Capítulo 1

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Início do mês de junho do ano de 1894, no país gélido de Whuno. Desta vez, porém, a história se passa no sudoeste do país, na cidade de TreeLife, a melhor entrada para pessoas e mercadorias em Whuno, por ser a única região do país com clima tropical.
A cidade de TreeLife é quase um patrimônio nacional da Coroa de Whuno, por ser uma adorável porta de entrada antes do inferno branco assombrado pela guerra civil que já dura três décadas no país.
Toda essa área é dividida em duas partes: a parte externa da cidade, onde passam os trens e chegam os navios, além de ser onde vive boa parte da população. Ali, os moradores contam com seus médicos e com a segurança atribuída pela Coroa, porém apenas nos portos e nas estações de trem, enquanto a máfia Fire cuida das ruas e dos bairros. A outra parte da cidade está situada dentro de uma árvore milenar, com mais de 3 mil metros de altura, contendo construções tanto no interior quanto no exterior de seu tronco e de seus galhos.
A árvore, séculos atrás, era lar de uma tribo de elfos e de humanais de esquilos que brigavam pelo território da maior árvore do país, que servia como refúgio para ambos. Tanto que foram os elfos que construíram os primeiros 50 dos 120 túneis internos da árvore, enquanto os humanais de esquilos construíram as primeiras 30 pontes entre os galhos, que serviram como referência para as futuras 60 construídas pelos colonizadores.
Não demorou muito para que, entre 1500 e 1507, os colonizadores limpassem os túneis dos elfos com a ajuda dos humanais de esquilos, que fizeram um acordo para entregar a árvore como território da tribo nativa. Em 1751, poucos anos após a independência de Whuno, o Rei George I expulsou os nativos da árvore, que se recusaram a trabalhar para ele em seu novo centro comercial principal.
Durante anos, a árvore foi transformada em parte da cidade de TreeLife, que recebeu esse nome em referência à própria árvore. Ela passou a abrigar lojas, restaurantes e até salões destinados à realização de festas e cerimônias.
Isso nos leva à parte interna da árvore, onde a gangue Joqueboker estaria andando pelos túneis em busca de madeira de pinho claro para reformar a casa dos gêmeos. Makuzo havia conseguido o dinheiro necessário para comprar os materiais.
Ele estava sem casaco, usando apenas uma camisa preta e suspensórios sobre sua calça jeans, com o cachecol vermelho enrolado no pescoço. Sem o chapéu, deixava seu cabelo longo, bagunçado e sujo à vista de todos.
Com ele estava John, que sentia falta do calor de Narran. TreeLife era a região mais quente de Whuno, mas ainda não chegava perto do clima de seu país natal. Mesmo com apenas 6 graus Celsius naquela parte da árvore, a brisa que passava pelos túneis servia como uma pequena lembrança do calor de Narran. Ele usava uma camisa branca com um colete marrom e uma boina cinza sobre a cabeça.
Ao lado do mercenário do cachecol vermelho estava sua irmã, Krinbely, que escondia o rosto com uma manta. Mesmo sentindo-se abafada e até mesmo com calor lá dentro, seu irmão insistia que ela a usasse para que ninguém descobrisse sua presença e, assim, evitar conflitos com a família Nazaré.
Ela olhava de loja em loja em busca de alguns móveis, passando por estabelecimentos que vendiam mesas, cadeiras, armários e outros artigos para casa. Também procurava lojas de ferragens e materiais de construção para encontrar o que fosse necessário para a reforma e, claro, tudo seria pago com o dinheiro de seu irmão.
Ou melhor dizendo, o dinheiro da gangue, pois Makuzo ainda havia pegado dinheiro emprestado com alguns integrantes, prometendo acertar os valores com pagamentos provenientes de futuros serviços. Mesmo assim, continuavam andando pelos túneis e passando por lojas movimentadas, enquanto comerciantes anunciavam seus produtos e moradores circulavam pelas passarelas que ligavam diferentes partes da árvore.
- Então... quando você vai? - Krinbely perguntou.
- Quando vou, o quê? - retrucou Makuzo, meio distraído, procurando especificamente por lojas de antiguidades e estabelecimentos que vendessem materiais variados. Ao redor deles, comerciantes anunciavam ferramentas, peças de madeira, objetos antigos e outros produtos, enquanto moradores carregavam sacolas e caixas pelos túneis. Makuzo ainda olhava para trás, à procura dos outros membros da gangue que haviam ido com eles.
