Relembrando tormentos

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- E fazia quanto tempo que você não via ele Alana ? 

- Cerca de três meses. - Alana engoliu em seco. Estava deitada na maca do consultório da psiquiatra, com os olhos fixos em algum ponto do teto.

- E como foi esse reencontro ? 

Ela respirou fundo antes de responder.

— Eu tinha acabado de chegar do trabalho. Chego em casa por volta das sete da noite. Quando abri a porta do apartamento... ele estava lá.

A psiquiatra ergueu os olhos das anotações.

— Ele estava lá?

Alana assentiu.

— Sentado no sofá. Usava exatamente a mesma roupa da última vez que o vi, três meses antes. Uma camiseta vermelha e uma calça jeans azul. Nos pés, o mesmo tênis branco de sempre... já meio amarelado pelo uso.

Um sorriso amargo apareceu em seu rosto.

— Ele parecia exatamente igual.

— E o que ele fez quando você entrou?

— Assim que me viu, disse: "Boa noite. Como foi o trabalho?". Eu fiquei perplexa. Não sabia o que era real e o que não era. Não consegui responder. Enão ele simplesmente se levantou, segurou minha mão e me conduziu até o sofá.

— E como você se sentiu ao vê-lo novamente?

Alana demorou alguns segundos para responder.

— Foi um misto de medo e felicidade.

— Encontrá-lo ali, sentado no sofá, sorrindo para mim... me fez sentir importante. Como se, naquele momento, eu fosse a única pessoa no mundo.

A psiquiatra permaneceu em silêncio, permitindo que ela continuasse.

— Depois de alguns minutos, ele perguntou se estava tudo bem. Eu apenas balancei a cabeça dizendo que sim. Então perguntei: "Alan, o que você está fazendo aqui?"

Alana fechou os olhos por um instante.

— E ele respondeu: "Eu senti sua falta". Quando ele disse aquilo, eu não consegui me controlar. Eu o beijei.

Ela respirou fundo.

— Eu sei que não deveria. Sei que ele não estava realmente ali. Mas... poder tocar nele novamente me fez sentir coisas que estavam adormecidas havia três meses. Eu me senti viva.

Após outra pausa Alana continou:

— Eu senti as mãos dele percorrendo meu corpo, como se ele realmente me amasse. Cada toque fazia meu corpo inteiro arrepiar. Eu sentia a boca dele sobre a minha pele...

Ela interrompeu a frase, como se tivesse percebido até onde estava indo.

— E então, em um único segundo, ele desapareceu. Como se nunca tivesse estado ali. Eu me levantei e fui até o banheiro. Joguei água no rosto. E entendi. Tinha sido outra ilusão.

Houve um silêncio breve.

— Quando olhei para o espelho, meu batom estava borrado e minha camisa social estava desabotoada. Como se ele realmente tivesse estado ali. Como se tivesse tocado em mim. Como se tivesse possuído meu corpo e simplesmente ido embora.

A psiquiatra permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Mas você sabe que ele não estava realmente lá?

Alana demorou a responder.

— Sei.

A psiquiatra voltou a escrever.

— Hoje você não mantém nenhum tipo de contato com ele?

— Não.

— Há quanto tempo?

— Nove anos.

A psiquiatra franziu levemente a testa.

— Nove anos?

— Sim.

Alana respirou fundo.

— Nossa história começou quando eu tinha quinze anos. Faz quinze anos desde o nosso primeiro beijo.

Ela sorriu de canto.

— Nós namoramos por cerca de três meses. Terminamos de uma maneira extremamente conturbada. Quando eu tinha vinte e um anos, tentamos algo e novamente deu errado.

A psiquiatra a observou por alguns segundos.

— Então, ao todo, são nove anos sem qualquer contato?

— Nove.

— E mesmo assim ele continua aparecendo?

Alana assentiu.

— Às vezes.

— Quando começaram essas ilusões?

Ela franziu a testa.

— Não me lembro muito bem.

Alana ficou alguns segundos em silêncio.

— Quando eu tinha quinze anos, eu sonhava muito com ele. Mas eram apenas sonhos. Pelo menos naquela época eu sabia que eram.

— E quando deixou de saber?

— Eu tinha vinte e dois anos quando procurei um psiquiatra pela primeira vez. Foi quando aconteceu o primeiro episódio em que eu realmente perdi a capacidade de distinguir o que era real do que não era, meu primeiro episódio de juízo de realidade comprometido.

A psiquiatra parou de escrever.

— E o que você viu naquela época?

Alana ficou em silêncio.

Por alguns segundos, apenas o som do relógio na parede preenchia o consultório.

— Alan, sorrindo diretamente pra mim. Disse que queria que eu voltasse. Que não conseguia parar de pensar em mim.

Ela respirou fundo.

— Naquele momento, eu acreditei. Mas depois peguei meu celular e entrei nas redes sociais, ele permanecia namorando, permanecia feliz e eu cai em realidade de que aquilo nunca havia acontecido. 

Allan & AlanaStories to obsess over. Discover now