O ar do estúdio B-3 da gravadora cheirava a café frio, cabos elétricos queimados e a tensão palpável de quem não dormia há trinta e seis horas. Seonghyun estava sentado no sofá de couro sintético rasgado, de pernas abertas, cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o nada entre seus pés. A luz piscante do monitor de gravação projetava sombras azuladas sobre seu rosto - aquele rosto que as revistas chamavam de "esculpido para o palco", mas que agora parecia feito de cimento úmido.
A porta se abriu sem batidas.
Keonho entrou carregando duas latas de energético. Ele não olhou para Seonghyun. Nunca olhava, não desde que... não desde aquilo. Deixou uma lata na mesa de mixagem, abriu a outra, bebeu metade de uma vez só. O som da deglutição ecoou no silêncio de concreto.
- Ainda não terminou? - Keonho perguntou, voz rouca. Não era pergunta. Era acusação disfarçada.
Seonghyun não se moveu.
- O diretor quer a demo até amanhã de manhã. - Ele falou para o chão. - Você sabe que não dá.
- Dá sim. - Keonho finalmente o encarou. Seus olhos - aqueles olhos que os fãs comparavam a "carvão aquecido por dentro", que Seonghyun conhecia melhor do que os seus próprios - estavam vermelhos, com olheiras de quem também não dormia. - Você só precisa parar de tentar ser perfeito.
Uma risada seca escapou de Seonghyun. Ele finalmente levantou o rosto, e por um instante, Keonho viu algo que não esperava: não raiva, não ressentimento. Vazio. Um vazio tão profundo que parecia ter peso físico.
- Perfeito? - Seonghyun repetiu, como se a palavra fosse estrangeira. - Keonho, eu não consigo cantar a segunda estrofe sem... - Ele parou. Engoliu em seco. - Sem ouvir sua voz por cima da minha. No playback. Na minha cabeça. Em todo lugar.
O silêncio que se seguiu foi o mais perigoso dos dois anos que dividiam aquele estúdio.
Keonho apertou a lata com tanta força que o alumínio amassou entre seus dedos.
- Não começa.
- Eu não comecei nada. - Seonghyun se levantou. Ele era mais alto, mas Keonho nunca se intimidara com altura. - Você que entrou aqui como se eu fosse um fantasma. Como se eu não existisse. Como se aquela noite...
- Aquela noite não existiu. - Keonho cortou, e a voz saiu mais alta do que pretendia. Ele baixou o tom, controlado, perigoso. - Foi um erro. Você disse isso. Eu disse isso. Acabou.
Seonghyun deu um passo em sua direção. Depois outro. Keonho não recuou - nunca recuava, essa era a maldição deles dois - até que estavam próximos o suficiente para sentir o calor um do outro, para que Seonghyun pudesse ver a pulsação acelerada no pescoço de Keonho, para que Keonho pudesse sentir o hálito quente de Seonghyun misturado ao cheiro de menta e cigarro eletrônico.
- Então por que você está aqui? - Seonghyun sussurrou. Não era sedução. Era desespero. - Às três da manhã? Quando poderia estar no dormitório? Quando poderia estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, menos aqui, comigo?
Keonho abriu a boca. Fechou. Seus olhos caíam para os lábios de Seonghyun, subiam para seus olhos, fugiam para o teto. A versatilidade deles nunca fora apenas física - era emocional, era territorial, era uma guerra de atrito onde ninguém ganhava e ninguém cedia.
- Eu... - Keonho começou.
A luz do estúdio piscou. Apagou. Voltou.
Quando a iluminação estabilizou, algo tinha mudado. Não no ambiente. Em Keonho. Seus ombros caíram um centímetro. A mandíbula relaxou. Ele pareceu, pela primeira vez em meses, humano.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Playback Mudo (Seongkeonho) *one shot*
FanficDois anos atrás, em um quarto de hotel em Busan, Keonho acordou antes do sol e sumiu. Deixou apenas um bilhete, uma cama vazia e Seonghyun olhando para a porta por três horas seguidas. Agora, às três da manhã no estúdio B-3, o silêncio entre eles pe...