- Visitar a minha cunhada. - Naquela manhã, Krinbely soube por John sobre o episódio na mansão Carbon e sobre o pedido de Deborah para que seu irmão a visitasse.
- De novo isso? Ela é só uma amiga. Não tenho interesse em uma garota que não possa me acompanhar no meu trabalho.
- Ainda prefere a Dvalin? - Krinbely estreitou os olhos, cansada daquela paixão sem correspondência de seu irmão.
Mesmo tendo apenas 14 anos e conhecendo Dvalin desde os seus 10, Makuzo parecia correr atrás dela havia 20 anos, sempre a convidando para sair, enquanto ela continuava rejeitando seus pedidos. O único pedido que ela havia aceitado foi o de entrar para a gangue como sua primeira integrante.
Enquanto os dois conversavam, passaram diante de uma loja de móveis que exibia cadeiras e pequenos armários na entrada. Mais à frente, algumas pessoas carregavam tábuas pelos túneis, desviando dos clientes que entravam e saíam das lojas. Makuzo continuava procurando entre os estabelecimentos, mas encontrar exatamente o que precisava parecia ser uma tarefa difícil.
- Ela gosta de mim, sempre trabalhou comigo - falou o rapaz.
- Ela sobrevive como a gente. Melhor viver em grupo do que sozinho, não?
- Sim... - Ele olhou para trás, passando o olhar além de John. Entre a movimentação dos moradores e dos comerciantes, procurava por alguém conhecido. - E sei que tem alguém que pensa um pouco parecido com isso.
Chroma, o segundo integrante a entrar na gangue, desde sempre brigava com Makuzo pela atenção de Dvalin.
A garota necromante sempre recusou o amor dos dois, pois sabia que nenhum deles lhe daria nem metade da vida luxuosa que tinha antes de se tornar criminosa.
- Você deveria ser menos orgulhoso, Kreiton. - Ela chamou seu irmão pelo seu verdadeiro nome. - Vão se passar anos, vou conhecer um rapaz doce e gentil, me apaixonar por ele, ter filhos, e você... vivendo uma fantasia irreal. - Ela falou com pesar.
- Se você arrumar alguém, eu me mato. - Ele disse, meio irritado, tomado pelo ciúme de irmão.
- Só não deixe a garota Carbon esperando, pelo menos. Veja no que dá. Quem sabe ela não seja o que você procura também?
- Madeira de pinho claro?
- Não, paz...
- Não.
- Makuzo, não é aquela loja? - John perguntou, apontando para uma loja que exibia longas tábuas claras, aparentemente feitas de pinho.
Makuzo estreitou os olhos e observou o emblema gravado em uma das tábuas: uma balança que, de um lado, pesava uma barra de ferro e, do outro, uma vinha.
O mercenário revirou os olhos e seguiu em frente, abanando a mão no ar, como se dissesse: "Essa não presta."
Krinbely estreitou os olhos enquanto observava as lojas, até que algo fisgou seu interesse: uma loja de tapeçarias que expunha tapetes feitos de couro. Nas paredes e no chão, havia tapeçarias comuns trazidas de diferentes países, algumas com desenhos geométricos, outras com paisagens, símbolos tradicionais e cenas de batalhas, todas produzidas com técnicas de tecelagem estrangeiras. Entre elas também havia tapetes de couro de animais conhecidos, como urso, alce e onça, além de outros predadores ocasionais. Mas aquilo não foi o que chamou sua atenção. Couro de dragão. Ela quase deu um grito de empolgação. Diziam que tapetes feitos de couro de dragão traziam uma vibração diferente ao ambiente, capaz de amenizar a dor de quem pisasse sobre eles, além de possuírem propriedades curativas e relaxantes.
Poderia ser um dragão de terra, água, fogo ou até mesmo de raio. O que realmente importava era que suas escamas fossem resistentes, porém flexíveis.
- Kreiton, vem comigo! - disse ela, puxando o irmão para dentro da loja sem qualquer consentimento.
Ela observou alguns couros de diferentes elementos, passando por tapetes de escamas avermelhadas, marrons e até negras. Nem sequer olhou as etiquetas ou os fornecedores; só parou quando viu um tapete feito de escamas azuis de um dragão-d'água salgada.
- Olha esse tom de azul, Kreiton! - ela disse, aproximando-se do tapete e passando os dedos pelas escamas azuladas. O brilho delas mudava conforme a luz das lamparinas penduradas no teto, revelando pequenos reflexos prateados. Mesmo com o sorriso escondido pela manta que cobria seu rosto, o brilho de seus olhos dizia tudo. - Já imagino nossa casa com essa cor linda.
