Não sabia dizer há quanto tempo estava ali, encarando a bela flor daquele lago. Há tempos refletia sobre seu tempo de existência, sobre suas responsabilidades e tudo o que deveria fazer ou que já tenha feito. Ponderava se representava bem o suficiente seu papel, principalmente enquanto observava a flor. A sua flor.
Tão delicada, tão jovem e tão cheia de amor. Ela merecia ter passado mais tempo com a família. Sentia que deveria ter intervido. Apesar disso, podia sentí-la feliz em seu estado atual.
Mesmo sozinha no meio daquele lago, sempre que vinha vê-la, a pequena Vitória Régia florescia, da maneira mais bela e cheia de vida que uma flor poderia ser. Ela sempre parecia alegre e disposta. Deveria parar de se torturar, então?
-Ei, Lua! Vem brincar comigo!
Não precisou se virar para saber que era o Sol, seu velho amigo que insistia em andar por aí em uma de suas formas mais jovens. Sentou-se sobre os próprios pés, sabendo que ele se aproximaria daquela maneira caótica e calorosa de sempre.
-Deixe-a aí! Ela já te vê todos os dias! E nós dois temos o tempo contado!
-Não está velho demais para brincar?-Perguntou com calma.
-Vai sonhando! Eu vou deixar de ser legal um dia, sabia? E aí você vai sentir minha falta!
Apesar de, por vezes, achá-lo um chato, Lua sorriu com graça, abaixando a cabeça enquanto deixava seu véu branco cair por seu rosto, a cobrindo da luz quente que ele sempre emitia e que a fazia brilhar também.
-Claro. Eu já sinto sua falta. Mas gostaria que fosse um pouco mais sério.
-Eu sou sério quando preciso.
Ele se sentou ao lado dela, a diferença de tamanho entre os dois era quase cômica. Sol colocou os pés na água, fazendo uma fumaça branca subir com um leve chiado. Seus cachos dourados, como sempre, estavam uma bagunça. Sua bermuda nunca combinava com a regata infantil e ambas estavam sempre desalinhadas ou sujas de lama, molhadas, cobertas de grama... e ele nunca, jamais, usava sapatos.
Diferente da Lua, que estava sempre com seu longo cabelo branco trançado e arrumado, com o véu preso no topo da cabeça. Seu vestido também estava sempre perfeitamente limpo e alinhado e ela também não usava sapatos, mas adornava-se de jóias prateadas dos dedos aos tornozelos.
Por séculos, pensou que sua postura impecável influenciaria o Sol a se comportar melhor, mas, agora, sabia que era impossível.
Com um suspiro, resolveu fingir que ele não estava ali e voltou a assistir as pequenas pétalas brancas se moverem suavemente diante da brisa fresca, quase dançando ao som da natureza. Poderia muito bem se concentrar naquela cena tão linda e melancólica para si, mas o calor do Sol a lembrava de que não estava só e ela precisou voltar a encará-lo, querendo saber se conseguia adivinhar seus pensamentos vendo sua expressão.
Ele também encarava a flor, quase tão seriamente quanto a Lua, se não fosse por sua postura relaxada sobre a grama. Os pés já não estavam mais dentro do lago, afinal, ele sabia que poderia evaporá-lo se não tomasse cuidado.
Como se sentisse que era observado, ele a encarou de volta. Diferente das outras vezes, ele não sorriu ou fez alguma piada. Apenas a encarou sem expressão por um momento antes de se aproximar um pouquinho mais, como se quisesse que seu calor a envolvesse por completo naquele momento.
-Sabe que ela está feliz aqui.
-Eu sei.
-Então por que ainda sofre por ela?
Lua suspirou, desviando o olhar para a grama entre seus joelhos e o lago. Mesmo naquele momento, as plantas estavam verdes e vivas como nunca.
-Vidas são preciosas.
-Ainda assim, ela não a culpa. E você também não deveria. Tudo acontece porque deve acontecer. Aquela pequena índia te amava tanto que não se preocupou com nada, apenas em chegar até você. Agora, você cuida dela todos os dias, por muito mais tempo do que o necessário. Você sabe retribuir amor, Lua. E sabe o peso dos atos. Seu problema é ser séria demais.
-Um de nós tem que ser, não é?
-Já disse que sou. Quando preciso, como agora. Se levar sua existência dessa maneira pesada, então ela não passará de um grande fardo. E não é apenas para carregar fardos que existimos.
Lua parou por um momento, olhando novamente para a Vitória Régia. Por mais que não agisse como tal maior parte do tempo, Sol era um velho sábio que experienciou muitas coisas. Ele sabe do que está falando. Mesmo que seja um chato.
Aquele pensamento a fez sorrir. Ainda sabia ser infantil afinal?
-Tudo bem, então.-Ela retirou o véu, ao mesmo tempo em que diminuía de tamanho, até parecer uma criança de uns oito anos, exatamente como o Sol se parecia agora.-Vamos brincar, Sol.
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Pequenos Contos e Sentimentos
FantasyAqui é um lugar onde eu vou postar one shots e coisas aleatórias que eu decida escrever de repente. Se quiser ver o que se passa na minha cabeça, sinta-se à vontade para ler!
