Quando cheguei a Sinop, em 2023, eu não fazia ideia de tudo o que aquela cidade ainda iria significar na minha vida.
Eu era novo ali. Não conhecia praticamente nada, não sabia direito como as coisas funcionavam e, de certa forma, estava começando uma vida do zero. No começo, tudo parecia estranho. Ruas novas, lugares novos, pessoas que eu nunca tinha visto antes e uma sensação constante de estar tentando encontrar o meu lugar.
Foi então que comecei a trabalhar no shopping.
O trabalho acabou sendo muito mais do que apenas um emprego. Foi ali que conheci pessoas que, com o tempo, deixaram de ser apenas colegas e passaram a fazer parte da minha vida. Algumas delas me ajudaram quando eu precisei, me deram apoio, companhia e, de certa forma, fizeram aquela cidade deixar de parecer tão desconhecida.
Mas, no meio de tudo isso, havia alguém que, sem que eu percebesse, acabaria ocupando um espaço diferente na minha cabeça.
Ela trabalhava em uma loja bem na frente da minha.
Uma menina linda, dona de olhos verdes que, sinceramente, pareciam ter algum tipo de poder sobre mim.
No começo, porém, não havia nada de especial.
Na verdade, eu achava que ela nem gostava de mim.
Ela quase não me olhava. E, quando olhava, muitas vezes era com uma cara fechada que me fazia pensar:
"Será que ela não vai com a minha cara?"
Eu nunca fui uma pessoa muito boa para interpretar sinais. E, sendo tímido como sempre fui, muito menos.
Então simplesmente continuei vivendo minha rotina.
Até que, depois de aproximadamente dois meses, alguma coisa mudou.
Não sei exatamente quando aconteceu. Não sei se foi de repente ou se fui percebendo aos poucos. Só sei que aquela menina que quase não me olhava começou a se aproximar.
Um dia, ela me adicionou no Instagram.
Nós conversamos um pouco.
Nada demais.
Conversas básicas, aquelas que poderiam significar absolutamente tudo ou absolutamente nada. Eu, como sempre, fiquei tentando entender o que aquilo queria dizer.
Depois disso, as coisas começaram a ficar ainda mais confusas.
Ela começou a aparecer na minha loja e me abraçar.
Às vezes, beijava meu rosto.
Falava que gostava de mim.
E eu simplesmente travava.
Por dentro, talvez eu estivesse criando mil teorias.
"Ela realmente gosta de mim?"
"Será que está apenas sendo carinhosa?"
"Será que eu estou entendendo tudo errado?"
"Ou será que ela está tentando demonstrar alguma coisa e eu não estou tendo coragem de perceber?"
O problema é que eu nunca consegui descobrir.
Talvez porque eu fosse tímido demais para perguntar.
Talvez porque tivesse medo da resposta.
Ou talvez porque, quando a gente começa a gostar de alguém, qualquer pequeno gesto pode parecer enorme.
Um abraço pode significar carinho.
Um beijo no rosto pode ser apenas amizade.
Um "eu gosto de você" pode ser uma declaração.
Ou pode ser simplesmente uma forma carinhosa de falar.
E eu nunca soube em qual dessas possibilidades acreditar.
O que eu sabia era que aqueles momentos ficavam na minha cabeça.
Principalmente aqueles olhos verdes.
Por mais estranho que pareça, até hoje eu consigo lembrar deles.
O tempo foi passando.
E aquilo que parecia estar começando a criar uma conexão acabou se tornando uma história cheia de dúvidas.
Chegando perto de julho de 2024, nós paramos de nos falar.
E até hoje eu não sei exatamente por quê.
Não houve uma grande discussão.
Não houve uma despedida.
Simplesmente aconteceu.
A comunicação foi diminuindo até praticamente desaparecer.
E talvez essa tenha sido uma das partes mais difíceis.
Porque quando uma história termina com uma discussão, pelo menos existe um motivo.
Quando alguém vai embora dizendo que não quer mais falar com você, existe uma resposta.
Mas quando simplesmente existe um silêncio...
A cabeça começa a criar as próprias respostas.
Eu fiquei pensando no que poderia ter acontecido.
Se eu tinha feito alguma coisa.
Se ela tinha perdido o interesse.
Se tudo aquilo que eu tinha interpretado como carinho realmente significava alguma coisa.
Ou se, desde o começo, eu havia entendido tudo errado.
Então chegou agosto.
Nós voltamos a conversar.
Por um momento, talvez eu tenha imaginado que as coisas poderiam voltar a ser como antes.
Mas não voltaram.
Alguma coisa tinha mudado.
A conversa existia, mas a conexão não era mais a mesma.
Aquela proximidade que existia antes parecia ter ficado em algum lugar do caminho.
E talvez essa seja uma das coisas mais estranhas que alguém pode sentir: conversar novamente com uma pessoa que um dia foi tão próxima e perceber que, mesmo estando ali, alguma coisa ficou para trás.
Em setembro de 2024, minha passagem por Sinop chegou ao fim.
Quando penso naquela cidade hoje, não lembro apenas das ruas, do shopping ou do trabalho.
Lembro das pessoas que me acolheram quando eu era novo e não conhecia quase ninguém.
Lembro de quem me ajudou.
De quem me deu abrigo.
De quem se tornou família mesmo sem ter obrigação nenhuma de fazer isso.
Lembro do meu trabalho, das pessoas que fizeram parte daquela fase e de tudo que vivi.
E, no meio dessas lembranças, inevitavelmente aparecem aqueles olhos verdes.
Talvez ela realmente tenha gostado de mim.
Talvez tenha sido apenas carinho.
Talvez tenha existido alguma coisa entre nós que nenhum dos dois teve coragem de entender completamente.
Eu provavelmente nunca vou saber.
Mas talvez algumas pessoas entrem na nossa vida justamente assim: sem uma explicação completa, sem um começo perfeitamente definido e sem um final que faça sentido.
Elas simplesmente aparecem.
Mudam alguma coisa dentro da gente.
E depois seguem o próprio caminho.
E, mesmo anos depois, uma lembrança é suficiente para fazer tudo voltar por alguns segundos.
No meu caso, bastam dois olhos verdes.
E a lembrança de uma menina que um dia atravessou a distância entre duas lojas e, sem perceber, acabou ficando por muito mais tempo na minha cabeça do que talvez tenha imaginado.
Sinop foi uma fase da minha vida.
Uma fase de descobertas, amizades, dificuldades, acolhimento e sentimentos que eu nem sabia explicar.
E talvez seja justamente por isso que eu nunca consiga simplesmente dizer que "foi só uma época".
Porque algumas épocas terminam.
Mas algumas pessoas ficam.
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Os Olhos Verdes de Sinop
Non-FictionUma realidade onde eu n tive a capacidade de enxergar