- Tapete? Você está querendo um tapete? Viemos atrás de madeira. - Makuzo olhou para as outras tapeçarias espalhadas pela loja, algumas penduradas nas paredes e outras enroladas em suportes de madeira.
- É um tapete com propriedades curativas, recomendado por médicos e feiticeiros reconhecidos pela Coroa. - Krinbely continuou admirando as escamas, chegando a tocar em algumas delas com cuidado.
- Onde você viu isso?
- No jornal que levam para o Bico dos Gigantes. Tem uma semana de atraso, porém as informações ainda são válidas.
Makuzo soltou um suspiro e desviou o olhar para outras partes da loja. Havia tapeçarias trazidas de diferentes países, com desenhos de animais, paisagens, símbolos religiosos e cenas históricas. Em algumas prateleiras, pequenos rolos de tecido estavam organizados ao lado de amostras de diferentes tipos de couro.
- Esse tapete é coisa boa - falou uma voz grossa atrás deles. - Minha filha tem um tapete de dragão de terra na casa dela e, desde então, nunca mais pegou um resfriado sequer.
Krinbely ergueu a cabeça imediatamente, enquanto Makuzo se virou para procurar a origem da voz. Os dois chegaram diante de um balcão alto demais para eles. Atrás dele, aparecia apenas a testa de um anão, que organizava algumas pequenas peças de couro sobre o balcão.
Makuzo arqueou uma sobrancelha e se inclinou um pouco para conseguir enxergar melhor o comerciante.
- Um anão? Na superfície?
O anão parou o que estava fazendo e levantou os olhos para ele.
- Um viado fazendo compras? - rebateu.
Makuzo ficou em silêncio por alguns segundos, encarando-o, antes de endireitar o corpo.
- Desculpa, só estou surpreso de ver um anão fora das minas de escavação. O rei chutou vocês para fora também?
O comerciante apoiou as duas mãos sobre o balcão, olhando para Makuzo com uma expressão que misturava irritação e divertimento.
- Vão querer o tapete? 350 Merrens - disse o anão.
Um salário médio em Whuno, no ano de 1894, seria de 30 Merrens, e a maioria das pessoas costumava ter dois empregos para conseguir se sustentar minimamente, já que ganhar menos de 60 Merrens era praticamente pedir para passar fome.
- Ele veio direto do país de Banlandia, a Terra Mãe - continuou o anão.
Whuno não lidava apenas com uma guerra civil entre Leste e Oeste, nem somente com a guerra de gangues entre a B.Y.O.B. e a Máfia Fire. O país também enfrentava uma guerra comercial entre três empresas que disputavam o monopólio de seu mercado.
Banlandia, considerada por alguns whunanos como a Terra Mãe, possuía uma empresa que se apresentava como parte do governo balanês. Seu emblema era composto por três coroas, representando as três famílias reais do país. Seus produtos eram encontrados em diversos estabelecimentos de Whuno, principalmente nos comércios que trabalhavam com mercadorias importadas.
Uma de suas concorrentes era a empresa Lubeck, um grupo vindo do país de Pancheia, localizado ao norte de Banlandia. O grupo Lubeck sempre se apresentava como uma marca de alta classe em suas propagandas. Seu emblema era uma pena branca com bordas escuras, símbolo facilmente reconhecido pelos consumidores.
Já a terceira e grande empresa não pertencia a um país específico, mas a uma família: a família Athenas, atualmente composta apenas por sua última integrante viva, Karen Athenas, que vivia em Whuno. Seu emblema era a balança que Makuzo havia visto mais cedo e julgado como ruim.
Porém, não era possível julgar uma mercadoria apenas por seu emblema. As três empresas costumavam oferecer três níveis diferentes de qualidade, sendo eles Essencial, o básico; Expience, o intermediário; e Memory, o de elite. Quanto maior a qualidade de um produto, maior seria seu preço, que ainda era somado ao valor de atacado estabelecido inicialmente pela fornecedora.
Claro, o fornecedor e a qualidade da mercadoria só importavam em TreeLife e nos bairros nobres das outras grandes cidades de Whuno. Cidades pequenas, vilarejos e bairros pobres consumiam o que podiam e, na maioria das vezes, tinham acesso apenas aos produtos Essencial das três empresas.
- Kreiton, por favor. Compra para mim. - Krinbely pediu, segurando o braço de seu irmão. - Eu amei aquele tapete.
