O erro da cortina aberta

2 0 0
                                        

Mudar de cidade já era ruim o suficiente, mas a arquitetura do meu novo bairro parecia uma piada de mau gosto. As casas eram tão coladas que a janela do meu novo quarto ficava exatamente de frente para a do vizinho. A distância era ridícula. Se nós dois esticássemos os braços para fora, provavelmente conseguiríamos tocar a ponta dos dedos um do outro.Por duas semanas, minha única regra de sobrevivência foi: mantenha a cortina fechada.Mas naquela terça-feira à noite, exausta depois de estudar até tarde, eu cometi o erro. Esqueci.Eu estava de fones de ouvido, cantarolando uma música qualquer enquanto terminava de prender o cabelo em um coque frouxo. Quando me virei em direção à mesa de cabeceira para pegar o celular, meu olhar cruzou o vidro da janela automaticamente.Meu coração despencou na mesma hora.A luz do quarto dele estava acesa. Ele estava sentado na mesa de estudos, com um caderno aberto, mas não estava escrevendo. Ele estava me olhando. Fixamente.O fone de ouvido pareceu ficar mudo de repente, embora a música continuasse tocando. Eu congelei. Minha primeira reação deveria ter sido puxar a cortina correndo e morrer de vergonha, mas meus pés pareciam colados ao chão de madeira.Ele não parecia nem um pouco constrangido por ter sido pego no flagra. Pelo contrário. Ao perceber que eu tinha notado sua presença, ele largou a caneta devagar, inclinou o corpo para trás na cadeira e apoiou o queixo na mão, sem desviar os olhos dos meus por um segundo sequer.A iluminação do quarto dele deixava as linhas do seu rosto desenhadas na penumbra. Um sorriso de lado, lento e perigosamente arrogante, surgiu em seus lábios. Ele ergueu uma das sobrancelhas, como se estivesse me desafiando a fechar a cortina. Como se estivesse dizendo: "Demorou para me notar, vizinha".Minhas bochechas queimaram. Num impulso de pura adrenalina, dei um passo à frente e puxei o tecido da cortina com força, bloqueando a visão e me deixando no escuro do meu próprio quarto.Encostei as costas na parede, respirando fundo, com o coração batendo na garganta.O jogo dele tinha começado. E o pior de tudo é que eu sabia que, na noite seguinte, eu ia querer olhar de novo. O despertador tocou às seis da manhã, e a sensação de abrir os olhos e ver o lado da cama vazio foi estranha. Tyler tinha ido embora pouco antes de o sol nascer, deixando apenas o lençol bagunçado e aquele rastro sutil de perfume amadeirado no meu travesseiro.Mas a calmaria da madrugada evaporou assim que pisei no pátio da escola. O clima parecia pesado.Eu estava caminhando em direção ao meu armário quando ouvi uma risada alta e debochada ecoar perto dos bebedouros. Olhei de relance. Era Miller, o capitão do time de futebol. Ele estava com a jaqueta do time, cercado por dois amigos, e usava um curativo discreto no supercílio - o presente que Tyler tinha deixado nele na semana passada.Tentei passar reto, encarando meus próprios sapatos, mas Miller deu um passo à frente, bloqueando o caminho de propósito.- Ora, ora... Se não é a vizinha do delinquente - ele disse, com a voz alta o suficiente para fazer algumas pessoas no corredor pararem para olhar.- Com licença, Miller. Preciso ir para a aula - respondi, tentando manter a voz firme e desviar dele.- Calma aí, novata. Só estou dando um aviso amigável - ele deu um sorriso cínico, aproximando-se um pouco mais, o que me fez dar um passo para trás por puro instinto. - O Tyler adora fingir que é o herói incompreendido, mas ele é só um poço de problemas. Se eu fosse você, mantinha a cortina bem fechada. Vai por mim, você não quer seu nome envolvido com a lama dele quando a diretoria finalmente chutar ele daqui.Meu sangue ferveu. A vontade de defender o Tyler e esfregar na cara do Miller que eu sabia a verdade sobre a briga quase falou mais alto. Mas, antes que eu pudesse cometer uma loucura, uma silhueta alta surgiu no final do corredor.Tyler vinha caminhando a passos lentos, mas a expressão no rosto dele era puro gelo. Seus olhos estavam fixos em Miller, e dava para ver a mandíbula dele trancada de tanta raiva. A atmosfera do corredor mudou em um segundo; todo mundo percebeu o perigo iminente.Quando Tyler parou ao meu lado, ele nem olhou para Miller. Ele apenas segurou o meu pulso com firmeza, mas com cuidado, me puxando para trás do corpo dele, usando o próprio peito como uma barreira protetora entre mim e o jogador.Só então Tyler encarou Miller. Os punhos dele estavam fechados ao lado do corpo.- Eu achei que a surra no estacionamento tivesse sido suficiente para você aprender a ficar longe do que não é da sua conta, Miller - a voz de Tyler saiu incrivelmente baixa, mas carregada de uma promessa violenta que fez o sorriso do capitão sumir na hora. - Chega perto dela de novo e eu garanto que o curativo na sua cara vai ser o menor dos seus problemas.Miller engoliu em seco, olhando para os lados para ver se os amigos o defendiam, mas os outros jogadores deram um passo atrás. Ninguém queria encarar o Tyler enfurecido.- Você está cavando a sua própria cova, Tyler - Miller resmungou, tentando manter a pose, antes de dar as costas e sair pisando fundo com o seu grupo.O corredor começou a se dispersar aos poucos, mas os sussurros continuavam. Tyler finalmente relaxou os ombros e se virou para mim. Seus olhos escuros, que antes emanavam puro perigo, suavizaram instantaneamente ao me olhar. Ele soltou meu pulso, mas deixou os dedos roçarem de leve na minha mão.- Ele te tocou? - Tyler perguntou, a voz agora cheia de preocupação.- Não... eu estou bem - respondi, respirando fundo, sentindo o coração batendo na garganta. - Mas Tyler, todo mundo viu isso. O diretor vai ficar sabendo.Tyler olhou em volta e depois voltou a me encarar, com um brilho sério e protetor no olhar.- Eu não me importo com o diretor, Maya. Eu me importo com você.

A janela do meu desejoStories to obsess over. Discover now