Houve uma garota em meus anos mais cruéis que me encantou. A tive em meus braços e, mesmo assim, escapou. Seu toque não era delicado, ao menos quando ela queria; geralmente sua brutalidade me queimava mais do que qualquer outra coisa: um mísero filete de gasolina que entrava em contato com o álcool em minhas veias.
As pessoas estavam erradas quando diziam que suas atitudes não eram doces, pois não conheci alguém tão doce quanto ela em minha vida. Quem sabia de suas amarras e dores profundas eram poucos e carreguei com orgulho o fato de ser uma dessas pessoas. Pude ver sinceridade nos seus olhares, em todos eles. Me sentia segura no calor de seus braços e suas mãos firmes em minha cintura dão saudade no verão; época em que o sol entrava em contraste com suas orbes e se transformavam num degradê perfeito que me coloria.
Ela virou parte de mim naquele ano de 2022. Seus sorrisos eram puros e eu me apaixonava mais a cada segundo que a olhava, eu perdia meus sentidos ao lado dela. Algo quente envolveu meu coração em uma noite. Àquela altura já não éramos mais garotas e sim mulheres em busca de alguma forma de ser feliz, com nossas vidas distanciadas e mesmo assim tão próximas.
Chorei incontáveis madrugadas, a pequena janela em meu quarto é cúmplice de todas as nossas fraquezas e dificuldades. Meus amigos diziam para que eu largasse de mão, nunca daria certo, afinal. Mas quem é que colocaria fé em nós se não fossemos nós mesmas? Eu nunca liguei, de fato, para comentários maldosos; mas você sim. Nossa primeira ruína foi a insegurança que assolou nosso peito. Nos meses em que você se foi nada mais tinha graça. Tentei ir à praia, mas sem te dizer das estrelas que eu contava não era a mesma coisa; tentei ouvir música deitada no chão, mas sem seus olhos curiosos que pareciam saber de todos os meus segredos também não era a mesma coisa; tentei cozinhar mas você não estava ali para queimar a pouca coisa que eu pedia para que fizesse; tentei caminhar mas você não estava ali para me acordar às seis da matina alegando que o tempo corria acelerado; tentei ir para alguns bares mas não era você que me lançava olhares sugestivos depois de algumas doses de álcool; tentei dançar mas descobri que eu só sabia dançar com você.
A dor daquele verão impregnou minha alma de maneiras irreversíveis.
Mas eu achei que te encontrei no ponto de ônibus enquanto voltava caminhando para casa. Você segurava uma mala e seus olhos estavam mais abatidos que nunca, olheiras cresciam e eu me perguntei se o motivo delas poderiam ser a insistência de seus pensamentos retornarem à mim, assim como os meus retornavam à ela em meio aos meus lençóis bagunçados.
Eu não consegui dizer nada; não havia nada a dizer. O que poderia ser dito? Que meus pesadelos se tornaram frequentes depois de sua partida? Ou que meus olhos ficavam molhados só de imaginar a possibilidade de ter encontrado outro alguém em um mês longe de mim? Você nunca se dispôs a perder.
Meu corpo tremia inteiro, desejando estar longe de ti para que minha recuperação fosse completa; mas eu não conseguiria. E você nem estava ali.
— Não consigo parar de pensar em você.
Mas ela me amou durante um mês e trinta contos de poesia, nada mais.
BINABASA MO ANG
latino-americano
Non-FictionO diabo não conseguiu me alcançar, então ele criou a melancolia. Eu a sinto subindo aos poucos, como as videiras que ocupam os muros das casas e as preenchem com vida, exceto a minha. A minha casa é assombrada. O que me resta é vagar perdida, encalh...