- Com licença. Seus olhos estão brilhando, moça? - perguntou o anão mercador, inclinando-se sobre o balcão e reparando nos olhos roxos e brilhantes de Krinbely, parcialmente escondidos pela manta.
Makuzo imediatamente se colocou um pouco à frente da irmã, tentando bloquear a visão do comerciante.
- Não sei, 350 Merrens é muito caro - cortou Makuzo, desviando a atenção do mercador dos olhos de sua irmã. - Acho que poderíamos chegar a um valor mais amigável: 200.
O anão soltou uma risada curta e apoiou os cotovelos sobre o balcão. Atrás dele, entre as tapeçarias estrangeiras, havia pequenos objetos decorativos com símbolos de antigas famílias nobres e mapas emoldurados das terras colonizadas por Whuno.
- 340. Esse tapete é de qualidade Experience.
- 210. Me ofendeu de viado quando entrei na loja, e o tapete parece mal armazenado.
- 330. O tapete é devidamente armazenado, como instruído pelos colonizadores dessas terras. Pelo menos eles sabiam como organizar um comércio de verdade.
- 220. Não sou muito fã de colonizador, amigo. Sou um cowboy. E sabe como somos? Sem leis.
O anão estreitou os olhos, claramente incomodado com a resposta, mas voltou a exibir um sorriso convencido.
- 320. Seus olhos também brilham, amigo. Um brilho vermelho. Você também seria mágico, por acaso? Ou só quer combinar com seu cachecol?
Makuzo percebeu que o comerciante estava começando a observar os dois com atenção demais.
- 230. Sou uma criança tentando sobreviver nesse inferno gelado como todo mundo. Me ajuda, amigo. Sabemos que esse tapete não vale tanto assim.
- 310. Se for usar essa lógica, nada aqui faz sentido. Nem nossas vidas. Eu tenho bocas para alimentar em casa, parceiro.
O anão apontou para algumas das tapeçarias penduradas.
- E não compare meus produtos com as porcarias que os povos inferiores costumam vender nas cidades pequenas. Aqui você está comprando mercadoria de verdade.
- 240, e aquelas cortinas azuis com bordas de prata. Vamos equilibrar o valor para nenhum de nós dois sair perdendo. Aquilo também é do governo balanês? Gosta deles, então?
- 300. Só admiro a liderança deles, e talvez o país estivesse em uma condição melhor se continuasse uma colônia deles.
- 250 e as cortinas. Melhor fechar negócio comigo ou saio daqui e falo para todos que você prefere que todos usem a bandeira balanesa e seria a favor da volta da escravidão.
O sorriso do anão desapareceu. Ele encarou Makuzo por alguns segundos, enquanto Krinbely permanecia ao lado do irmão, segurando a manta contra o rosto.
- 275, com as cortinas, e você mantém o bico calado - falou o anão.
Makuzo estendeu a mão por cima do balcão.
- Fechado.
O anão apertou sua mão sem entusiasmo, ainda olhando para ele com desconfiança.
- Vocês já vão levar ou mando para alguém? - perguntou o anão, enquanto Makuzo pegava sua carteira e começava a separar as notas.
- Pode levar para a saída da árvore. Um humanal de cavalo está guardando minha carroça - disse o cowboy, colocando sobre a mesa duas notas de 50 Merrens, que eram as maiores da época, cinco de 20, cinco de 10 e cinco de 5.
- 7,50 para descer o tapete e as cortinas.
- Justo. - Ele colocou algumas moedas sobre o balcão.
- Humanal branco ou negro de cavalo? De alguma raça?
Makuzo bufou.
- Branco. Raça de cavalo mestiço.
O anão assobiou, chamando uma criança que morava dentro da árvore. Ela se aproximou com cuidado, olhando para os dois antes de parar diante do balcão.
- Pivete, quer 2 Merrens? - disse o anão, separando cerca de vinte pequenas moedas sobre o balcão. - Leva esse tapete e essas cortinas para um humanal branco de cavalo mestiço lá na saída da árvore.
A criança recolheu as moedas e começou a juntar o tapete e as cortinas para levá-los.
Makuzo fez uma careta ao notar que havia acabado de perder 5,50 Merrens.
- Muito obrigado pela atenção. - disse o mercenário, colocando a mão sobre o ombro da irmã e conduzindo-a para fora da loja.
- Obrigada, Kreiton - disse ela em tom baixo.
- Agradece não me chamando por Kreiton pelo resto do dia.

Os Ventos de um Fora da Lei: Predadores ArcanosDes histoires addictives. Découvrez maintenant