermínio surgia entre mantos de névoa densa, rasgada apenas pelo vento uivante que descia dos picos.

Não havia caça na serra naquela manhã. As cervas tinham descido para as faldas mais densas do vale, afugentadas pelo cheiro a queimado que o vento soprava do sul. Aravos limpou o suor da testa com o dorso da mão, ajustando o manto de lã escura preso ao ombro por uma fíbula de bronze carcomida pelo tempo.

Ao seu lado, o silêncio era absoluto, salvo pelo murmúrio de uma nascente próxima que corria entre os penedos. Aravos ajoelhou-se, afundando as mãos na água gélida.

— Endovélico não pede preces de homens que tremem — murmurou uma voz atrás dele.

Aravos não se voltou. Conhecia o passo leve de Nábio antes mesmo de as pedras estalarem sob as suas sandálias de couro. O velho vate trazia as vestes de linho cru salpicadas de cinza, e os seus olhos cinzentos refletiam o céu nevoento.

— O chão está quente, Nábio — disse Aravos, erguendo-se e sacudindo a água das mãos. — Não é o calor do sol. É o calor de sangue fresco. Os romanos cruzaram o Tagus?

— Os romanos não cruzam rios sem primeiro enviar a ganância à frente — respondeu Nábio, apoiando-se num cajado de teixo entalhado com nós celtas. — Os chefes dos castros do vale já contam as moedas de prata que o pretor lhes prometeu. Vendem a madeira das nossas florestas para pagar a paz.

Aravos caminhou até ao bordo do precipício. Lá em baixo, a perder de vista, o vale estendia-se numa mancha verde e sombria. Pequenas colunas de fumo subiam dos assentamentos redondos de pedra — os castros que deveriam erguer-se como fortalezas inexpugnáveis, mas que agora se curvavam diante das promessas de ouro de uma república distante.

Aravos agarrou o punho da sua espada. A falcata, moldada no ferro das entranhas da montanha, parecia pulsar contra a sua palma.

— A paz que Roma vende é uma corda ao pescoço — disse Aravos, com a voz tão dura quanto o granito sob os seus pés. — Se os chefes velhos querem ajoelhar-se, que o façam sobre as próprias covas. O Hermínio não pertence ao pretor. Pertence àqueles que sangram por ele.

Nábio aproximou-se, encarando o perfil esculpido do jovem guerreiro. O rasgo raspado nas têmporas e a trança apertada no topo da cabeça davam-lhe a aparência de uma ave de rapina prestes a mergulhar.

— Viste o sinal nas cavernas? — perguntou o vate, num sussurro quase devorado pelo vento.

Aravos fechou os olhos por um segundo. Na mente, o eco da noite anterior ainda ressoava: a escuridão da gruta de Terena, o cheiro a ervas queimadas e a visão de uma serpente de ferro a esmagar uma águia sobre as rochas.

— Vi o fim da nossa gente se continuarmos divididos — declarou Aravos, abrindo os olhos verdes que cortavam a névoa. — E vi o sangue que precisamos de derramar para impedir que isso aconteça.

Com um puxão seco, libertou a lâmina da pedra. O metal brilhou sob a luz baça da manhã, pronto para a guerra que se aproximava.

Nábio baixou o olhar para o aço limpo da falcata. O sacerdote passou os dedos enrugados pela lâmina curva, traçando a linha de vida do metal até ao cabo esculpido em forma de cabeça de cavalo.

— Ataegina exige sempre o que nasce da terra antes de conceder a colheita — sussurrou o vate, a voz rouca impregnada da autoridade dos ritos antigos. — Se queres a força dos castros, Aravos, terás de pagar em sacrifício. A Senhora do Renascimento não acolhe preces sem sangue sobre o altar.

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⏰ Last updated: Sep 07 ⏰

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