O Torvo
Quando o assunto é folclore, lendas ou mitos, lembro-me bem das muitas histórias que minha bisavó Florência me contava. Mesmo aos 90 anos, ela descrevia suas narrativas com uma riqueza de detalhes impressionante, jurando ter presenciado a maioria delas.
Dona Florência - ou simplesmente Flor, como era conhecida - garantia que tudo acontecera de verdade. Suas memórias, contudo, acabaram se espalhando pelo interior como mais um causo do folclore paulista. Esta é uma dessas histórias.
Florência Maria Rodrigues nasceu em 1896, no município de Franca, e morou em diversas fazendas do interior de São Paulo. Em 1911, aos 15 anos, a garota magra de pele clara e cabelos negros mudou-se com os pais para a Vila do Café, um pequeno povoado composto por apenas uma rua de paralelepípedos e quatro fileiras de casas. Tão logo chegaram, tomaram conhecimento de algo que aterrorizava a região: uma criatura tenebrosa conhecida como Torvo.
Todas as sextas-feiras de lua cheia, à meia-noite, o Torvo atacava as criações. Comia apenas as vísceras dos animais e deixava as carcaças espalhadas, causando enormes prejuízos. Para tentar conter a fúria da besta, os moradores passaram a sacrificar um bicho em todas as noites temidas. Amarravam um animal de médio porte na entrada da vila e, pontualmente à meia-noite, escutavam os zurros e gritos da presa indefesa. Ninguém ousava sair à rua. Homens corajosos já haviam perdido a vida tentando caçar ou apenas vislumbrar o monstro. Satisfeito após o farto repasto, o Torvo desaparecia na escuridão.
Em uma dessas noites, Flor não conseguia dormir. Deitada, lia um livro de poesias à luz de uma lamparina. Sem se dar conta da hora, assustou-se com o latido enfurecido dos cães. Aproximou-se da janela fechada e manteve-se em silêncio. Logo, um som metálico e ritmado fez seu coração disparar: cascos de cavalo a galope batendo contra as pedras da rua. Era o Torvo.
A curiosidade venceu o medo. Sentindo o peito ofegante, Flor encostou a mão na madeira da janela e a abriu fresta por fresta. Para sua surpresa, viu apenas os cães correndo em círculos e latindo para o vazio. O som do galope diminuiu até parar completamente. Sob a claridade da lua, os cachorros acossavam o nada. De repente, o nitrido alto de um cavalo ressoou bem ao lado de sua janela. Pavorosa, a garota fechou a madeira de supetão, saltou para a cama e cobriu-se até a cabeça. O galope distante recomeçou pela rua, sumindo na noite.
Na manhã seguinte, desconfiada, Flor pensou: Como posso ter medo de algo que nem vi? Decidiu que, na próxima lua cheia, iria até o local da oferenda descobrir a verdade sobre o "Cavaleiro Sem Sombra".
Na sexta-feira prometida, Flor esperou os pais dormirem, pulou a janela do quarto e seguiu escondida até a entrada da vila. Ocultou-se atrás do tronco grosso de uma árvore. O sacrificado da noite era um porco, amarrado a um mourão, que dormia alheio ao perigo. O vento gélido uivava e uma coruja piou no topo do arvoredo. Arrepiada, Flor pensou em recuar, mas o porco subitamente se ergueu, agitado e ganindo de terror.
O som do galope aproximou-se rápido pelas pedras. Encolhida atrás da árvore, a garota prendia a respiração. Ao espiar, viu uma silhueta alta. Parecia um homem enorme e robusto usando uma capa preta, de onde sobressaía uma cauda longa.
A figura avançou sobre o porco, segurou o focinho do animal com uma mão, o queixo com a outra e, em um movimento brutal de força desumana, rasgou o animal ao meio. Flor tapou a própria boca para sufocar o grito. A criatura devorava as tripas fumegantes enquanto olhava ao redor.
Apavorada, a menina tentou recuar, mas pisou em um graveto seco. Croc.
O barulho fez o monstro virar-se abruptamente em sua direção. Sob a luz do luar, a ilusão se desfez: não havia cavaleiro. Uma cabeça deformada e equina, com olhos incandescentes nas extremidades, encarava a garota. As narinas negras bufavam um vapor denso, e dentes disformes sobressaíam da boca lambuzada de sangue. Da cintura para baixo, suas pernas eram grossas e terminavam em cascos fendidos. Torvo era homem e cavalo fundidos em uma só aberração.
Flor estremeceu. As pernas falharam e a escuridão tomou conta de sua mente.
Apenas muitos anos depois, conversando com os antigos da região, Florência montaria o quebra-cabeça da verdadeira origem daquele monstro.
A maldição começara em 1827, na fazenda Santa Tereza, perto de Batatais. Pedro Afonso Oliveira de Alcântara, filho único de um rico cafeicultor, cresceu mimado e cruel. Esnobe, tratava todos com desprezo e distribuía castigos severos aos escravizados por qualquer motivo trivial. Ficou conhecido na região pelo apelido rancoroso de "Pedro Cavalo", por conta das "patadas" e coices verbais com que brindava a todos.
Em 1854, em uma noite de lua cheia, a tirania de Pedro chegou ao fim. Retornando para a fazenda, ele e seu capataz foram emboscados por oito escravizados rebelados. O cavalo de Pedro foi derrubado por uma lança. Ao tentar impor autoridade ameaçando os homens com o tronco, o fazendeiro foi surrado impiedosamente.
Os homens abriram o ventre do cavalo morto de Pedro, amarraram o feitor nu a uma árvore e o forçaram a comer as vísceras cruas do animal enquanto o chicoteavam. "Cadê a valentia do Cavalo?", zombavam. Prestes a morrer com um punhal cravado no dorso, Pedro babava sangue e esbravejava com o resto de suas forças:
- Eu voltarei! Juro por essa lua! Negociarei minha alma com o Diabo, mas voltarei para comer as tripas de cada um de vocês!
Pedro foi enterrado ali mesmo, na mesma cova rasa de sua montaria. No mês seguinte, em outra noite de lua cheia, a sepultura foi encontrada revolvida e aberta, cercada por dezenas de pegadas de cascos. Nos meses subsequentes, todos os homens que participaram daquele ato foram encontrados mortos nos cafezais, com os ventres rasgados e sem suas vísceras. Concluída sua vingança de sangue, a aberração continuara vagando pelas propriedades rurais do estado, condenada a satisfazer eternamente sua fome profana.
Quando Florência despertou na manhã seguinte, a claridade do Sol entrava pela janela de seu quarto. Estava deitada em sua própria cama. Sem saber se havia conseguido voltar sozinha em choque ou se fora poupada e carregada, levantou-se trêmula.
No chão, perto da janela aberta, seu livro de poesias estava caído. Ao recolhê-lo, notou uma mancha escura e seca de barro prensada sobre uma das páginas de poemas. Tinha o formato perfeito e nítido de um casco de cavalo.
Dona Florência viveu lúcida até os 103 anos. O livro marcado com a pegada de lama permaneceu guardado como relíquia de família por décadas. E dizem as más línguas que, até hoje, em noites silenciosas de lua cheia no interior paulista, ainda é possível escutar o galope solitário do Torvo à procura de sua próxima oferenda.
