CAPÍTULO 01

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LEMBRANÇAS

Quando eu era pequena, eu queria ser amada.

Não era um pedido grande. Eu não sabia pedir grandes coisas. Eu implorava nos detalhes, nos pequenos gestos, nos silêncios que talvez ninguém tivesse percebido. Havia, dentro de mim, uma criança tentando dizer, de todas as formas que conhecia, que precisava de amor. Que queria colo. Que queria se sentir importante para alguém. Que queria simplesmente ter a certeza de que era amada.

Mas, de alguma forma, esse acolhimento nunca chegou até mim da maneira que eu precisava.

Eu cresci carregando uma falta que, naquela época, eu nem sabia nomear.

Aos cinco anos, eu já conhecia a ausência de uma presença paterna. Mas eu tinha minha mãe. E, por muito tempo, ela foi o meu centro. Ela estava ali. Cuidava de mim, me protegia de muitas coisas, fazia o que podia para me manter segura. Era a pessoa que eu tinha.

Só que existiam coisas das quais ninguém conseguia me proteger.

Minha mãe podia me proteger do mundo, mas não dos pensamentos que começavam a nascer dentro de mim. Não das palavras que eu ouvia. Não da maneira como determinadas coisas me atravessavam quando eu ainda era pequena demais para entender por que doíam tanto.

E talvez seja aí que algumas feridas começam: não no momento em que acontecem, mas no momento em que uma criança percebe que não sabe o que fazer com aquilo que sente.

Conforme fui crescendo, comecei a entender uma coisa que talvez nenhuma criança devesse precisar aprender tão cedo: algumas dores parecem mais seguras quando permanecem em silêncio.

Porque, mesmo quando explicamos, gritamos ou choramos tentando mostrar a alguém exatamente onde dói, existe uma parte da nossa dor que continua sendo impossível de traduzir.

Ninguém sente exatamente aquilo que sentimos.

Ninguém carrega o peso daquilo que vivemos dentro do próprio peito.

E foi assim que comecei a guardar.

Guardei palavras. Guardei sentimentos. Guardei perguntas. Guardei coisas que eu queria dizer, mas não sabia como.

Talvez porque, em algum lugar dentro de mim, eu já tivesse entendido que ser ouvida não significava necessariamente ser compreendida.

E uma criança que aprende cedo demais a guardar o que sente pode crescer acreditando que precisa ser amada em voz alta para ter certeza de que é amada.

Foi assim que eu cresci.

Precisando que dissessem.

Precisando que demonstrassem.

Precisando sentir.

Precisando de tudo aquilo que, um dia, eu havia implorado em pequenos gestos.

Porque algumas carências não desaparecem quando a infância termina.

Elas apenas crescem junto com a gente.

Acho que foi por volta dos meus oito anos quando ouvi, pela primeira vez, uma frase que eu levaria comigo por muito mais tempo do que aquela pessoa provavelmente imaginava.

Disseram que ninguém gostava de mim. Que eu não deveria estar ali. Que a minha presença não era desejada - nem pela família da minha mãe, nem pela família do meu pai, por ninguém.

Eu tinha oito anos.

Não entendia o tamanho daquelas palavras. Não sabia explicar por que elas doíam tanto. Só sabia que doíam.

O peso das coisas que eu nunca disse.Stories to obsess over. Discover now